Créditos: Divulgação/IA
24-05-2026 às 11h31
Rogério Reis Devisate*
Nos anos 1970, o nosso PIB era superior ao da China. Se comparado ao da Coréia do Sul, o nosso era cinco vezes maior, já que eles estavam destruídos pela guerra e tinham grandes índices de pobreza. Eles nos superaram, como sabido. Por qual motivo?
A Coréia do Sul investiu muito em educação. Manteve disciplina com gastos públicos e cuidou da industrialização, alcançando grande avanço em tecnologia. A China, embora governada pelo partido comunista, se conscientizou de que não poderia prosperar na sua fantasia ideológica e abriu a sua economia, praticando o capitalismo, investindo em infraestrutura e em industrialização. Naquela época, o Brasil viveu o seu milagre econômico e o clima favorável das commodities em anos seguintes, mas não investiu em educação e industrialização, não zelando pela área tecnológica e praticando, sempre, juros elevados, em parte para atrair investimentos externos. Por mais que, desde então, tenhamos melhores indicadores gerais, aqueles países tiveram resultados muito melhores e investiram muito mais em elementos estruturais que pudessem alavancar o seu crescimento nos anos seguintes. Prepararam-se, fizeram o dever de casa, pensaram no futuro. Ficamos para trás.
Esses elementos comparativos ajudam a perceber que os governantes devem ser bons em administrar. Isso se traduz em grande diferença entre o palanque eleitoral e a gestão pública, afinal elegemos os prefeitos, os governadores e o presidente para administrar, gerir, governar, realizar. O eleitor entende isso? Está preparado para isso?
O quanto as redes sociais influenciam o voto? Em 2019, pesquisa do Instituto DataSenado indicava que 45% dos eleitores decidiam o voto com base em informações vistas nas redes sociais. Isso significa influência no voto de quase metade da população! Em outras palavras, significa a crença em mensagens pouco profundas, ditas para impactar e seduzir e não para explicar, esclarecer, educar e formar opinião segura e com senso crítico.
Atualmente, estamos com juros elevadíssimos, frequentes notícias de grandes empresas que migram para o Paraguai, grande número de pedidos de falência/recuperação judicial, crescente dívida externa que bate recorde e se aproxima de 400 bilhões, enorme endividamento de produtores rurais, violência urbana nas alturas – inclusive, com notícia de uso de drones que podem carregar 80kg, o equivalente a 20 fuzis – e fortes escândalos de corrupção. Tudo isso contamina o bom debate político. Em meio a tudo isso, estamos fazendo política ou engajamento? Agimos com consciência política e pensamento crítico ou nos deixamos levar por curtidas em postagens? Estamos presos a informações superficiais, boas para curtidas e compartilhamentos ou para pensar, mesmo, no destino do país?
Um bom indicador da falta de diálogo entre índices estatísticos e o mundo dos fatos é a realidade da classe média, que parece divorciada dos dados oficiais, quando o governo considera classe média a renda domiciliar mensal – com a soma dos ganhos de todos os membros da família – a partir de R$ 2.525. Como o salário mínimo está em R$ 1.621,00, as famílias cujos membros tenham renda (somada) de R$ 2.525 já seriam classe média. Ora, isso não corresponde ao que significaria ser da classe média, quando o custoda cesta básica subiu em 27 capitais e está em R$ 906,14, em São Paulo (CNNMoney, 11.5.2026). Portanto, já seria da classe média a família que ganhasse aquele valor e gastasse cerca de um terço só para comprar alimentos? E os gastos com moradia, roupa e o consumo de água e energia elétrica?
Talvez isso explique o motivo pelo qual temos o recorde de endividamento das famílias: cerca de 80%, pois talvez muitos estejam querendo viver como classe média sem a ela pertencer, lembrando que temos a sensação de que os pertencentes àquela classe teriam acesso à educação particular, plano de saúde, viagens e financiamentos imobiliários. Faça as contas! Não dá.
Usamos o exemplo para nos ajudar a compreender que não vivemos e não comemos definições ou conceitos. O que se fala não é o que se faz. Cada vez mais caminhamos para o desenho padronizado da humanidade, que vai prosperando e levando-nos a modelos engessados, que facilitem a gestão e o controle, tanto do ponto de vista político quanto econômico. Como dissemos há semanas, estamos criando a conteinerização da sociedade, diminuindo as nossas variantes humanas e de crença e ideologia, para nos encaixotar em esquerda e direita, porque assim fica mais fácil de nos categorizar e controlar. Funciona mais ou menos do mesmo jeito que ocorre com a produção e venda de certos produtos, pois é mais operar com 50 tipos diferentes de hambúrguer ou trabalhar apenas com os 5 que mais agradam à maioria? Isso ocorre em quase tudo. Em termos de sociedade, os que preferem viver com liberdade e fora da esquerda ou direita, acabam encontrando barreiras e sendo tratados à margem do sistema dominante. Isso tudo contribui para a padronização da sociedade, que caminha para a sua conteinerização cada vez maior. Quem não é a favor de algo, é logo taxado de oposição. Será que temos que concordar com tudo, o tempo todo?
Paralelamente, parece que nos empobrecemos em certos aspectos e a interpretação de texto é um dos exemplos. Estamos sendo reduzidos a leitores das manchetes, de pequenas frases, de palavras de ordem, como se isso fosse suficiente. Onde estão as nuances, as sutilezas, os fundamentos, os fatos, as provas, a poesia e as qualificadoras a fazer a diferença? Não se pode explicar as coisas pelo título de um assunto. Dizer “eu te amo” não vale mais do que demonstrar o amor nos gestos, nas palavras, no respeito, na empatia, no apoio, na compreensão e na gentileza.
Parecemos não perceber o contexto. Para onde vamos? Por qual motivo iremos? Há alternativa? Dias atrás li que estamos muito aquém dos equipamentos militares de outras nações. Por qual motivo estamos assim? Quem ou por que não investimos na qualificação dos navios, aviões e armas das forças de defesa? Agora, após os EUA levarem o Maduro, Cuba estar erodindo, a guerra no Oriente Médio e da Ucrânia e Rússia seguirem e termos a Europa se rearmando, parece que percebemos como nos iludimos com um discurso de desarmamento e de paz, despertando para a nossa vulnerabilidade ante as nações. Estamos fracos. O desejo de paz é maravilhoso, mas não podemos ter paz se os adversários – armados e com fortes exércitos – não nos respeitam, militarmente, como adversários. A ideia se aplica a todos os setores.
Precisamos de gestores que cuidem do que é nosso, façam o país prosperar na realidade e não nas estatísticas, gere empregos onde as pessoas ganhem bem para viver bem. Adoraria ver o dia em que a classe mais baixa ganhasse o bastante para comprar casa própria e se alimentar bem, pagar plano de saúde e viajar. Precisamos buscar igualdade levando as pessoas para cima, para segurança, conforto, saúde e educação de alta qualidade. Nivelar por cima! Subir a régua do padrão, das exigências. E obrar para que as coisas se realizem. Utopia? Não creio. Acredito que utopia é viver achando que mudar o nome das coisas surta efeito. É urgente que olhemos adiante, para que não fiquemos com contas a pagar ou deprimidos com o futuro, sem esperança, topando qualquer coisa e acreditando em promessas que não serão cumpridas. Promessas não são compromissos. Precisamos de compromisso e do seu cumprimento. Precisamos de maturidade no eleitorado, de reflexão, de mão na consciência, de pensar nos seus netos, filhos e no amanhã próspero e duradouro para todos. Merecemos!

