Créditos: Divulgação
06-06-2026 às 09h11
Luís Carlos Silva Eiras*
Em 1967, quando o Papa Paulo VI publicou a encíclica Populorum Progressio, parte do establishment econômico americano reagiu com a serenidade habitual dos mercados diante de qualquer sugestão de justiça social: acusando o documento de ser “marxismo requentado” – um clássico das diatribes da direita – transformando o apelo à redução da pobreza em ameaça revolucionária.
Quase seis décadas depois, o Vaticano voltou ao campo de batalha das grandes transformações econômicas e tecnológicas. Desta vez, porém, o inimigo não é a fábrica fumegante do século XIX nem a desigualdade entre Norte e Sul do mundo. É o algoritmo.
Na encíclica Magnifica Humanitas, publicada em maio de 2026, o Papa Leão XIV tenta fazer algo extraordinariamente ambicioso: criar uma doutrina moral para a era da inteligência artificial.
O curioso é que a reação foi muito diferente da recebida por Paulo VI. Não houve manchetes denunciando um novo Karl Marx escondido sob a batina papal. Talvez porque os críticos tenham percebido que o documento é intelectualmente sofisticado demais para ser reduzido a slogans. Ou talvez porque as grandes empresas de tecnologia tenham descoberto que discutir ética é menos perigoso do que discutir impostos.
A escolha entre Babel e Jerusalém
O texto estrutura-se em torno de duas metáforas bíblicas. A primeira é a Torre de Babel: um projeto grandioso, tecnicamente impressionante, centralizado e movido pela ambição de alcançar os céus sem prestar contas a ninguém. A segunda é a reconstrução de Jerusalém por Neemias: uma obra coletiva, distribuída, construída por múltiplas mãos e orientada para o bem comum.
A mensagem é transparente até para um algoritmo treinado em maximizar cliques em redes sociais. A questão não é ser contra ou a favor da tecnologia. A questão é decidir se ela servirá para concentrar poder ou para distribuí-lo. Ou uma nova Babel digital ou uma nova Jerusalém colaborativa.
A ontologia gerada a partir da encíclica (imagem acima) torna essa arquitetura conceitual ainda mais explícita. No centro do diagrama encontra-se a “Dignidade Humana”, da qual irradiam princípio como bem comum, subsidiariedade, solidariedade e justiça social. Em torno desse núcleo gravitam inteligência artificial, verdade, liberdade, trabalho, comunicação e poder. É uma espécie de mapa mental da civilização digital vista a partir da tradição católica: menos Silicon Valley e mais Santo Agostinho.
O problema não é a máquina
Ao contrário de muitas críticas contemporâneas à inteligência artificial, a encíclica não adota um tom apocalíptico. Ela reconhece que a tecnologia pode curar doenças, ampliar a educação, melhorar a comunicação e contribuir para o desenvolvimento humano. O problema não está na ferramenta.
O problema surge quando a ferramenta se transforma em critério absoluto. A encíclica chama isso de “paradigma tecnocrático”: a crença de que eficiência equivale a sabedoria, velocidade equivale a progresso e poder computacional equivale a legitimidade moral.
Trata-se de uma crítica particularmente incômoda, porque atinge o coração do modelo econômico contemporâneo. Durante décadas, o Ocidente acreditou que qualquer inovação tecnológica seria automaticamente benéfica. Agora descobre que algoritmos podem manipular eleições, destruir empregos, concentrar riqueza e amplificar mentiras com a mesma eficiência com que recomendam filmes ou identificam tumores.
Quem matou?
É na discussão sobre armas autônomas, que o texto se torna mais contundente. A encíclica rejeita explicitamente a ideia de delegar decisões letais a sistemas artificiais.
A razão é simples. Quando uma máquina decide quem vive e quem morre, surge uma pergunta inconveniente: quem é responsável? O programador? O fabricante? O general? O operador? O investidor? O algoritmo? O “sistema”?
Para Leão XIV, a resposta é inequívoca. A responsabilidade moral não pode ser terceirizada para linhas de código. Se um ser humano é morto por um sistema automatizado, deve existir uma cadeia identificável de responsabilidade humana. Em outras palavras: mesmo na era da inteligência artificial, alguém continua tendo de assinar a ordem. A máquina pode apertar o gatilho; a culpa permanece humana.
O novo nome da paz
Há uma interessante continuidade histórica entre Populorum Progressio e Magnifica Humanitas. Paulo VI afirmava que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. Leão XIV parece sugerir que, no século XXI, a governança da inteligência artificial talvez seja o novo nome da sobrevivência.
A encíclica também retoma temas clássicos da Doutrina Social da Igreja: a dignidade do trabalho, a função social da propriedade, a solidariedade entre povos e a prioridade da pessoa sobre o lucro. A diferença é que agora os meios de produção não são apenas fábricas e máquinas industriais. São dados, algoritmos, plataformas e infraestruturas digitais.
Essa mudança explica por que a encíclica insiste tanto na ideia de que dados e sistemas digitais não podem ser analisados apenas como mercadorias privadas. A discussão que começou com operários em minas de carvão chega agora aos servidores, centros de dados e modelos de linguagem.
A Igreja entra no século XXI
O documento termina com um apelo que soa surpreendentemente contemporâneo: não construir a próxima Babel.
É uma advertência dirigida a governos, empresas, engenheiros, investidores e cidadãos comuns. A tecnologia, afirma o Papa, não determina o futuro. As escolhas humanas determinam o futuro. Os algoritmos apenas ampliam as consequências dessas escolhas.
Em 1967, muitos viram na Populorum Progressio uma perigosa interferência da Igreja em assuntos econômicos. Em 2026, a reação é diferente. Talvez porque a inteligência artificial tenha tornado evidente uma verdade antiga: quando máquinas passam a influenciar trabalho, guerra, informação, riqueza e democracia, a discussão deixa de ser técnica e volta a ser moral.
E quando uma discussão se torna moral, Roma costuma aparecer. Às vezes com atraso de alguns séculos. Desta vez, curiosamente, chegou antes que os engenheiros terminassem de decidir quem será responsabilizado quando o próximo algoritmo apertar o próximo gatilho.
*Luís Carlos Silva Eiras é escritor.

