Marcha dos prefeitos 2026 para Brasília - créditos: CNM
Por Soelson do Vale*
24-06-2026 às 14h40
Brasília voltou a receber milhares de prefeitos brasileiros na tradicional Marcha em Defesa dos Municípios, evento que há décadas reúne lideranças municipais em busca de soluções para os problemas que sufocam as cidades brasileiras. Mais uma vez, discursos foram feitos, promessas anunciadas e o velho tema do pacto federativo retornou ao centro das discussões nacionais. Mas a verdade que muitos prefeitos do interior conhecem profundamente é que o Brasil continua tratando os municípios como a última prioridade administrativa da República.
Falo com a experiência de quem já governou município por duas vezes e acompanhou de perto as dificuldades enfrentadas pelos gestores públicos do interior mineiro, especialmente nas regiões mais pobres e esquecidas do país, como o Vale do Jequitinhonha, onde tive a responsabilidade de liderar importantes movimentos regionais em defesa dos municípios. Conheço a realidade de cidades que lutam diariamente para manter funcionando escolas, postos de saúde, transporte escolar, estradas vicinais e serviços essenciais sem possuir recursos suficientes sequer para cumprir aquilo que a legislação determina.
O Brasil mantém uma estrutura federativa profundamente desigual. A maior parte da arrecadação tributária permanece concentrada em Brasília, enquanto as responsabilidades sociais ficam nos ombros dos prefeitos. É o cidadão que bate na porta da prefeitura quando falta médico, remédio, transporte ou emprego. Não é no Palácio do Planalto, nem nos gabinetes estaduais, que o povo vive sua realidade cotidiana. O povo mora nos municípios, nas comunidades rurais, nos distritos, nos bairros e nas pequenas cidades espalhadas pelo interior brasileiro.
Mesmo assim, os municípios continuam dependentes de favores políticos, emendas parlamentares e longas peregrinações pelos corredores dos ministérios em busca de recursos que deveriam chegar automaticamente às cidades. Essa dependência fragiliza a autonomia municipal e transforma muitos prefeitos em administradores de crise permanente. Em inúmeras cidades brasileiras, principalmente nas pequenas e médias, sobra responsabilidade e falta arrecadação.
A Marcha dos Prefeitos possui importância institucional e política. Ela mantém viva a mobilização municipalista e dá visibilidade nacional aos problemas das cidades. Porém, depois de tantos anos, cresce entre muitos gestores a sensação de que os avanços concretos ainda estão muito abaixo da necessidade urgente dos municípios brasileiros. O discurso do pacto federativo já envelheceu diante da gravidade da situação enfrentada pelas prefeituras.
Não existe desenvolvimento nacional sem municípios fortes. Nenhum país se desenvolve de verdade deixando suas pequenas cidades abandonadas. O crescimento econômico sustentável nasce na base da sociedade, onde vivem as famílias, os trabalhadores, os pequenos produtores rurais, os comerciantes e os empreendedores locais. Quando o município adoece financeiramente, toda a população sofre junto.
O que o Brasil precisa é de coragem política para promover uma verdadeira descentralização administrativa e financeira. Os municípios devem receber participação maior na arrecadação nacional e ter mais liberdade para aplicar os recursos conforme suas necessidades locais. É preciso reduzir a burocracia que paralisa obras e impede investimentos. Também é necessário fortalecer as economias regionais, incentivar a agroindústria, o cooperativismo, o turismo local e a infraestrutura do interior brasileiro.
O país não pode continuar funcionando de forma excessivamente centralizada, onde quase tudo depende de Brasília. Essa lógica enfraquece os municípios, aumenta as desigualdades regionais e dificulta soluções rápidas para os problemas da população. Quem conhece a realidade das comunidades é o prefeito, é o vereador, é a liderança local que convive diariamente com o povo.
Os municípios brasileiros não precisam apenas de aplausos e homenagens em eventos políticos. Precisam de autonomia, respeito institucional e condições reais de governar. O tão esperado pacto federativo não pode continuar sendo apenas uma expressão repetida em discursos oficiais. Ele precisa sair do papel e transformar a vida das pessoas.
O futuro do Brasil passa necessariamente pelo fortalecimento dos municípios. Enquanto o país não compreender essa verdade, continuaremos assistindo prefeitos marcharem todos os anos para Brasília levando as mesmas reivindicações e retornando para suas cidades com os mesmos problemas históricos.
O Brasil real continua esperando.
*Soelson do Vale é empresário, jornalista, escritor, diretor presidente do Diário de Minas e membro da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha

