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08-08-2026 às 10h25
Mariah Brochado*
Toda interação nas redes sociais esconde um cálculo de retorno em visibilidade, e é esse cálculo, não a sinceridade do que se diz, que organiza boa parte do que vemos circular todos os dias na internet.
O episódio recente envolvendo Ana Maria Machado e João Bosco serve de ilustração exata dessa lógica. Cobrada nas redes por uma leitura retrospectiva de “Menina Bonita do Laço de Fita”, ela não recuou; cobrado a retirar “Gol Anulado”, parceria com Aldir Blanc, do repertório, ele também se negou a ceder às críticas.
A indignação em postagens contra estes dois grandes nomes da cultura brasileira durou dias e tomou proporções agigantadas, alimentada menos pelo conteúdo das obras e mais pela recusa dos dois em ceder.
Nas palavras de Wilson Gomes, “Acusar um desconhecido produz pouca repercussão, enquanto mostrar os pés de barro de uma celebridade permite capturar parte de sua visibilidade. (…) Quanto maior a presa, maior o prestígio do caçador.” (Folha de São Paulo, jul. 2026).
Este caso não é um episódio isolado de intolerância digital: é sintoma de algo mais amplo, uma verdadeira cadeia alimentar de visibilidade que rege toda a rede, da caçada a celebridades, comentando e repostando qualquer bobagem dita para pegar carona na visibilidade conquistada, ao modo como colegas comuns se tratam todos os dias nas redes, ignorando postagens interessantes de pesquisadores parceiros de instituição, simplesmente porque não angariaram curtidas e seguidores.
Uma conclusão é certa: nas redes, ninguém interage à toa, por genuína convicção, por desejo de comunicar boas ideias e interagir dialogicamente em torno de temas interessantes e até necessários. Interage-se com quem já possui seu séquito nas rotas da web na esperança de que um pouco dessa audiência se volte para quem comenta e reposta, migalhas de visibilidade que caem de uma proximidade forçada, disfarçada de interesse e valorização do conteúdo postado.
Em postura radicalmente oposta, despreza-se o colega ao lado, por mais interessante e conectada que sua postagem seja com o tema do momento, porque ele não tem seguidores suficientes: dali não há nada a tomar emprestado. O alpinista de rede só escala na direção de quem já está no topo.
René Girard, antropólogo e filósofo francês, professor emérito de Literatura Francesa na Universidade Stanford, oferece-nos a primeira chave para entender este comportamento e por que o alvo das nossas manifestações nas redes sociais precisa ser alguém de grande destaque.
Para ele, não desejamos os objetos por suas qualidades intrínsecas: desejamos porque outra pessoa, o modelo, já os desejou ou já os validou antes de nós.
O desejo é sempre triangular, envolvendo o sujeito, o objeto e o modelo que aponta o objeto como desejável.
No caso Machado e Bosco, o objeto em disputa não é o livro nem a música, é o prestígio e a atenção que a audiência de dois nomes consagrados representa. Quem ataca não reage espontaneamente ao conteúdo da obra; imita um movimento coletivo que já sinalizou que ali havia algo a se indignar, na esperança de repartir atenção.
Esse comportamento tem nome próprio na Psicologia Social, cunhado por Robert Cialdini, professor no Departamento de Psicologia da Universidade Estadual do Arizona, descreveu, em estudos de campo de 1976, o que chamou de basking in reflected glory (BIRGing), que poderíamos traduzir por um “bronzear-se ao sol da glória alheia”, um “desfrutar da fama do outro”.
Ele trouxe um exemplo interessante desta prática comportamental: torcedores usavam mais a palavra “nós” ao descrever o time depois de uma vitória e “eles” depois de uma derrota, além de vestirem a camisa do time com mais frequência nos dias em que o time ganhava o jogo. É a tendência de se associar publicamente a fontes de prestígio para tomar emprestado, por proximidade, parte daquele brilho, sem nenhum mérito direto na conquista alheia.
Formalizado com Kenneth Richardson em 1980, o conceito tem um oposto batizado de cutting off reflected failure (CORFing), algo como a “eliminação de falhas refletidas” que possam macular quem delas se aproxima, o que significa optar pelo distanciamento público de fontes malvistas ou fracassadas, com o propósito de proteger a própria imagem.
Nas redes, comentar em perfis com milhares de seguidores é a mesma camisa vestida no dia em que o time ganha o jogo; comentar a postagem de “um ninguém” com mil seguidores é rebaixar o escore do seu latifúndio e jogar holofotes em quem não “trabalhou” duro para conquistar o próprio.
Esta indiferença, inclusive em face do trabalho de divulgação de colegas, fica melhor explicitada por outra tese: a de capital simbólico, de Pierre Bourdieu.
Investir atenção em quem não tem capital de visibilidade a oferecer não rende retorno, e por esta simples razão nega-se a fazê-lo, negando amplificação a um capital simbólico desprezível.
Não é o princípio moral da reciprocidade e nem o mérito do trabalho alheio que pautam as relações para os alpinistas de redes: o retorno é o verdadeiro critério que define uma interação como herança considerável ou codicilo rejeitado.
Há ainda uma outra explicação que pode ser tomada de empréstimo para entender o “alpinismo de rede” ou “cyberalpinismo”, trazida pelo sociólogo Robert King Merton, professor na Universidade Columbia.
Ele cunhou, em 1968, a expressão “Efeito Mateus”, em referência à passagem do Evangelho de Mateus segundo a qual será dado sempre mais a quem já tem muito e serão retiradas até migalhas daqueles que têm pouco.
Merton observou o padrão na própria ciência: pesquisadores já renomados recebem crédito desproporcional por descobertas, mesmo quando colaboradores menos conhecidos fizeram trabalho equivalente ou maior.
A vantagem inicial, por menor que seja, retroalimenta-se e cresce, enquanto a desvantagem inicial tende a se tornar ainda pior. Qualquer intelectual celebrizado atualmente tende a não dialogar com aqueles que ruminam o “arroz-com-feijão” cotidiano da produção acadêmica. Experimente tentar estabelecer contato com um badalado na mídia e verá.
Décadas depois de Merton tratar do Efeito Mateus, os físicos Albert-László Barabási e Réka Albert formalizaram matematicamente o mesmo princípio aplicado às redes, com o modelo de preferential attachment: perfis, sites ou qualquer outro ponto de uma rede que já tem muitas conexões atrai, de forma desproporcional, ainda mais conexões novas, uma espécie de “ricos ficam mais ricos” da conectividade.
Veja que a tese sociológica é confirmada por um modelo matemático que analisa estruturalmente o funcionalmente de redes reais. Ambos explicam por que a cadeia alimentar da visibilidade tende a se acentuar sozinha com o tempo: não é acidente de comportamento individual, mas uma propriedade que caracteriza a própria topologia da rede.
Fica então a pergunta que interessa de fato: interage-se para construir algo em comum, ou para ser visto ao lado de quem já tem plateia?
A indignação que circula nas redes contra figuras públicas talvez diga menos sobre o erro alheio do que sobre o prestígio do denunciado e dá carona que o denunciante pode pegar rumo ao topo da vida virtual.
E o silêncio em relação a um bom interlocutor em potencial, mas sem audiência para emprestar, talvez nos provoque a refletir sobre a diferença entre produção de conhecimento fraterna e capitalização do conhecimento segundo as novas engrenagens do capitalismo dadocêntrico.
*Mariah Brochado é professora Titular de Filosofia da Tecnologia e Filosofia do Direito na Faculdade de Direito da UFMG

