Página em branco esperando a inspiração brotar - créditos: divulgação
18-04-2026 às 17h10
Giovana Devisate*
A página em branco não me assusta e acho que esse é o meu maior segredo de escrita. Quando não sei o que escrever, só paro na frente do computador e vejo o que surge através dos meus dedos.
Desde que era mais nova, quando tinha redação ou produção textual como matéria da grade escolar, eu lia o tema, os textos relativos ao enunciado, mas não pensava muito. A minha parada sempre foi escrever, elaborar em cima de uma ideia que às vezes nem é real, pensar, imaginar cenários, descrever coisas e, especialmente, sentimentos.
Na faculdade, eu praticamente só produzia textos críticos e acadêmicos -e até hoje os escrevo, visto que a minha pós-graduação é em crítica de arte e que produzo pesquisas acadêmicas por aí. Porém, agradeço sempre por ter esse espaço em que posso escrever em primeira pessoa e bancar a nudez da minha consciência.
Há duas semanas, quando publiquei o artigo “Em 400 anos, a culpa ainda não mudou de lado”, sobre a permanência da violência contra as mulheres ao longo da história e o foco na vítima, do barroco aos dias atuais, citando a história da Artemísia, um conhecido me mandou mensagem. Ele elogiou o texto, a escrita e o raciocínio e perguntou qual seria o próximo tema. A minha resposta foi a mais sincera de todas: não tenho a mínima ideia.
Inúmeras pessoas também já me perguntaram, ao longo dessas quase 60 semanas seguidas escrevendo para cá, se eu não fico sem ideias, se não é difícil escrever com tanta frequência… A questão é que a minha escrita é intuitiva e, a não ser que tenha algo muito específico, assustador ou extraordinário acontecendo no mundo, eu nem sempre tenho um tema específico sobre o qual falar.
Por isso, acabo escrevendo sobre coisas da vida, sobre o que percebo em relação aos movimentos contemporâneos, sobre o que envolve a cultura, a arte, a moda e o consumo, na maioria das vezes com a perspectiva do que atravessa o meu universo. Isso porque, claro, não tenho como desvencilhar o meu olhar do que produzo visto que, aqui, o meu escrever é artístico, pessoal e ensaístico. O que você lê é a minha percepção e ela, por sua vez, é a minha bússola. A minha sensibilidade é a minha guia. O meu conhecimento de mundo me faz crítica, analítica e desconfiada o suficiente para propor inúmeros debates com você, leitor.
Me sinto insaciável e, por isso, poderia falar sobre todos os assuntos do mundo se tivesse oportunidade. Se alguém quisesse ouvir, eu poderia falar sobre todas as coisas que passam pela minha mente por segundo e eu juro que são muitas, incontáveis. No fim, eu nem falo demais porque prefiro dar uma leve organizada na mente e, para isso, escrever talvez seja o método mais eficaz.
Escrevo sobre as próprias inquietações porque as minhas neuroses não têm fim. O meu mundo interior é cinético, expressivo, inquieto, ansioso, por vezes depressivo e isso não é raridade, visto que artistas são mesmo depressivos. Eu interpreto a mim mesma, olhando ao redor, para interpretar o mundo. Ou melhor, escrevo sobre como percebo a minha forma de interpretar o mundo. Sendo, repito, analítica e crítica, porque isso não só faz parte da minha personalidade, como faz parte do meu trabalho, da minha formação e da necessidade do mundo.
Por isso não vem tudo da minha cabeça, evidentemente. Ao longo da escrita, dependendo do rumo que o texto ganha, existe pesquisa: busco textos que li, artigos, livros, filmes que assisti, vídeos, reels, imagens que vi, postagens, paisagens e tudo mais que ilustra alguma situação e que possa servir de referência e embasamento.
O truque para continuar a escrever, semanalmente como faço, é continuar escrevendo. Começo de algum lugar, sai um parágrafo, dois, três, quando vejo, tenho uma página, duas. Leio, releio, organizo o que precisar, edito o que for necessário e está pronto. Sem grandes mistérios, pautas e sem a necessidade de uma agenda de publicações. Já percebi que se tentar organizar, estraga. A parte da organização fica para o drive com artigos publicados, ideias que surgem e rascunhos.
Me lembrei, agora, que outro dia vi uma publicação onde diziam que a escrita não depende de dom, mas do exercício. Eu concordo em partes, porque acho que a gente pode exercitar e melhorar, sempre. Porém, acho incabível me falarem que não existe o dom. Sei que muitas pessoas, mesmo treinando, jamais conseguiriam escrever uma única página com fluidez. Ainda assim, não me considero grande coisa.
Posso falar de nomes importantes da literatura para sustentar essa discussão. Digo, o que seriam as obras de Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Carla Madeira, Machado de Assis, José Saramago? Quem diria que eles só se tornaram o que são porque treinaram, não porque têm o dom? Francamente…
Se você já leu “Via Láctea”, de Olavo Bilac, me responda: aquilo não era dom? Quem, apenas com treino, seria capaz de criar algo tão singular, que descreve, com tamanha simplicidade e pureza, uma conversa sobre o amor e as estrelas? Que coisa mais linda são os versos “amai para entendê-las, pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas”.
Artista, no geral, não tem o dom do marketing, da venda, mas temos o dom de muitas outras coisas. Óbvio que não me coloco ao lado desses nomes de peso. Sei que não estamos na mesma prateleira, mas acho que somos, cruamente, todos escritores e, portanto, algum ponto em comum liga os nossos corações na linha da vida. Fomos escolhidos para habitar o mundo escrevendo no tempo e a delicadeza disso é gigante, ainda que exista uma brutalidade gigantesca também nessa coisa da escrita.
Se você me permite: eu não dependo só do que sei para viver. Dependo do que sou e isso é, sim, um tanto cruel. Dependo do que sei, do que não sei, do que me faz feliz, do que me faz triste e, claro, de tudo que me angustia e me desperta inquietação. O segredo é não tentar entender nada, mas escrever sobre tudo. Clarice nunca fez tanto sentido ao dizer “não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”.
*Giovana Devisate é historiadora da arte e designer de moda

