Sítio da Cafuringa autossustentável - créditos: Carlos Mota
22-05-2026 às 17h00
Por Carlos Mota Coelho*
Não me importo se a maioria vai ler este texto de agora como mais uma de minhas diárias lorotas ou se não passa de uma marmota toda torta o meu MotaVento e que aqui lhes apresento:
Em 2010, às voltas com constantes quedas de energia elétrica em minha chácara, além do preço amargo cobrado pela CEB, sobretudo em razão de meu sistema de irrigação por aspersão, resolvi eu próprio montar um gerador eólico e por levitação eletromagnética, ME VALENDO DOS MEUS CONHECIMENTOS COLEGIAIS DE FÍSICA, matéria em que fui destaque no Colégio Diamantinense.
Primeiro, procurei alguém entendido no assunto, mas desisti de achá-lo nas universidades, pois concluí que a maioria dos acadêmicos domina bem as teorias, mas nada de prática, a par do palavrório técnico-cientifico, mas o amigo Walfrido Athayde desatou o nó em que eu estava embaraçado e me apresentou um cara genial, o ROBERTO GUERRA.
Assim como eu, Guerra não era engenheiro ou físico formado, mas um autodidata que muito jovem era surfista no Rio de Janeiro e fabricava pranchas de surf, cascos e velas de barcos. Qual seja, a parte éolica de meu sonho estava na aparente cabeça de vento daquele novo amigo, mas que também era detentor de dezenas de patentes de diversos inventos, muitos de cunho elétrico e eletroeletrônico.
E rapidamente começamos o trabalho, sobretudo na importação de eletroímãs pouquíssimo conhecidos no Brasil, mas que agora aguçam a curiosidade geral: AS TERRAS RARAS, e em especial um eletroímã chamado NEODÍMIO e que hoje está nos carros elétricos e nos micro motores que fazem os celulares vibrarem.
E a duras penas, por conta da burocracia, consegui importar dos EUA dois mil neodímios e que só puderam vir de navio, devido ao risco de jogarem um avião no chão, mas com a chegada deles um outro problema quase nos fez desistir: ONDE IRÍAMOS OBTER A TAL TRANSFERÊNCIA DE CONHECIMENTO TECNOLÓGICO EM LEVITAÇÃO ELETROMAGNÉTICA: na China? Impossível até hoje, sobretudo transferir segredos a um matuto do Vale do Jequitinhonha e que nem eletricista de dínamo de bicicleta era!??
E kkk foi pensando num dínamo que me ocorreu desmontar as rodas de minha velha Pajero, pegar dela dois discos de freio, na superfície dos quais montamos dezesseis pares de eletroímãs, tentando que eles gerassem a ansiada energia elétrica.
Foram meses de tentativas e erros, mas finalmente conseguimos.
E numa torre de aço montamos o nosso protótipo movido por quatro velas de fibra de vidro, e elas, feito quatro veleiros girando no sentido anti-horário, estava gerando uma quantidade de energia capaz de atender à demanda da chácara.
Ao longe era possível ver aquele conjunto funcionando e isso atraiu a curiosidade geral, pois até recebemos a visita de professores da UNB e de oficiais da Aeronáutica, esses interessados em levar a nossa tecnologia para pontos remotos da Amazônia, onde a alimentação de instrumentos de orientação de aeronaves se dava por combustíveis fósseis e de dificil distribuição pela falta de estradas.
O gerador estava funcionando, mas a sua fabricação em série nos exigia a sua certificação, sobretudo a sua segurança em caso de ventos fortes.
E foi aí que tivemos que desmonta-lo para testá-lo no único TÚNEL DE VENTO aqui em Brasília, instalado na UNB.
Foi a nossa desgraça, sobretudo do amigo Roberto Guerra, pois, ao chegar com o caminhão transportando o nosso gerador, ele foi proibido de remonta-lo em frente à Faculdade de Engenharia, justo pela direção da Faculdade de Arquitetura, sob a alegação de que o campus daquela Universidade é, feito Brasilia, TOMBADO COMO PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE, e que o nosso gerador iria alterar a paisagem em volta. Iria, sim, mas pelo tempo necessário para testar a sua resistência a ventos de mais de 80 km/h!
E Guerra perdeu não apenas aquela estapafúrdia guerra, como perdeu a própria vida, fulminado que foi por um fatal ataque cardíaco em pleno campus da UNB. Morreu de raiva e indignação, justo num lugar – a UNB – de onde só sai ciência e tecnologia de papel, pois, como de resto o Brasil, nenhuma contribuição foi dada!
Resumo, após o enterro daquele grande amigo, mandei trazer o gerador de volta pra Cafuringa, mas me recusei, nestes quinze anos de luto por conta daquele funesto acontecimento, a recoloca-lo pra funcionar.
Mas bom frisar, que Guerra e eu fomos e somos os únicos financiadores e tocadores do projeto.
*Carlos Mota Coelho é escritor, procurador federal, ex-deputado federal e membro da ALVA – Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

