Créditos: Reprodução
30-07-2026 às 09h08
Samuel Arruda*
A possível desistência do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) da disputa pelo Governo de Minas Gerais representa mais do que uma mudança no cenário eleitoral de 2026. Ela simboliza o aprofundamento de uma crise política que há anos acompanha Minas Gerais: a escassez de lideranças capazes de assumir projetos consistentes para o futuro do Estado.
As informações divulgadas nesta semana apontam que o Republicanos já trabalha com a avaliação de que Cleitinho deverá abrir mão da candidatura ao Palácio Tiradentes, mesmo aparecendo como líder nas principais pesquisas de intenção de voto. A ausência do senador na convenção estadual do partido aumentou as especulações e reforçou a percepção de indefinição em torno de seu futuro político.
Independentemente das razões pessoais e partidárias que cercam essa decisão, a postura do senador inevitavelmente desperta críticas. Durante meses, seu nome foi apresentado como uma alternativa competitiva ao governo estadual, mobilizando eleitores e alimentando expectativas de renovação política. Ao recuar justamente no momento decisivo, transmite ao eleitor a impressão de que prevaleceram os cálculos políticos sobre o compromisso com uma candidatura que parecia consolidada.
Em uma democracia, desistências fazem parte do processo político e são legítimas. Entretanto, quando envolvem um dos nomes mais competitivos da disputa, é natural que provoquem frustração e levantem questionamentos sobre o compromisso assumido diante da sociedade.
Mais preocupante, porém, é o cenário que esse episódio revela. Minas Gerais, que durante décadas foi reconhecida como um dos maiores celeiros de estadistas do Brasil, hoje enfrenta dificuldades para apresentar lideranças capazes de unir diferentes setores da sociedade em torno de um projeto de desenvolvimento.
Foi de Minas que surgiram figuras como Juscelino Kubitschek, responsável pela construção de Brasília e por um dos mais ambiciosos projetos de modernização do país. Também foi Minas que deu ao Brasil Tancredo Neves, símbolo da redemocratização e da construção do diálogo político em um dos momentos mais delicados da história nacional. Poderiam ser lembrados ainda nomes como Milton Campos, José de Magalhães Pinto, Itamar Franco e tantos outros que exerceram protagonismo nacional.
Hoje, porém, o Estado parece viver um período de empobrecimento político. As lideranças surgem mais apoiadas na força das redes sociais, em discursos de impacto ou em estratégias eleitorais do que na construção de projetos duradouros para Minas Gerais.
A possível saída de Cleitinho da disputa evidencia exatamente esse vazio. O problema não está apenas na decisão individual de um senador, mas na incapacidade das forças políticas mineiras de formar uma nova geração de líderes preparados para enfrentar os enormes desafios econômicos, sociais e administrativos do Estado.
Minas continua sendo um dos mais importantes estados da Federação, mas sua influência política nacional já não corresponde ao peso de sua história, de sua economia e de sua população. A ausência de lideranças fortes acaba refletindo diretamente na capacidade de defender os interesses dos mineiros em Brasília e de conduzir um projeto de desenvolvimento consistente.
Mais do que discutir quem será candidato, Minas precisa discutir quem está preparado para liderar. Afinal, um Estado que já foi referência nacional na formação de grandes estadistas não pode se acomodar diante da escassez de nomes capazes de inspirar confiança, diálogo e visão de futuro.
A política mineira precisa reencontrar sua vocação histórica. Caso contrário, continuará assistindo ao protagonismo de outros estados enquanto Minas, que tantas vezes conduziu os rumos do Brasil, permanece refém das indefinições, das desistências e da falta de lideranças à altura para conduzir o destino dos mineiros.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de politica

