Créditos: Divulgação
16-08-2026 às 08h33
Caio Júlio César Brandão Pinto*
Caio Júlio César Lopes Cançado*
Nessa trama familiar perversa me pergunto se sou um sobrevivente ou um guerreiro, ou se um guerreiro sobrevivente. Sobreviver às próprias batalhas é sempre temerário, particularmente aquelas de cunho estritamente pessoal, porque a verdade sempre será colorida pelas conveniências do momento.
Os guerreiros costumam tomar decisões solitárias. Conscientes de suas próprias cicatrizes, sofrem as consequências de suas escolhas e de seus atos. Por isso, trocam o impulso pela prudência: o caminho mais seguro passa a ser o resguardo de sua integridade, eliminando riscos desnecessários e evitando o envolvimento em causas perdidas.
Mas o guerreiro não nasceu pronto: foi se moldando aos poucos diante dos obstáculos que encontrou no meio do caminho, enquanto seguia os seus sonhos ainda não sonhados. Os sonhos verdadeiros são aqueles que não se transformam em realidade — têm o seu fim em si mesmos e são puros. A realidade tem o dom de turvar os sonhos, de torná-los imperfeitos e privá-los da sua essência juvenil.
Maura não fazia parte dos meus sonhos. Dela, por opção, tomei conhecimento tardiamente — uma escolha sofrida, mas pragmática, como convinha a um guerreiro desarmado, obrigado a enfrentar as contradições da própria existência e os inevitáveis solavancos que delas decorreram.
Escolha sofrida, mas isenta de arrependimentos, porque eu não tinha o dom de apagá-la; tratava-se de uma criança frágil, recém-nascida no lugar e na hora errados. Não me atrevo a dizer “através da mulher errada”, pois tal eventualidade encerra uma infinidade de considerações que não me julgo apto a avaliar — ou sequer a colocar na balança —, visto que desconheço as medidas que pautam a régua do destino.
Passar ao largo da Maura, foi sofrido. Comentários, insinuações, frases soltas, a curiosidade de uns e o desdém de outros, a admiração de alguns… Maura era muito forte, tanto por ela mesma, quanto pela sua trajetória, com todos os seus defeitos e qualidades: era um caldeirão sempre pronto a explodir na minha cara, mediante a malvadeza de poucos e a indiscrição de muitos. Mas fui levando a vida preenchendo espaços, somando, me fazendo necessário e sempre com algum destaque. Afinal, eu tinha combustível suficiente para me fazer notar, mercê também da ascendência incomum e de intelecto singular— o dela —, mas me continha sem exibições.
Certa feita, um vizinho — homem maduro, pai de crianças de quem eu era amigo — parou-me na rua e, desdenhando de Nair, minha mãe adotiva, perguntou: — Você é filho da Maura?
A pergunta não apenas soou, mas também penetrou e cravou fundo numa ferida aberta que não sangrava, porque era existencial, moral e personalíssima.
Fosse eu filho de uma mulher simples, comum, não passaria por um ataque do tipo; mas não era o caso. Maura, mais do que uma patente, era um estigma: uma marca moral, social e familiar impressa a ferro em brasa na minha testa, marca ardente e invisível. E eu não sabia se amava ou se odiava essa circunstância.
Mas, apesar das pedras no caminho, segui em frente, disposto a desconsiderar minha real ascendência e a assumir completa e definitivamente os vínculos familiares de Nair e Paulo — com todos os tios, tias, primos e agregados que, com raras exceções, me acolheram sem restrições e com generosa discrição.
Contudo, eu estava só. Apesar do meio em que vivia, era um cavaleiro solitário que dependia, acima de tudo, de si mesmo. Se me tornasse vencedor, diriam ter sido por conta da hereditariedade da mãe biológica genial; se derrotado, pela consequência genética da mãe louca e homicida.
Eu precisava encontrar o meu caminho, inclusive à margem de Nair — mulher também brilhante, mas complexa —, e encontrei-o sem lamúrias, sem drogas, sem violência, sem recalques, sem orações e sem todas essas perversidades que apequenam o homem perante si mesmo e fragilizam a sua personalidade.
Agora, contudo, aos 76 anos, concluí não ser correto manter desinformados da sua verdadeira genealogia os meus seis filhos, sendo três do primeiro casamento, com Maria das Graças, e três do segundo, com Anna. A primeira, também jornalista, e a segunda, administradora, chinesa e britânica, nascida em Hong Kong, que se transformou em intérprete diuturna das minhas inúmeras e permanentes contradições.
As crônicas O Encontro I e II, já publicadas, abriram a porta dessas revelações, que ora é escancarada neste O Encontro III. Agora, resolvi arrematar, orientando os meus descendentes no tocante aos seus ascendentes, quando me deparo com mais uma surpresa: o meu registro civil.
Dizia Jô Soares, em seu inesquecível talk show na TV Globo, que “todo pai é cego”. Informações estavam ao alcance da mão e eu não sabia.
Amanda, minha filha, também advogada, sacou duas certidões de nascimento de sua pasta de maldades: numa eu me chamo Caio Júlio Cesar Brandão Pinto, filho de Nair Brandão Pinto e de Paulo Emílio de Mendonça Pinto, e na outra, eu sou Caio Júlio Cesar Lopes Cançado, filho de Maura Lopes Cançado e de pai desconhecido. O registro feito pela Maura veio primeiro.
Vantagens disso: posso me transformar em outra pessoa, com outra identidade, e abrir um novo tomo na minha história. Ou, se preferir, permanecer como estou e dar loas a Maura e ao Caio Júlio Cesar. Ela, na sua genialidade, deu ao primeiro Caio a imortalidade, porque passará o Brandão e o Lopes Cançado permanecerá insepulto e a assombrar os registros notariais por toda a eternidade. Mas, também posso inverter isso, se quiser, e arcando com todas as repercussões boas e más, bem ao estilo Maura.
Ah, essas mulheres ousadas, irresponsáveis e loucas, como as admiro no caos que as alimenta e do qual, mesmo me esquivando, também faço parte.
*Caio Júlio César Brandão Pinto e/ou Caio Júlio César Lopes é jornalista e advogado

