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29-05-2026 às 10h30
Samuel Arruda*
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira uma das decisões mais duras já tomadas contra facções criminosas brasileiras ao confirmar a intenção de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida foi comunicada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, dentro da estratégia de segurança da administração do presidente Donald Trump para ampliar o combate ao narcotráfico internacional e às organizações criminosas transnacionais.
Segundo o Departamento de Estado dos EUA, PCC e CV já foram enquadrados inicialmente como “Terroristas Globais Especialmente Designados”, etapa que antecede a formalização da inclusão das facções na lista oficial de Organizações Terroristas Estrangeiras, prevista para entrar em vigor nos próximos dias. O governo americano afirma que as duas organizações possuem redes de atuação internacional, ligação com tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, comércio ilegal de armas e influência em países da América Latina e até em território norte-americano.
A decisão representa uma mudança profunda na forma como Washington pretende lidar com o crime organizado brasileiro. Até então, PCC e CV eram tratados como organizações criminosas transnacionais. Com o novo enquadramento, os Estados Unidos passam a aplicar mecanismos típicos de combate ao terrorismo, permitindo congelamento de ativos, sanções financeiras internacionais, ampliação da cooperação policial e até ações extraterritoriais mais agressivas em nome da segurança nacional americana.
Nos bastidores diplomáticos, a medida provocou forte preocupação no governo brasileiro. Integrantes da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vinham tentando evitar a classificação das facções como grupos terroristas por receio de impactos sobre a soberania nacional e sobre o sistema financeiro brasileiro. Especialistas apontam que empresas, bancos ou pessoas que eventualmente realizem transações ligadas, mesmo indiretamente, às áreas de influência dessas organizações poderiam entrar no radar das autoridades americanas.
A discussão sobre enquadrar PCC e CV como terroristas já vinha crescendo desde o início do ano dentro do governo Trump e ganhou força após pressões de setores conservadores dos Estados Unidos e de governos aliados na América do Sul. Argentina e Paraguai já haviam adotado classificações semelhantes contra as facções brasileiras em 2025, alegando riscos à segurança regional.
No Brasil, a medida divide opiniões entre autoridades de segurança, juristas e especialistas em relações internacionais. Parte dos analistas entende que o endurecimento pode ampliar o cerco financeiro e operacional contra o narcotráfico. Outra ala, porém, teme que a classificação abra precedentes para interferências externas e transforme o combate ao crime organizado em uma pauta de segurança internacional conduzida diretamente por Washington.
A decisão também aumenta a pressão política sobre o Congresso Nacional brasileiro, onde já tramitam propostas para enquadrar oficialmente facções criminosas como organizações terroristas dentro da legislação brasileira. Em abril deste ano, uma comissão da Câmara dos Deputados aprovou um projeto que inclui PCC e CV em uma lista de grupos terroristas ao lado de cartéis latino-americanos.
* Samuel Arruda é jornalista e articulista

