03-11-2026 às 16h40
Samuel Arruda*
BRASÍLIA – Reeleito para um quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa a desenhar a nova composição do governo com um desafio político e econômico de grandes proporções: ampliar sua base de sustentação no Congresso Nacional e, ao mesmo tempo, encontrar recursos para cumprir as promessas feitas durante a campanha eleitoral.
A estratégia de Lula passa pela aproximação com partidos do chamado Centrão, incluindo setores do MDB, União Brasil, PP e Republicanos. A intenção é oferecer participação na Esplanada dos Ministérios a grupos parlamentares que estejam dispostos a apoiar efetivamente as propostas do Executivo.
Segundo informações publicadas pela imprensa nacional, Lula pretende estabelecer uma relação diferente daquela mantida durante o atual mandato. A distribuição de ministérios deverá estar mais diretamente vinculada ao compromisso de apoio legislativo, evitando que partidos ocupem espaços no governo e, simultaneamente, votem contra projetos de interesse do Palácio do Planalto.
Entre os nomes mencionados nas articulações estão Silvio Costa Filho, do Republicanos, Aguinaldo Ribeiro, do PP, e representantes de alas do MDB e do União Brasil. Também estão em discussão possíveis mudanças em ministérios estratégicos, como Fazenda, Casa Civil e Relações Institucionais. Até o momento, entretanto, não há uma composição ministerial definitiva.
O cenário parlamentar que Lula encontrará a partir de fevereiro de 2027 será diferente daquele enfrentado no início de seu atual governo. O crescimento da representação de direita e a força do PL, que terá 121 deputados federais e 28 senadores, tornam mais complexa a aprovação de projetos que dependam de maiorias expressivas.
O PT, por sua vez, contará com 70 deputados na Câmara. Essa diferença ajuda a explicar a necessidade de aproximação com partidos de centro e lideranças que não estiveram integralmente alinhadas ao presidente durante a eleição.
Lula também sinalizou disposição para estreitar o relacionamento com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. A intenção é construir uma frente parlamentar capaz de garantir governabilidade e reduzir os conflitos entre Executivo e Legislativo.
A negociação, porém, não se resume à distribuição de cargos. O governo precisará apresentar contrapartidas políticas, negociar prioridades e demonstrar que os partidos aliados terão participação efetiva nas decisões administrativas.
Se na política o desafio é construir maioria, na economia a dificuldade é encontrar dinheiro para cumprir os compromissos assumidos nas urnas, a realidade das contas públicas é outra.
No dia 1º de novembro, em manifestação nas redes sociais, Lula reafirmou que nenhum programa social será extinto durante seu próximo mandato e garantiu que as promessas eleitorais serão cumpridas. O presidente também afirmou que os programas existentes poderão ser ampliados ou receber novas iniciativas.
A declaração, entretanto, não veio acompanhada de um detalhamento sobre a origem dos recursos necessários para financiar todas as medidas anunciadas.
Entre os compromissos estão a ampliação do Pé-de-Meia para estudantes universitários, medidas de apoio aos microempreendedores individuais, reajustes de benefícios sociais, iniciativas para reduzir o endividamento das famílias e propostas relacionadas à segurança pública e à jornada de trabalho.
O problema é que parte dessas iniciativas ainda depende de aprovação do Congresso e outras exige espaço adicional no Orçamento.
De acordo com estimativas do Ministério do Planejamento, será necessário remanejar aproximadamente R$ 20 bilhões do Orçamento de 2027 para acomodar medidas anunciadas durante a campanha. O governo terá de identificar despesas que possam ser reorganizadas sem comprometer outras áreas essenciais.
Os números divulgados pelo Banco Central em 29 de outubro mostram a dimensão do desafio fiscal.
Em setembro de 2026, a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O indicador está no maior patamar desde 2021.
No acumulado de 12 meses, os juros nominais da dívida pública chegaram a R$ 1,205 trilhão, correspondentes a 8,99% do PIB. Já o déficit nominal, que considera o resultado primário e os juros, atingiu R$ 1,275 trilhão no mesmo período.
Embora o governo apresente uma previsão de superávit primário para 2027, a trajetória da dívida e o peso dos juros continuam pressionando as contas públicas.
O Projeto de Lei Orçamentária de 2027 prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, considerando todas as receitas e despesas primárias, sem descontos. A meta fiscal ajustada pelas regras do regime fiscal é de R$ 83,4 bilhões.
A diferença entre a previsão orçamentária e a realidade da execução das despesas será um dos pontos de atenção da equipe econômica.
Outro problema está dentro da própria equipe presidencial. Integrantes da área econômica defendem medidas para controlar despesas e garantir o cumprimento das metas fiscais. Já representantes da ala política demonstram resistência a cortes mais amplos, argumentando que Lula não foi eleito para reduzir benefícios sociais.
O presidente também teria sinalizado resistência a medidas que contrariem compromissos assumidos durante a campanha, especialmente aquelas que possam atingir o salário mínimo e programas sociais.
O impasse é significativo: sem controle das despesas, a dívida pode continuar crescendo; com cortes excessivos, o governo corre o risco de comprometer parte de sua agenda social.
A equipe econômica estuda alternativas, que incluem revisão de despesas, mudanças na estrutura orçamentária e medidas para ampliar a eficiência dos gastos públicos.
A questão central do próximo governo será demonstrar que as promessas eleitorais podem ser transformadas em políticas públicas sustentáveis. Este será o grande desafio do quarto mandato.
Lula assegura que pretende manter e ampliar os programas sociais. Seus aliados afirmam que é possível conciliar crescimento econômico, responsabilidade fiscal e distribuição de renda. Entretanto, economistas e analistas do mercado financeiro apontam que a combinação exigirá decisões concretas sobre despesas, arrecadação e prioridades orçamentárias.
A montagem do novo ministério será, portanto, mais do que uma reorganização administrativa. Representará também uma tentativa de construir sustentação política para enfrentar um Congresso mais difícil e aprovar medidas econômicas que poderão definir os rumos do país nos próximos quatro anos.
Entre a necessidade de conquistar novos aliados, preservar os compromissos eleitorais e controlar o endividamento público, Lula terá de responder a uma pergunta que ultrapassa os limites de sua articulação política: de onde virá o dinheiro para cumprir tudo aquilo que foi prometido aos brasileiros?
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

