Créditos: Divulgação
29-07-2026 às 10h08
Roberto Morais*
Há dezenove anos acontecia o desastre do Airbus da Latam no aeroporto de
Congonhas que ceifou a vida de 199 pessoas. Obviamente que a comoção foi geral e todo
mundo ficou muito chocado e impressionado com a tragédia. Mas a tragédia continua, porém,
despercebida por ser fragmentada, pois perdemos o equivalente, em vidas, a 1 avião de
grande porte a cada dia no nosso trânsito, o mais letal do planeta. Aproximadamente 100
pessoas morrem diariamente e 250 mil ficam com sequelas permanentes, por ano. Esses
números não devem assustar o Governo Federal que, recentemente, mudou as regras para
obtenção da Carteira Nacional de Habilitação, simplificando e facilitando muito sua obtenção.
Retirou várias cobranças, dentre elas, a execução de baliza na rua e a obrigatoriedade da
frequência em autoescolas. Ora, se o nível de educação acadêmica e prática do candidato está
sendo empobrecido (negligenciado), significa que novos condutores mais mal instruídos estão
indo para as ruas. Estudos da PRF revelam que mais de 90% dos desastres (desastres são
diferentes de acidentes porque são evitáveis) são causados por falha humana. Portadores de
CNH mal preparados estão mais sujeitos à falhas, que já começam na sua formação.
Quem tirou carteira de motorista nos últimos 60 anos foi posto à prova num exame
prático que mudou muito pouco nesse período, então equivale dizer que minha mãe, eu e
meu filho fomos submetidos praticamente às mesmas provações neste teste. Dá-se uma volta
de poucos quarteirões durante uns 10 minutos, onde os examinadores pedem algumas
manobras básicas, observam a destreza do candidato durante o percurso e finalizam seu
ajuizamento. Esta prova é tecnicamente muito fácil e a dinâmica do trânsito mudou muito em
meio século, mas o governo não entende assim e resolveu diminuir as exigências. Em alguns
países (como Portugal), tal exame é bem mais demorado e inclui transitar em rodovias. Venho
advogando há anos que o teste prático de direção no Brasil mude para esse padrão, exigindo
mais e fazendo com que as autoescolas melhorem a formação de seus alunos. Defendo
também que as pessoas já habilitadas sejam submetidas a esse novo procedimento (apenas na
1ª vez, gratuitamente) e, se reprovadas, cancelar-se-iam suas CNHs.
O governo está prestando um grande desserviço ao dispensar a compulsoriedade de
aulas prestadas pelas autoescolas. Proponho um debate nacional provocado pelo Legislativo
com o objetivo de apresentar dados e esclarecer à população e à própria Casa Legislativa sobre
a gravidade das consequências de condutores precariamente preparados, para o trânsito
brasileiro. As escolas são imprescindíveis e um novo modelo de aprovação precisa ser
discutido e atualizado.
O mau comportamento dos condutores em geral tem como origem negligência, falta
de respeito, mau-caratismo, preparo insuficiente e ainda fatores culturais fortíssimos,
advindos do “jeitinho brasileiro”, principalmente do agente de trânsito, ao não estar presente,
ou estar e não abordar ou multar o infrator. Trata-se da violação do Princípio do Poder/ Dever,
um direito irrenunciável da Administração Pública. Sem fiscalização não há saída. A história
(vide a greve da Polícia de Montreal em 1969) nos mostrou inúmeras vezes que sem
patrulhamento de autoridades constituídas, o ambiente torna-se propício para o
estabelecimento da desordem e da bagunça, retrato fiel do nosso dia-a-dia. A solução existe,
não é fácil, mas precisa ser discutida, a barbárie não pode continuar.

