Créditos: Divulgação
16-08-2026 às 09h13
Araciara Macedo*
A música me alcançou antes que eu pudesse perceber que estava sendo conduzida por ela.
Meus pés afundavam na areia fria e úmida de uma praia deserta. O vento chicoteava meu corpo, levantando o vestido e arrepiando minha pele, enquanto a chuva escorria pelo rosto. Ao longe, a voz de Tarja Turunen parecia atravessar a escuridão especialmente para me encontrar.
Eu caminhava sem saber exatamente para onde.
Ou talvez soubesse.
A cabana surgiu entre as árvores como uma promessa.
Uma luz dourada escapava pelas frestas das janelas. A porta estava entreaberta. Parei diante dela por alguns segundos, respirando fundo, sentindo o coração bater depressa demais.
Então entrei.
E você estava ali. Recortado pela luz das velas, como se tivesse sido desenhado pela própria noite.
A camisa branca de linho estava aberta sobre o peito. A calça jeans delineava suas pernas. O cabelo ainda estava ligeiramente úmido, e havia naquele sorriso uma tranquilidade que me desarmou completamente.
Você não perguntou por que eu estava ali, apenas me olhou e abriu os braços.
Foi o bastante.
Atravessei a pequena distância entre nós e me abandonei ao teu abraço. Meu corpo encontrou o teu com uma familiaridade quase assustadora. Como se já conhecesse aquele encaixe. Como se tivesse passado anos procurando exatamente aquele lugar.
Você me apertou contra o peito. Senti teu calor atravessar o tecido molhado do meu vestido e fechei os olhos.
O cheiro da tua pele misturado ao perfume das velas, à madeira úmida e à chuva tornou-se uma espécie de vertigem.
Quando levantei o rosto, encontrei teus olhos.
Havia desejo neles.
Mas havia também ternura.
Tua mão tocou meu rosto. O polegar percorreu lentamente minha bochecha, como se quisesse memorizar minha pele.
Então tua boca encontrou a minha.
O primeiro beijo foi lento. Quase uma pergunta.
Eu respondi aproximando ainda mais meu corpo do teu.
O segundo beijo já não pediu licença. Tinha saudade, fome, promessa.
Tuas mãos deslizaram pelas minhas costas e chegaram à cintura, trazendo-me para mais perto. Senti minha respiração mudar. O coração acelerou quando teus lábios abandonaram minha boca e encontraram meu pescoço.
Inclinei a cabeça. Entreguei-te aquele espaço.
Teus beijos deixaram uma trilha quente sobre minha pele, e um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
— Você treme quando eu faço isso — sussurraste.
Sorri, sem conseguir esconder o efeito que tuas palavras tinham sobre mim.
— Eu esperava por isso – respondi.
A frase ficou suspensa entre nós.
Teus olhos escureceram.
Minhas mãos encontraram teu peito e percorreram lentamente a pele descoberta pela camisa aberta. Sentir teu corpo sob meus dedos fez alguma coisa dentro de mim despertar completamente.
Você segurou minha mão e beijou a palma.
Depois entrelaçou nossos dedos.
Era estranho como um gesto tão simples podia ser tão íntimo.
O laço do meu vestido foi desfeito lentamente.
O tecido escorregou pelos meus ombros.
A luz das velas tocou minha pele, e por um instante senti-me vulnerável.
Você não avançou.
Apenas me olhou.
Como se naquele momento eu fosse a única coisa existente no mundo.
Foi o teu olhar que me despiu primeiro.
Aproximei-me.
Coloquei as mãos em teu rosto e beijei tua boca outra vez.
Lá fora, a chuva engrossava.
Dentro da cabana, o ar parecia cada vez mais quente.
Você me tomou nos braços e me levou até a cama de dossel. Os lençóis brancos receberam meu corpo enquanto você se inclinava sobre mim.
Nossos rostos ficaram tão próximos que eu podia sentir tua respiração.
— Olha para mim.
Obedeci.
— Quero que você se lembre desta noite.
Passei os dedos pelos teus cabelos.
— Eu já sei que vou me lembrar.
Você sorriu.
E então o resto aconteceu devagar, entre beijos demorados, abraços apertados e aquela espécie de silêncio que só existe quando duas pessoas finalmente deixam de resistir ao que sentem.
Não havia pressa.
Havia descoberta.
Havia o prazer de reconhecer cada reação, cada arrepio, cada mudança na respiração.
Meu corpo parecia responder antes mesmo que minha mente compreendesse.
A música continuava tocando baixinho.
A chuva batia no telhado.
As velas tremulavam.
E nós dois desaparecemos do mundo.
Por algumas horas, não existiram passado, futuro, medo ou distância.
Existiu apenas aquela noite.
Aquela cabana.
Aquela pele.
Aquela certeza absurda de que, em algum lugar do tempo, nossas almas já haviam se encontrado.
Quando finalmente repousamos um nos braços do outro, minha cabeça encontrou teu peito.
Fiquei ouvindo teu coração.
Ainda acelerado.
Ainda vivo.
Desenhei distraidamente uma linha sobre tua pele e senti teu braço envolver minha cintura.
Lá fora, a tempestade começava a perder força.
Dentro de mim, porém, ela continuava.
Aproximei os lábios do teu ouvido.
— Somos um agora.
Você beijou meus cabelos.
E eu sorri.
Porque algumas noites não acabam quando amanhece.
Algumas permanecem na pele.
No cheiro dos lençóis.
Na memória de um beijo.
Na saudade que começa justamente quando a pessoa ainda está ao nosso lado.
E aquela noite…
Aquela noite tinha aprendido os nossos nomes.
(*) Araciara Macedo é diretora de Jornalismo do grupo de comunicação “A Gazeta do Amapá”

