Créditos: Divulgação IA
11-10-2026 às 16h50
Rogério Reis Devisate*
A Polônia voltou ao noticiário por causa das restrições que sua legislação estabelece à propaganda de regimes totalitários, o que talvez cause alguma estranheza a quem observa o assunto de longe, sem carregar a memória daquele país. Para nós, tão distantes do contexto, talvez seja difícil compreender o trauma de uma sociedade que conheceu a invasão alemã de 1939 e que, terminada a Segunda Guerra Mundial, permaneceu por mais de quarenta anos sob o regime comunista, pois estava inserida na órbita soviética, com severas limitações ao pluralismo político e às liberdades.
Há dores coletivas que não desaparecem com aqueles que diretamente as sofreram, porque permanecem nas famílias, nos cemitérios e nos silêncios transmitidos de uma geração à seguinte; talvez por isso a Constituição polonesa proíba organizações cujos programas ou atividades se apoiem nos métodos totalitários do nazismo, do fascismo e do comunismo, enquanto sua legislação penal também restringe a promoção desses sistemas. Outros países europeus, em razão das marcas das suas próprias experiências, conservaram normas semelhantes.
Não interessa aqui discutir se alcançamos ou não o real significado das situações daqueles países. Convém, porém, afastar desde logo uma confusão frequente, especialmente num tempo em que palavras políticas são lançadas como se bastasse pronunciá-las para modificar a realidade: ser de esquerda ou de direita não torna ninguém radical e preferir maior ou menor participação do Estado na economia pouco diz, isoladamente, sobre a relação de alguém com a democracia: basta ver a situação da China, com um partido comunista e uma economia globalizada no modelo capitalista. As generalizações, aliás, costumam falhar justamente quando a história começa a ficar interessante, porque povos diferentes, épocas diversas e movimentos nascidos de circunstâncias próprias raramente cabem nas categorias simplistas com que procuramos organizá-los depois, fazendo com que quem acusa sem compreender essas distinções possa produzir uma frase forte, enquanto enfraquece o próprio argumento, já que substituir a história por um rótulo não torna esse enquadramento verdadeiro.
Recordo-me, a propósito, de certa vez ouvir alguém elogiar o socialismo porque, segundo dizia, seria bom que as pessoas “socializassem” mais; a observação era provavelmente bem-intencionada, mas mostrava como uma palavra familiar pode criar a impressão enganosa de que também conhecemos o conceito que ela designa, pois socialismo, evidentemente, não significa socializar no sentido cotidiano de conviver ou encontrar amigos, do mesmo modo que gostar de boa comida não transforma ninguém em glutão, nem ser gourmet significa padecer de gula.
Luiz Alberto Moniz Bandeira, em A desordem mundial, recuperou uma observação de Oswald Spengler e deixou uma advertência especialmente útil para esse assunto tão contaminado pelas paixões do presente: C’est la réalité des faits. E acrescentou que “palavras não mudam a realidade dos fatos”, lembrando-nos de que a interpretação pode deformar aquilo que pretende explicar quando obriga os acontecimentos a confirmar uma conclusão escolhida de antemão.
A própria dimensão do fenômeno recomenda alguma modéstia, pois um importante levantamento reuniu informações acerca de 280 regimes autocráticos entre 1946 e 2010, demonstrando como a imagem da ditadura reduzida ao general cercado de soldados explica apenas parte da história. Este artigo de jornal não comporta longos filmes capazes de revelar cada transformação histórica e, por isso, procuraremos algumas fotografias que permitam ao leitor perceber de onde vieram determinados regimes antes que a concentração do poder estivesse completa.
Mussolini oferece um exemplo interessante. Antes de criar o fascismo, foi dirigente do Partido Socialista Italiano e diretor do Avanti!, mas rompeu com o partido ao defender a participação italiana na Primeira Guerra Mundial. Os primeiros Fasci di Combattimento, de 1919, reuniam antigos socialistas, sindicalistas revolucionários, nacionalistas e veteranos de guerra, até que o movimento seguiu em direção ao nacionalismo radical, ao antimarxismo, à violência política e à destruição progressiva do pluralismo, servindo como exemplo de que a vida política raramente respeita as linhas retas que desenhamos para facilitar nossas classificações.
O nazismo apresenta uma questão diferente, a começar pela denominação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, cuja referência ao socialismo, embora inequívoca, suscita controvérsias sobre seu significado ideológico, pois o movimento combinava linguagem social e propostas de intervenção econômica com nacionalismo radical, antimarxismo e exclusão racial. Não se trata de negar a palavra que integrava o nome do partido, nem de supor que ela, isoladamente, explique a natureza do regime. Mais revelador é o percurso político: depois do fracasso do golpe de 1923, Hitler passou a disputar eleições, transformou o partido num movimento de massas e, em janeiro de 1933, foi nomeado chanceler dentro dos mecanismos constitucionais existentes, seguindo-se a supressão das liberdades por decretos de emergência, intimidação e progressiva eliminação dos limites do poder.
Na Rússia, os bolcheviques provinham do marxismo revolucionário, tomaram o poder em 1917 e construíram uma ordem na qual o Partido Comunista monopolizou as decisões fundamentais do Estado. Posteriormente, a concentração pessoal do poder, os expurgos e a repressão alcançaram dimensões ainda mais profundas.
Depois da Segunda Guerra Mundial, modelos inspirados nessa experiência ocuparam parte da Europa Oriental, por caminhos diversos. Na Tchecoslováquia, os comunistas participaram de um governo de coalizão, ganharam força eleitoral e ocuparam posições estratégicas no Estado antes de consolidar o controle político em 1948; na Hungria, a chamada “tática do salame” isolou e gradualmente neutralizou adversários até que a revolta de 1956 tentou romper o sistema e foi esmagada pela intervenção soviética.
Em Portugal, o golpe de 1926 abriu caminho para um Estado Novo autoritário, corporativo e antiparlamentar; na Espanha, uma rebelião militar transformou-se em Guerra Civil e deu origem à ditadura; na Áustria, formou-se um regime corporativo influenciado pelo fascismo italiano; e, na Grécia, os militares chegaram diretamente ao poder por um golpe em 1967.
Na Alemanha Oriental, o Partido Socialista Unificado dominou o Estado; na Romênia, o regime tornou-se personalista; na Bulgária, o Partido Comunista conservou o poder por décadas; e, na Albânia, consolidou-se um dos sistemas marxista-leninistas mais fechados da Europa. A Iugoslávia, embora também submetida ao partido único, rompeu com a União Soviética em 1948 e adotou um sistema peculiar de autogestão.
A experiência comunista atravessou continentes: na China, o Partido Comunista chegou ao poder em 1949; no Camboja, a conquista do Estado pelo Khmer Vermelho desencadeou uma tragédia humana; em Cuba, a revolução que derrubou a ditadura não nasceu como extensão do Partido Comunista e somente depois aproximou-se da União Soviética.
Também escapam às classificações simples o Egito, onde o nacionalismo anticolonialista se aproximou do socialismo árabe, enquanto o Iraque, sob Saddam, combinou socialismo próprio e personalização do poder; no México, por sua vez, eleições e partidos conviveram durante décadas com severas restrições à alternância.
O panorama poderia prosseguir, mas essas fotografias permitem perceber que os autoritarismos do século XX surgiram por percursos diversos, do marxismo revolucionário ao fascismo, do nacionalismo ao militarismo, além de combinações que somente a história particular de cada sociedade permite compreender, sem reduzir experiências distintas a uma única categoria.
Há, ademais, uma vantagem para quem discordar destas linhas: os fatos podem ser confrontados em livros, textos e fontes oficiais amplamente acessíveis, de modo que ninguém precisa aceitar a palavra deste articulista sem formar sua própria compreensão; afinal, como já lembrado, a interpretação deve seguir os acontecimentos, não conduzi-los ao lugar onde gostaríamos que estivessem.
Reconhecer uma ditadura quando já existem censura, polícia política, prisões, partido único e soldados nas ruas é relativamente fácil; muito mais difícil é perceber o percurso quando ainda há discursos, promessas, partidos, movimentos e eleições, quando o adversário deixa lentamente de ser alguém com quem se diverge para tornar-se inimigo a ser liquidado sob qualquer argumento e quando alguma liberdade começa a ser apresentada como sacrificável em nome de uma promessa maior. Talvez seja justamente por isso que valha a pena olhar menos para as botas e mais para as sementes, porque, em muitos lugares do século XX, quando finalmente as tropas começaram a marchar, uma parte decisiva da história já havia sido estabelecida muito antes.

