01-11-2026 às 08h40
Mauro Bomfim*
* “Ao vencedor, as batatas” (I): O Código Eleitoral de 1965, até hoje em vigor, proclama vencedor o candidato que obtém metade dos votos válidos, sem brancos e nulos. É a regra da eleição majoritária. O domingo que passou, segundo turno dramático, não obstante a navalhada do Ministro Zanin, do Supremo, em decisão que chegou às cinco das tarde, decidira prorrogar por duas horas uma eleição já praticamente encerrada. Um vezo do atual Supremo. Quase compromete um trabalho competente e silencioso de milhares de mesários voluntários, servidores e juízes dos Tribunais Regionais. Choro e ranger de dentes do lado perdedor. Mesmo anulados os 34 mil votos computados pelo TSE, daqueles que votaram após as 17 horas, não serão suficientes para anular todo o pleito. Flávio Bolsonaro esperneou e não aceitou o resultado. Na noite do pleito, nem agradeceu aos seus 59 milhões de eleitores. Somente no dia seguinte, talvez alertado, lembrou de agradecer. Milton Campos, sábio político de Minas, se candidatou a vice presidente em 1960 e perdeu para João Goulart, quando presidente e vice se elegiam separadamente. A dupla Jan-Jan vitoriosa. Jânio presidente e João Goulart vice. Uma repórter lhe perguntou à queima-roupa: “Por que o senhor perdeu, Dr. Milton Campos”. A resposta na bucha: “Faltaram votos, minha filha”.
* “Ao vencedor, as batatas” (II): Dito pelo insuperável Machado de Assis, pela boca do personagem Quincas Borba, essa frase muito lembrada encerra em si uma feroz crítica ao darwinismo social, a lei do mais forte. Pode ser lembrada após o resultado eleitoral do segundo turno. Mesmo o oráculo da direita Olavo de Carvalho advertindo que o poder não se ganha nas eleições, se toma (metafórica distinção da fachada do poder e de sua verdadeira raiz), Flávio Bolsonaro não reconhece o vencedor. Seu partido, o PL, pela voz de seu presidente Valdemar da Costa Neto e demais partidos do Centrão, se curvaram ao resultado oficial do TSE. Flávio, ao revés, partiu via terrestre rumo ao território argentino, tomou um jatinho de última geração, adentrou pelo espaço aéreo equatoriano até desembarcar num aeroporto de Miami. Leu uma carta em que se auto intitulou “presidente eleito”, expressão que logo tratou de corrigir para “líder político do Brasil”. Enquanto isso, em terras brasileiras, movimentação intensa para quem irá assumir o comando do bolsonarismo. A senadora eleita Michele Bolsonaro é um dos nomes mais comentados. Isso é darwinismo puro. Ou a teoria da impenetrabilidade da matéria de Sir Isaac Newton: “Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo”. Em política, um tira o pé. Outro logo ocupa.
*Soberba e empáfia: Candidato tem que fazer curso de bambolê, aquele círculo feito à base de mangueira de plástico que as colegiais rodavam na cintura. Tem que ter cintura fina. E calçar a sandália franciscana da humildade. Lula foi o soberbo do primeiro turno. Esnobou a turma do agro, desprezou as mídias digitais e a juventude da geração K. Levou a campanha do primeiro turno olhando para o próprio umbigo, para a “companheirada”. No segundo turno, foi Flávio quem abusou da soberba e do esnobismo. Já estava escolhendo ministros, no clima do já ganhou. Falava a favor dos programas sociais, enquanto a sua principal assessora econômica dizia aos empresários que faria o “tesouraço”, cortando tudo. Muita dancinha, pantomima e descompostura nos debates. A ausência do caminho rumo ao centro do espectro político. Jogou as fichas só na extrema direita. Flávio buscou só para que já era seu. Outro erro fatal: a ênfase ao defeito físico do adversário, a quem chamou de nove dedos, se esquecendo de cerca de 60 milhões de trabalhadores e eleitores com algum defeito físico, não raro resultante de acidente de trabalho. A eleição é a arte de não errar, ou de errar menos.
*Macrocosmos: O segundo turno presidencial de 2026 provou que a eleição do mundo digital é um grande macrocosmo, feito de muitos microcosmos. Só a rede social não resolve. O bom e velho caminho das ruas ainda pode ser definidor. Flávio: jatinho, desce no aeroporto, entra na van, sobe no trio, desce direto pra van, volta pro aeroporto e segue pra outro compromisso. Lula desce do trio e caminha na paulista, abraça e cumprimenta muita gente. Ganhar eleição é apertar o maior número de mãos. E nas patrulhas digitais, sem dúvida o Exército de Janones colocou no chinelo a Tropa do Nikolas. Comportamento previsível de quem vence o primeiro turno e se acomoda naturalmente. Erro fatalíssimo: segundo turno é eleição zerada. No macrocosmo do mundo digital, o microcosmo humano pode definir o pleito de um segundo turno. A equipe de Lula conseguiu mobilizar quem havia ficado em casa, reduzindo drasticamente a abstenção. Apostou no público da melhor idade, do 60+. Falou de problemas concretos da população e transformou as redes sociais em instrumento político. A receita acabou dando certo, numa das mais surpreendentes viradas das campanhas presidenciais desde 1989.
*A IA e a predição (I): Predição, modelo preditivo. Maravilhas que a Inteligência Artificial proporciona para cravar um resultado eleitoral certeiro, o que as pesquisas ainda não proporcionam. Mesmo porque premidas pelo eleitor improvável, o que só decide na hora do voto. Com as urnas fechadas, aí entra em cena esse prodígio da era tecnológica. Foi com apenas 2,5% de urnas apuradas que o pesquisador Rodrigo Mahlmeister, de 31 anos, projetou a vitória do presidente Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro. Doutorando naUniversidade de Duke, nos Estados Unidos, seria inimaginável para o próprio pesquisador supor queLula ganharia mais de 10 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno das eleições. Um algoritmo criado por Malhmeister, que cruza dados de outras eleições, o levou ao acerto no primeiro turno: Flávio 47,03% dos votos válidos, e Lula, 45,16%. Um modelo que, com os votos já finalizados, e no início da apuração é capaz de predizer o resultado das urnas que ainda não foram contadas.
A IA e a predição (II): Devo realçar neste espaço que nessas eleições acompanhei os prognósticos altamente densos e significativos da lavra do cientista político Alberto Carlos Almeida, um verdadeiro craque em dissecar e exumar o processo eleitoral, muito antes da supremacia da IA. Sou leitor inveterado de suas obras, entre elas “A Cabeça do Eleitor”, “A mão e a luva: o que elege um Presidente”, “A Cabeça do Brasileiro”, todos best-seller. O trabalho desses cientistas políticos é ditado pelo rigor do método. Explicam esses festejados cientistas políticos: numa apuração, o placar parcial do TSE engana a compreensão porque a ordem da apuração não é aleatória. Em certos momentos chegam mais urnas do Nordeste, em outros mais do Sul ou de cidades pequenas. Por isso o modelo não olha o placar: compara cada lugar com ele mesmo. Estima essa variação por estado e por região, aplicando-a a cada município ainda não apurado e soma tudo. Assim, com poucas urnas apuradas, possível predizer o resultado com incrível índice de acerto.
Mauro Bomfim- advogado, jornalista e escritor- *Texto sem uso de IA.

