Senador Cleitinho Azevedo - créditos: Republicanos
09-08-2026 às 09h40
Samuel Arruda*
A eleição para o governo de Minas Gerais ganhou, mais uma vez, um personagem central — e talvez o mais imprevisível deles.
Depois de meses de indefinições, anúncios de desistência, reviravoltas e uma disputa pública com o próprio partido, o senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, voltou a ser colocado oficialmente na corrida pelo Palácio Tiradentes. O partido confirmou nesta sexta-feira, 7 de agosto, a candidatura do senador, depois de uma semana em que chegou a trabalhar com outro nome para a disputa.
A pergunta agora não é apenas se Cleitinho será candidato. É se, desta vez, a candidatura veio para valer.
Pelo menos politicamente, a resposta é sim. O Republicanos voltou a liberar o senador para disputar o governo, encerrando — ao menos por enquanto — uma crise que expôs divergências entre a direção partidária e o grupo de Cleitinho. Poucos dias antes, o presidente nacional da legenda, Marcos Pereira, havia indicado que o ex-prefeito de Patos de Minas Falcão seria o nome do partido para o governo.
A reviravolta é significativa porque Cleitinho não chega à disputa como um candidato qualquer. Ele chega como líder isolado nas pesquisas.
Na Genial/Quaest divulgada no fim de julho, o senador aparecia com 34% a 35% das intenções de voto nos cenários em que seu nome era apresentado. Alexandre Kalil, o segundo colocado, ficava muito atrás, com 12% em um dos cenários. Cleitinho também aparecia à frente nas simulações de segundo turno.
É justamente essa vantagem que explica boa parte da insistência do senador.
Cleitinho descobriu uma coisa valiosa na política: há uma distância considerável entre a força de um candidato e a força de seu partido. Mesmo quando sua legenda hesitou, seus números continuaram sendo altos. Quando anunciou que não disputaria, o cenário eleitoral mineiro imediatamente voltou a ficar embaralhado.
O candidato que o partido tentou tirar da eleição
A novela dos últimos dias, porém, não é um detalhe.
Cleitinho chegou a anunciar que não seria candidato. Depois voltou a pedir que o Republicanos reconsiderasse a decisão. Em 4 de agosto, interrompeu a convenção nacional da legenda para reivindicar novamente o direito de concorrer.
A direção nacional chegou a apontar as indefinições do senador como um dos motivos para tentar substituí-lo.
O episódio produz um efeito político inevitável: se Cleitinho pretende convencer o eleitor de que está preparado para administrar um Estado complexo como Minas, terá de explicar por que foi tão difícil decidir se queria, ou não, administrar o Estado.
Não é uma questão meramente emocional.
Governar Minas exige tomar decisões impopulares, construir maioria na Assembleia Legislativa, negociar com prefeitos, lidar com sindicatos, administrar uma máquina pública gigantesca e, sobretudo, enfrentar um problema fiscal que não desaparece com discurso de campanha.
O Estado ainda carrega uma dívida consolidada superior a R$ 214 bilhões, segundo o relatório fiscal referente ao primeiro quadrimestre de 2026.
Minas também passou por anos de dificuldades fiscais e está submetida a mecanismos de recuperação e ajuste das contas públicas. O próprio governo estadual descreve entre as obrigações do regime o cumprimento de metas fiscais e medidas destinadas ao ajuste das contas.
É nesse ponto que aparece a maior interrogação sobre Cleitinho.
Ser popular é suficiente para governar?
Até aqui, Cleitinho demonstrou uma capacidade eleitoral muito maior do que sua experiência administrativa.
Sua carreira foi construída no Legislativo, primeiro como deputado estadual e depois como senador. Seu estilo é direto, popular, fortemente baseado em redes sociais, críticas ao que chama de “sistema” e defesa de pautas que conversam diretamente com o eleitor.
O problema é que o Executivo cobra competências diferentes.
No Senado, o político pode ocupar a tribuna, denunciar, fiscalizar, propor projetos e pressionar adversários. No governo estadual, ele precisa decidir quanto gastar, onde cortar, quem nomear, quais obras priorizar, como estruturar secretarias, como negociar com a União e como manter funcionando uma máquina que envolve saúde, educação, segurança, infraestrutura e dezenas de órgãos.
É uma mudança brutal de função.
O próprio Cleitinho tem sido confrontado publicamente com a acusação de não possuir preparo suficiente para governar. Em maio, respondeu às críticas na tribuna do Senado, afirmando que sua atuação sempre esteve voltada à defesa da população e que não teria perfil para corrupção ou superfaturamento.
O argumento é politicamente eficiente, mas não resolve inteiramente a questão.
Não roubar é obrigação de qualquer governante. Saber governar é outra coisa.
A pergunta que Minas precisa fazer a Cleitinho, portanto, não é apenas se ele é honesto ou se representa uma ruptura com a política tradicional. É mais objetiva: qual é o seu plano para administrar um Estado endividado, complexo e politicamente fragmentado?
O estilo que o trouxe até aqui pode ser o mesmo que o atrapalhe no governo
Cleitinho tem outra característica que merece atenção: seu capital político está fortemente associado ao confronto.
No Senado, ele tem adotado posições duras contra órgãos de fiscalização e regulação. Em junho, criticou Ibama, Funai e ICMBio e também questionou órgãos estaduais e decisões regulatórias.
Em julho, defendeu inclusive a reabertura do debate sobre a pena de morte e uma nova Constituição que permitisse sua adoção.
Essas posições podem ampliar sua conexão com um eleitorado conservador. Mas governar exige mais do que mobilizar uma base.
Um governador precisa lidar diariamente com instituições que não pode simplesmente atacar: Tribunal de Justiça, Ministério Público, Assembleia Legislativa, Tribunal de Contas, governo federal, municípios, servidores públicos e empresas concessionárias.
É aí que a candidatura de Cleitinho entra em uma zona ainda pouco conhecida.
Ele já mostrou que sabe fazer oposição. Ainda precisa provar que sabe construir governo.
Mas seria injusto ignorar o que ele já construiu
Há também um contraponto importante.
A liderança de Cleitinho não surgiu do nada. Desde o início do ano, diferentes levantamentos vêm apontando o senador na frente. Pesquisa divulgada em maio pela Real Time Big Data, por exemplo, já mostrava Cleitinho com 35% em um cenário de primeiro turno.
E sua força não depende exclusivamente de uma onda momentânea. A Genial/Quaest, divulgada em julho, voltou a encontrá-lo na liderança, inclusive em cenários de segundo turno.
Isso indica que existe uma demanda eleitoral real por sua candidatura.
O eleitor mineiro parece enxergar em Cleitinho alguém que fala uma linguagem diferente da política tradicional. Para uma parcela do eleitorado, justamente aquilo que seus críticos chamam de inexperiência pode ser percebido como autenticidade.
Essa é uma das características mais difíceis de combater eleitoralmente.
O teste começa agora
A campanha, portanto, muda de natureza.
Até aqui, Cleitinho podia crescer explorando a insatisfação com os políticos tradicionais. Agora, terá de apresentar respostas.
Como enfrentar a dívida?
Como melhorar a saúde?
Como reduzir filas e ampliar atendimento?
Como lidar com a segurança pública?
Qual será sua política para os servidores?
Que relação terá com a Assembleia?
Quem serão seus secretários?
Qual será sua equipe econômica?
Como pretende negociar com Brasília?
E, principalmente, que tipo de governador ele pretende ser?
São perguntas menos emocionais e muito mais difíceis do que aquelas que costumam dominar as redes sociais.
O eleitor também terá de fazer uma distinção importante: Cleitinho pode ser um excelente candidato e, ao mesmo tempo, um governador ainda não testado.
Uma coisa não garante a outra.
Então, desta vez é para valer?
Tudo indica que sim — mas o histórico recente recomenda cautela.
O Republicanos confirmou a candidatura, Cleitinho voltou a assumir publicamente a disputa e o senador tem um incentivo enorme para permanecer nela: ele lidera as pesquisas e entra na corrida como o nome a ser batido.
O que ainda não está completamente resolvido é outra questão: se Cleitinho conseguirá transformar sua popularidade pessoal em uma estrutura política capaz de sustentar um governo.
E talvez essa seja a verdadeira eleição que Minas começará a travar daqui para frente.
Não será apenas uma disputa entre direita, esquerda e centro.
Será uma escolha entre estilos de poder.
De um lado, a experiência administrativa tradicional. De outro, a promessa de ruptura representada por um senador que construiu sua força justamente enfrentando o establishment.
Cleitinho já provou que consegue ganhar espaço na política.
Agora precisa provar que consegue governar.
E essa diferença — entre conquistar votos e administrar Minas Gerais — pode ser o ponto mais importante de toda a eleição de 2026.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

