Créditos: IA/Divulgação
06-08-2026 às 15h37
Luís Carlos Silva Eiras (*)
08h — O despertar
Na Torre de Martello, Stephen Dedalus acorda com o som não de ondas, mas da notificação de um smart speaker. Buck Mulligan já está no andar de baixo, postando stories da vista com geolocalização ativa. O celular de Stephen, abandonado no carregador durante a noite, sincronizou seus dados de sono: quatro horas de descanso fragmentado, padrão compatível com ansiedade leve.
Quando recusa o café da manhã, o aplicativo de delivery de Mulligan registra a ausência de consumo como “anomalia alimentar matinal”. Haines, o inglês, conecta seu smartphone corporativo à rede local; a VPN do governo britânico mascara seu tráfego, mas o endereço MAC de seu dispositivo já foi catalogado pelo roteador da torre.
Do outro lado da cidade, na Eccles Street, Leopold Bloom prepara o café da manhã para Molly. O smartwatch dela, ainda em seu pulso na cama, monitora os últimos minutos do ciclo REM. Bloom pede um rim de porco pelo aplicativo de supermercado; antes que a moto do entregador saia, o algoritmo de fidelidade já preencheu seu carrinho virtual com “produtos similares: rins de cordeiro, fígado bovino”. A geladeira inteligente registra a abertura da porta às 8h17. O feed de notícias do celular de Bloom exibe, sem que ele tenha buscado, um anúncio de cemitério. Predição baseada em idade, histórico de navegação e padrão de compras.
10h — Aulas e recados
Stephen dá aula de história no colégio de Dalkey. As câmeras de reconhecimento facial do sistema EduTech registram seu atraso de quatro minutos e marcam seu rosto com uma etiqueta amarela: “professor associado — atenção requerida”. O diretor Deasy envia um e-mail sobre “a questão judaica”; os filtros de antispam da Microsoft o arquivam, mas não antes de fazer backup em servidores irlandeses e americanos. Stephen paga o táxi com aproximação por NFC; o banco classifica a transação como “transporte educacional” e atualiza seu perfil de mobilidade urbana.
Bloom, entretanto, caminha em direção ao correio. A câmera de segurança do prédio rastreia seu rosto com 98,4% de confiança. Na farmácia, compra sabonete e loção; o sistema de fidelidade cruzou os dados com seu histórico médico e sinalizou, para a seguradora, uma possível condição dermatológica em desenvolvimento. No banheiro público, abre o navegador no modo anônimo e lê um romance erótico. O modo anônimo não engana o DNS do provedor, que registra o domínio. O aplicativo de produtividade, rodando em segundo plano, classifica os doze minutos de tela como “baixa eficiência matinal”.
11h — A praia e o luto
Stephen caminha pela praia de Sandymount com o celular no bolso. O acelerômetro e o giroscópio traçam uma cadência hesitante: passos curtos, paradas irregulares. O app de saúde mental detecta “padrão de ruminação” — movimento lento combinado com tela desligada. Ele tenta meditar sobre a percepção, sobre a “inelutável modalidade do visível”, mas o feed de notificações do LinkedIn interrompe seu fluxo de consciência. Uma selfie acidental do céu, tirada quando o celular desliza no bolso, é sincronizada automaticamente com a nuvem. O algoritmo de visão computacional a classifica como “paisagem — 87% probabilidade de céu nublado”.
Bloom segue para o funeral de Paddy Dignam. O carro fúnebre transmite sua rota em tempo real para o sistema municipal de trânsito. No cemitério de Glasnevin, drones da prefeitura fazem mapeamento térmico rotineiro. Bloom fotografa a lápide; o Google Lens identifica o mármore como “Carrara, lote 2019”. Seu smartwatch detecta elevação na frequência cardíaca — 92 batimentos por minuto — e envia um alerta à seguradora, que registra o evento como “estresse agudo, possível luto”.
12h — A redação
Na redação do Freeman’s Journal, agora um hub de mídia digital, Stephen entrega o artigo de Deasy sobre a febre aftosa. O servidor de e-mail arquiva o anexo e o classifica como “conteúdo sensível — agronegócio”. Bloom tenta publicar um anúncio classificado; o algoritmo de moderação automática o marca como “possível spam farmacêutico” e o direciona para revisão humana. Os dois cruzam seus sinais de Wi-Fi no mesmo roteador corporativo. O sistema de publicidade programática, detectando a co-presença, já os vinculou como “colegas de trabalho — alta probabilidade de interesse em conteúdo editorial e classificados”.
13h — Almoço e ócio
Bloom almoça no restaurante Burton e paga com QR Code. O aplicativo de pagamentos compartilha os dados, em tempo real, com o sistema de imposto de renda. No pub de Davy Byrne, o ponto de venda registra o vinho e o sanduíche de gorgonzola. Mais tarde, na praia de Sandymount, ele observa Gerty MacDowell, que está fazendo uma transmissão ao vivo no TikTok. A câmera do celular de Bloom, apontada para o mar, captura reflexivamente a imagem dela. O Google Photos identifica o rosto e sugere: “Compartilhar com Gerty?”.
14h — O pub e o cidadão
No pub de Barney Kiernan, o Cidadão transmite o encontro em áudio para seu canal de podcast. Bloom, ao defender sua posição cívica, é gravado sem consentimento. O algoritmo de transcrição converte sua fala em texto em tempo real; a análise de sentimento classifica o tom como “contencioso, mas não agressivo — polarização moderada”. Sua declaração de que “sua nação é a mesma que a minha” vira um clipe de quinze segundos que circula no Twitter antes dele terminar seu drinque. A plataforma atribui ao vídeo uma etiqueta de “discurso político — engajamento potencial”.
15h — A praia, outra vez
De volta à praia, Bloom observa Gerty através de binóculos. Os binóculos, na verdade, são óculos de Realidade Aumentada com gravação ativa. O relógio dele vibra: notificação de “atividade cardíaca elevada — considerar exercício”. Os fogos de artifício explodem no céu, filmados por dezenas de celulares ao redor. O som sincronizado é extraído por microfones ambiente espalhados pela cidade. O aplicativo de saúde sexual do governo envia uma notificação push no momento exato: “Praticando sexo seguro? Responda à pesquisa anônima”.
16h — A maternidade
No hospital de maternidade, Mina Purefoy está em trabalho de parto. Os sensores do quarto monitoram contrações, batimento fetal e oxigenação em tempo real no painel da enfermaria. Stephen chega bêbado; o leitor de pulseira do hospital, ao entrar, estima seu nível de álcool no sangue através da análise de pupilas pela câmera de entrada. Os médicos discutem o caso em um grupo de WhatsApp hospitalar. As mensagens são criptografadas de ponta a ponta, mas o backup automático vai para o iCloud. Bloom, presente, recebe uma atualização do aplicativo de calendário: “Evento: parto — lembrete em 9 meses”.
23h — A noite profunda
No bordel de Bella Cohen, o pagamento é feito via Pix — rastreável, instantâneo, irrevogável. As câmeras de segurança do estabelecimento, obrigatórias por lei, gravam tudo em 4K com armazenamento em nuvem por 90 dias. Stephen, em surto, quebra o abajur. O som do vidro quebrando ativa o detector de incidentes do prédio vizinho, ligado diretamente à central de monitoramento da cidade. Bloom paga o prejuízo por transferência bancária; o sistema do banco sinaliza a transação como “entretenimento noturno — estabelecimento de hospedagem”. O histórico de localização dos dois desenha um pingue-pongue de sinais de celular entre o bordel e o hospital, um mapa de calor que nenhum deles autorizou, mas ambos alimentaram.
00h — Vigília noturna
Na cabine de vigilância noturna, o guarda monitora dezesseis telas de CCTV. Em uma delas, Bloom e Stephen aparecem sentados em um banco público, pixelizados. Bloom leva Stephen para uma lanchonete aberta 24 horas; o pedido de cacau é registrado no sistema de caixa eletrônico. Eles conversam como pai e filho, mas o microfone ambiente da lanchonete — instalado para “marketing de áudio e análise de satisfação do cliente” — captura fragmentos do diálogo. Um algoritmo de processamento de linguagem natural classifica a conversa como “relacionamento paterno ausente — alta correlação com vulnerabilidade socioemocional — recomenda-se acompanhamento”.
01h — O regresso
Bloom leva Stephen para a casa na Eccles Street. O trajeto de quatro quilômetros e duzentos metros é registrado pelo aplicativo de carona por aplicativo que Bloom chama para o jovem. O motorista avalia o passageiro antes dele descer: “Silencioso. Três estrelas.” O destino, “Torre de Sandycove”, é arquivado no histórico de viagens da plataforma. O algoritmo de rotas calcula que Stephen tem 73% de chance de solicitar outra viagem na mesma faixa de horário nos próximos quinze dias. A casa de Bloom, ao ser deixada, acende as luzes inteligentes automaticamente. O termostato ajusta a temperatura para 19 graus. Molly não se moveu.
02h — O monólogo final
Molly Bloom está acordada na escuridão do quarto. O smartwatch em seu pulso registra os movimentos na cama: 47 mudanças de posição desde a meia-noite. O assistente virtual da casa, acionado por engano por um murmúrio, grava seus pensamentos em áudio. O algoritmo de reconhecimento de voz transcreve o “sim, sim, sim” como confirmação para uma compra automática na Amazon — um livro de música que ela não pediu, mas que o motor de recomendação julgou compatível com seu perfil. O mapa de calor do colchão inteligente registra que ela dorme sobre o lado direito, predição de possível desconforto lombar.
(*) Luís Carlos Silva Eiras é escritor.

