Pena de Morte por injeção letal nos EUA e agora também por fuzilamento - créditos: divulgação
10-05-2026 às 11h40
Rogério Reis Devisate
Os Estados Unidos devem retomar a execução da pena de morte por fuzilamento e cadeira elétrica, quando a injeção letal não estiver disponível. Antes de avançar, convém registrar que este não é um artigo a favor ou contra a pena de morte. O foco da análise está em outro patamar e é importante que o ponto de interesse seja percebido, pois a discussão proposta envolve algo que está inserido em nossas mentes, em nosso senso comum, em nossos instintos e em nossos juízos de valor. Costumamos julgar antecipadamente, com um conceito concebido antes da análise dos conteúdos informativos, o que nos impede de comparar – com isenção – os mesmos fatos e atitudes quando ocorrem com duas pessoas diferentes.
A repulsa à retomada desses meios de execução da sentença de pena de morte parece se dar por sua iminência de ocorrer nos Estados Unidos, pois não vemos manifestações contrárias ou críticas ao que ocorre na China, que é o país que mais condena pessoas à pena de morte – muitas por fuzilamento. Segundo a Anistia Internacional, a China é a recordista nessas condenações, tendo executado “mais do que todos os outros países do mundo juntos” e com um “sistema de sigilo elaborado para disfarçar a escala chocante de execuções no país” (Anistia Internacional; anistia.org.br, 10.4.2017). Aliás, acaba de ser noticiado que a China condenou à pena de morte dois ex-ministros da Defesa.
Sobre isso, analistas buscam compreender o que está ocorrendo, sendo fundamental que percebamos o peso do que o jornal espanhol El Pais diz sobre esses analistas, deixando claro que que são de fora do território chinês, porque esse assunto, “dentro do país, é um tabu, completamente proibido em debates públicos”!
Diferentemente daqui, dos Estados Unidos e de outros países do mundo, onde as pessoas (ainda) podem ter opiniões, os políticos discordar, o Parlamento se pronunciar e os jornais fazer matérias sobre todos os assuntos, na China isso não ocorre, do mesmo modo que acontece em outros locais e países, povos ou regiões onde não se prestigia os valores democráticos, a liberdade de se falar o que se pensa ou de se reunir sem ser vigiado ou monitorado e o direito de ir e vir.
Fica, então, evidenciado um paradoxo insuperável entre quem diz defender democracia mas não é capaz de criticar todos os países que executam a pena de morte por fuzilamento. Fica fácil se levantar bandeiras, fazer protestos nas ruas e pegar o megafone para palavras de efeito, onde a liberdade impera. É inversamente proporcional e difícil ou impossível fazer algo assim nos países e regiões que não defendem esse democrático direito e os seus vieses de liberdade e fraternidade.
Certa vez vi breve trecho em aplicativo de celular onde alguém foi indagado sobre o socialismo e respondeu que “é bom porque as pessoas podem “socializar”! Pelo jeito esse não fez o dever de casa ou faltou à lição… Todo regime que teme a liberdade de imprensa precisa dos segredos e isso contraria, também, as claras informações sobre tudo, dos valores e atos até a pena de morte… E a instalação do medo na sociedade, das mordaças nas pessoas, da liberdade vigiada, do patrulhamento ideológico, das perseguições e prisões arbitrárias nos afasta do sentimento de ser livres e… nos afasta da individualidade, tão cara, tão importante, pois é característica do que nos faz indivíduos. Roubada a individualidade, só resta ao cidadão se esconder nas massas e isso nem sempre termina bem, como vimos em vários momentos da história, inclusive em radicalizações como nazismo, socialismo e fascismo. O professor Friedrich Hayek, em obra fundamental em qualquer biblioteca e publicada no calor da 2ª Guerra Mundial – que aqui foi intitulada O caminho da Servidão – explica o embrião de muitos movimentos de massa e analisa, em capítulo próprio, “as raízes socialistas do nazismo”, com os alemães da época fazendo o seu “socialismo adaptado”, reunindo socialistas e conservadoras contra o liberalismo e a igualdade de todos perante a lei. A primeira coisa que fizeram foi começar a criar diferenças entre as pessoas e a perseguir e tratar alguns exatamente por causa dessas diferenças… com a velha prática do “nós contra eles”.
Portanto, há uma dicotomia evidente. Partes dicotômicas não se misturam, não dialogam, não combinam. Ou se tem uma coisa ou se tem outra. Essas nuances estão na base da nossa capacidade de usar da nossa liberdade e do nosso querer para questionar um país por instituir pena de morte por fuzilamento e outros meios, mas não para criticar ou apontar o dedo para o país que mais adota essa atitude… Acaso os condenados de um país valem mais do que os de outros ou a questão está na liberdade para se criticar num país e não se criticar em outro, para se fazer passeata em um e não em outro, para se atrair a imprensa em um e ter que silenciar em outro? Precisamos analisar os fatos, antes de dizer sim ou não – ou a nossa atitude é seletiva? Metaforicamente, gostamos mesmo de jiló ou apenas fingimos gostar porque não podemos reclamar ou não é politicamente correto protestar?
Em tempos de geopolítica em ebulição, precisamos valorizar as ideias diferentes e a multiplicidade de formas de pensamento, que só ocorrem se pudermos pensar e agir com liberdade. Só assim prosperaremos como Nação e sairemos vitoriosos e intactos dos acontecimentos imperialistas que ocorrem em várias frentes pelo mundo, com China, Rússia e EUA espalhando os seus tentáculos econômicos e políticos.
A propósito, parece que foi boa a reunião entre Trump e Lula e noticiou-se que as terras raras estiveram na pauta. Estes são minerais fundamentais para o mundo moderno, dos quais a China é o nosso maior comprador (absorveu 99,4% das exportações, em 2025). Assim, presumivelmente, sobre esse assunto, imaginamos que o diálogo não tenha fugido do que tradicionalmente temos feito, desde o governo de Getúlio Vargas, quando os EUA vieram buscar imensas quantidades de Areia Monazítica nas praias do Espírito Santo. Aliás, no ano de 1951 Getúlio Vargas assinou decreto regulamentando a pesquisa e lavra de terras raras e minerais atômicos, algo parecido com o momento atual, em que a Câmara dos Deputados aprovou projeto sobre um fundo garantidor, que ainda terá que passar pelo Senado e pela sanção presidencial.
Pode ser que consigamos a autonomia para vender a quem pagar melhor, embora essas não sejam apenas mercadorias comercializáveis, por possuírem alta relevância estratégica – e, assim, não vistos somente pela lupa da caixa registradora, pois mais interessa a lente da geopolítica e dos alinhamentos globais e regionais e parcerias. Não se pode ser amigo de todo mundo e não existe almoço de graça. A análise que qualquer um tiver que fazer sobre isso, não pode ser menos isenta do que sobre qualquer assunto – inclusive sobre a liberdade para criticar os países onde ocorre a pena de morte.
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