Ilustração criada por IA
25-04-2026 às 08h36
Caio Bradão*
Asdrúbal, o Guimarães, que migrou de Goiás para o Vale do Jequitinhonha, tem Alzheimer, mas ainda dá conta de alguns misteres do cotidiano. Sem exageros, lógico, para não confundir a criatura que, às vezes, costuma recordar amizades que nunca existiram, senão em suas fantasias e delírios inofensivos.
Asdrúbal, pouco mais velho do que o Zé Mineiro, do grupo JBS, foi a Anápolis procurar seu pupilo no comércio, o conhecido José Batista Sobrinho, mentor de duas das mais talentosas figuras do empresariado de sucesso, os irmãos Joesley e Wesley. Asdrúbal, delirante, acredita ser amigo de longa data do Zé Mineiro; criados juntos, convivendo na escola e no bairro, ele, um pouco mais velho, teria sido conselheiro e mentor do pupilo, mormente na compra de gado nelore.
Asdrúbal partiu de São João do Paraíso de ônibus. Parou em Taiobeiras, seguiu para Montes Claros para Belo Horizonte, mudando da empresa Gontijo para os ônibus da Expresso União – e criticou as duas. De lá, seguiu para Anápolis para dar conselhos. Ele, em seu delírio, está preocupado com o amigo, que estaria prestes a expandir seus negócios para o ramo de fogos de artifício.
Chegou à rodoviária e, de táxi, desceu na Rua General Joaquim Inácio meio tonto, acometido de um leve surto de labirintite. Agradeceu ao motorista, que parecia falar em português embolado — talvez um moçambicano com entrada ilegal no Brasil — e resolveu caminhar. Seguiu pela Rua Engenheiro Portela, na lateral do Mercado, indo parar na Rua Barão do Rio Branco, que confundiu com a Rua 15 de Dezembro, procurando pela casa do Zé Mineiro, mas não a encontrou.
Confuso, entrou no Mercado e procurou o comércio do amigo, a Casa de Carnes Mineira, mas ela não estava lá. Soube, na loja de frutas, que o açougue se transformou num supermercado, ou num shopping de roupas íntimas, em sociedade com um chinês de Hong Kong. Mas, logo foi informado de que se tratava, na verdade, de um grande conglomerado que conduz duas siglas em paralelo, com destaque para a J&F Investimentos, holding da família Batista que abraçou o mundo.
A palavra holding foi um estresse para Asdrúbal, que logo superou o desconforto com a informação prestada por colegial de uniforme e livros a tiracolo. Que coisa moderna essa holding, pensou, imaginando o crescimento do Zé Mineiro nesse mundo novo e tecnológico, a ponto de concorrer, em poder e prestígio, com o fabricante de carros solares e de foguetes que pousam de marcha à ré. Um sucesso, pensou.
Hora do almoço. Asdrúbal cogitou das suas hemorroidas, sempre nervosas, e preferiu cautela: desprezou o arroz com pequi, prato icônico de Goiás; saltou o empadão com linguiça e guariroba; ignorou a galinhada e ancorou na panelinha, um risoto com arroz e carnes. Mas mandou substituir a carne de sol por bife de um tal de Friboi — e sem o queijo derretido por cima, para não provocar gases.
Asdrúbal ressonou. Sua mente passeou pelos noticiários, por filmes eróticos, até pela lembrança do pequeno acidente que lhe fraturou a ponta do nariz, que se meteu onde não foi chamado e caiu na real.
Saciado, mordiscou biscoito de chocolate e parou na Avibrás, empresa em dificuldades, que fornece mísseis para o Exército brasileiro, que estaria em vias de ser socorrida pelos irmãos Batista. Os ímpetos de Joesley, sempre aplaudidos e bem-sucedidos, e com a aprovação de Wesley e do Zé Mineiro, querem sacar 300 milhões do caixa e investir no negócio explosivo, mas ele ainda não se deu conta de que os tais mísseis se destinam a destruir, matar e, na melhor hipótese, humilhar.
Agora, caiu a ficha. Asdrúbal refrescou os delírios e pensou: mísseis são mercadorias ingratas. Não rendem churrascos, não aceitam temperos e, depois de lançados, não permitem retificação, nem arrependimentos. Em que pese mísseis e bifes acabarem em brasas, os mísseis jamais proporcionarão o conforto e a alegria dos banquetes. E, mais, os Batista têm muitas outras formas de ganhar dinheiro, sem precisar se meter nessa enrascada cármica.
No bolso de Asdrúbal um recorte de jornal, com notícia de Mãe Graciela de Oxóssi comentando sobre as energias ruins de quem se envolve com bombas e as suas consequências. Segundo ela “a energia de um objeto começa na sua concepção. Se um artefato é projetado exclusivamente para matar ou causar infortúnio, o criador vincula a sua consciência a esse resultado. E, mais, diz que “ambientes dedicados à criação de armas atraem formas-pensamento de baixa vibração (medo, agressividade e orgulho), o que pode afetar a saúde mental e a paz interior dos envolvidos a longo prazo, isto sem contar na possibilidade de enfarto ou derrame, provocados por espíritos trevosos injustiçados e revoltados”.
Ah! Zé Mineiro, segure a rapaziada, pensou. Não vale a pena abrir essa janela de morte e destruição. O grupo se agigantou, virou Midas, se expandiu mundo afora e não precisa disso. Wesley e Joesley são máquinas azeitadas de fazer dinheiro. Não vendem sonhos, mas realidade. Multiplicar tornou-se fácil para eles, fácil até demais, pensa Asdrúbal. E, nesse cenário, surgem os oportunistas de plantão, em busca de gordas comissões, com propostas esdrúxulas, como aconteceu na empresa onde trabalhou o Brandão, velho amigo: ela se meteu com mármore, não deu certo; garimpou ouro e diamante e pulou fora; construiu condomínio à beira-mar e perdeu dinheiro, vendeu remédio e gerou BO, entrou na telefonia e saiu às pressas, dentre outras incursões malsucedidas. O excesso de liquidez atrai maus conselhos e gera péssimos negócios. O importante não é ter muitas frentes, mas negócios com conexão uns com os outros e a busca permanente da excelência e mantendo a integridade da atividade matriz. Ademais, do primeiro lugar uma empresa só tem um lugar para ir: o segundo.
Asdrúbal se recordou de Eike Batista – olha o sobrenome sortudo aí de novo – que, de homem mais rico do mundo, claudicou e caiu. Abrir muitos negócios leva à perda do controle, inclusive por falta de recursos humanos. Exceção no tocante às ownerships, com o controle nas mãos de investidores institucionais, empresas sem dono e sem rosto, robôs de ganhar e multiplicar, fomentando o dinheiro pelo dinheiro, que se alimenta dele mesmo, num processo autofágico. Mas, lembrou Asdrúbal, esse não é o estilo do Zé Mineiro e Filhos, gente boa, que põe a cara e paga o preço, mas que deve se cuidar para não fazer do dinheiro em profusão apenas um lançamento contábil em folha de papel. Querem fazer algo diferente? Joesley para Presidente, ele ganha fácil dessa turba apressada, despreparada e ingênua.
*Caio Brandão é jornalista

