Professor Darcy Ribeiro, grande educador - créditos: divulgação
06-04-2026 às 17h07
Direto da Redação
Não importa já ter passado o centenário do professor Darcy Ribeiro porque o importante mesmo é falar dele e estimular seja ele lido e estudado, com entusiasmo senão maior, pelo menos equivalente ao dos chineses, que têm em mãos o livro “O Povo Brasileiro”, traduzido para o mandarim, no qual o autor, como original feiticeiro, mostra o caldeirão no qual a raça brasileira se forjou.
O nome Darcy Ribeiro e a obra dele estão fadados a serem lembrados, lidos e estudados pelas gerações atuais e as que ainda virão, principalmente por aqueles que se interessarem em conhecer, a química dessa mistura sanguínea, o que é do interesse das demais raças da composição da massa humana.
Mas, a propósito do centenário esquecido de um dos maiores brasileiros de todos os tempos, como lembra o também professor doutor em Filosofia do Direito, Paulo Roberto Cardoso, da UFMG, Darcy Ribeiro, pela força e vigor de sua obra, e seu pensamento, acaba de nos dar uma preciosa lição, para além do túmulo, a de que o local pode sempre tornar-se universal, não obstante as forças menores que tentam apagar, limitar ou suprimir o homem e a sua obra.
Darcy Ribeiro, mesmo tendo o seu centenário de nascimento passado em brancas nuvens em sua terra natal, Montes Claros, (MG), certamente, o silêncio em torno dos seus 100 anos de nascimento se deveu a pequenas e micros paixões políticas locais. O escritor Nelson Rodrigues afirma que a mais estúpida e pequena das paixões humanas, é a paixão política, que nos trazem grandes prejuízos.
O silêncio em torno do Centenário de Darcy é desses pecados imperdoáveis, que nós, mineiros, de tempos em tempos neles incorremos e ao qual em um artigo publicado pelo erudito Murilo Badaró, intitulado “Nariz de Judeu”, demonstra a força, a potência, a grandeza da obra, da personalidade, da criatividade, da originalidade de Darcy, que a tudo venceu e rompeu para ser editado em mandarim na distante, milenar, misteriosa e enigmática China.
Darcy acaba de ser traduzido para o mandarim, na China. E isso nos ensina, mais uma vez, quase dez anos depois de sua morte, o ser brasileiro é introduzido na civilização milenar chinesa, que tudo já viu e tudo viveu. Ao traduzir a obra de Darcy Ribeiro, a China emite ao Ocidente um claro recado geopolítico. Avisa ao Ocidente que ela, China, viu em Darcy o anúncio profético do surgimento de uma nova Roma. Roma negra, ameríndia, ibérica, latina, portanto depositária de toda a potência, de toda a trajetória do mundo latino.
A crise do ocidente, muito bem descrita em obra do francês Emmanuel Todd, intitulada “A derrota do ocidente” nos mostra as limitações e os limites do mundo anglo-americano como no passado recente, de se sentirem os legítimos herdeiros do Ocidente greco-romano, esse Ocidente marcado no seu apogeu, na sua grandeza pelas realizações hoje fragmentadas e divididas.
Os chineses ao traduzirem Darcy Ribeiro podem perfeitamente estar se lembrando da visita épica e a epopeia do presidente francês Charles De Gaulle em visita ao continente americano, exatamente relembrando a presença latina na América.
De Gaulle ao bradar o célebre grito de “Viva Quebec livre”, no coração do Canadá, na realidade cunhava uma sentença de que a Latinidade presente no continente americano se estendia da Patagônia ao Canadá e que essa latinidade trazia o futuro em si, o futuro do Ocidente, o Ocidente hoje fragilizado fragmentado limitado pela incapacidade do mundo de entender, num contexto no qual um dos seus mais preciosos intelectuais, o professor Samuel P. Huntington preconizou como choque de civilizações, na incapacidade de perceber, ler e entender o significado das novas guerras do presente e do futuro, que se caracterizarão como choques de civilizações.
Não conseguem entender o que a China geopoliticamente acaba de perceber, e de avisar ao mundo, que entendeu o resgate do mundo latino, o resgate da latinidade como o caminho único e possível de reconstrução e recomposição do Ocidente.
O filósofo russo, radicado na França, Alexandre Kojève (1902–1968) ao final da guerra,1945, com a Europa destroçada, foi convidado a assessorar o presidente Charles De Gaulle e ele produziu o texto do “Império dos Latinos”, no qual apontava que a necessidade de reconstrução da Europa soberana, autônoma e independente no pós guerra, necessariamente passava pela recomposição dos países latinos, compreendidos França, Itália, Espanha, Portugal, Romênia e todo o vasto território compreendido da América Latina. Este seria o caminho da recomposição da Europa
O presidente Charles De Gaulle deu mostras exaustivas de ter entendido, de ter estabelecido um roteiro geopolítico e geoestratégico, aquelas orientações contidas no “paper” do filósofo Alexandre Kojève e o que hoje parece, a China ao traduzir Darcy, deixa claro que está resgatando essa estratégia capaz de salvar o ocidente da preconizada derrota descrita pelo sociólogo francês Emmanuel Todd.
Mas, aqui, em Minas Gerais, não obstante o “Nariz de Judeu”, nem todos ficaram indiferentes ao centenário desse gigante Darcy. O professor José Luiz Borges Horta, titular da Cadeira de Teoria do Estado, da Faculdade de Direito da UFMG deu início, neste semestre, ao seminário voltado para estudar Darcy e a sua obra e não o fez solitariamente, envolveu a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Essas três conceituadas, premiadas e reconhecidas instituições superiores de ensino se irmanaram em um seminário envolvendo os seus alunos em torno do pensamento e da obra de Darcy Ribeiro rompendo, desta maneira, o cerco e o pacto de silêncio da mediocridade motivada pelas pequenas paixões políticas que tentaram silenciar, em nossas montanhas, o vigor e a potência do pensamento desse intelectual seminal que é Darcy Ribeiro.

