Créditos: Magnific
19-07-2026 às 13h00
Rogério Reis Devisate*
Ignorar os sinais custa caro. Seja no trânsito, seja na política internacional, a falta de
percepção dos movimentos aumenta os riscos e reduz a capacidade de reação. Em um mundo
marcado pelo acirramento das disputas econômicas e por diferentes modelos de
desenvolvimento, o Brasil precisa prestigiar a estratégia, o planejamento e a defesa dos
interesses do seu povo e da Nação — acima de posicionamentos pessoais ou dogmas
ideológicos.
Existe uma insistência preocupante na forma como o Brasil interpreta os movimentos
do comércio internacional. Diante de tarifas, barreiras, restrições sanitárias ou mudanças
regulatórias impostas por outros países, muitas vezes a primeira reação é enxergar
perseguição, retaliação política ou motivação ideológica, até sustentando que nossa soberania
estaria sendo questionada. Esta leitura é insuficiente, imediatista e considera apenas uma
parte do fenômeno, deixando de lado outros elementos essenciais da realidade internacional.
O mundo atravessa um período de forte acirramento político, com disputas cada vez
mais intensas entre diferentes visões de Estado, economia e sociedade. Isso ocorre nos
Estados Unidos, na Europa, na Ásia e na América Latina. Governos mudam, partidos se
alternam na gestão e modelos políticos ganham ou perdem espaço. Mas as nações continuam,
acima, além e apesar dessas mudanças, a defender seus mercados, empregos, empresas e
segurança econômica.
Por isso, mais importante do que discutir rótulos ideológicos é discutir gestão. Uma
nação precisa ser conduzida com base na defesa soberana dos interesses legítimos do seu
povo e isto só se mede pelos resultados concretos.
O comércio internacional nunca foi apenas uma relação de compra e venda. Ele é
também uma arena de competição, estratégia e defesa dos interesses nacionais. É verdade que
a globalização transformou essa dinâmica, ampliando mercados, integrando cadeias
produtivas e acelerando o intercâmbio entre países, o que nunca significou o desaparecimento
do protecionismo, que hoje emerge em tarifas, barreiras sanitárias, exigências ambientais,
regras técnicas e subsídios. Por isso, interpretar as medidas adotadas pelos Estados Unidos e pela China ou as restrições europeias às nossas carnes como simples perseguição não traduz o
contexto completo.
Esse argumento simplificador perde ainda mais força quando observamos que não
apenas os Estados Unidos, frequentemente apontados como exemplo de protecionismo, mas
também a China e a Europa utilizam instrumentos de defesa econômica. Talvez a diferença
esteja mais na forma como determinados fatos são percebidos e comunicados publicamente
do que propriamente no conteúdo das medidas adotadas.
Nesta discussão, é importante lembrar que o Brasil também já utilizou instrumentos
semelhantes. A história do café é um exemplo clássico, produto que, durante décadas, foi
uma das principais riquezas brasileiras e, quando a produção aumentou e os preços
internacionais sofreram forte queda, o país adotou políticas para defender o setor, com o
governo comprando estoques, regulando a oferta e buscando sustentar os preços
internacionais. Era uma decisão de política econômica orientada pela defesa de um interesse
estratégico nacional.
Os países costumam adotar tarifas para proteger sua indústria, criar incentivos para
estimular investimentos e utilizar políticas públicas para fortalecer setores considerados
relevantes. É o normal. As guerras fiscais entre estados brasileiros também são bons
exemplos. Durante anos, estados disputaram investimentos oferecendo redução ou isenção de
impostos para atrair empresas e empregos. O Rio de Janeiro utilizou incentivos para atrair a
fábrica da Volkswagen Caminhões e Ônibus em Resende. Paraná e estados do Nordeste
também adotaram políticas semelhantes para receber montadoras e indústrias.
Portanto, não faz sentido tratar o protecionismo como uma prática exclusiva de outros
países ou enxergar hostilidade além dos propósitos comerciais. Todos os governos, em maior
ou menor grau, procuram defender seus interesses. A questão fundamental é saber se o Brasil
está preparado para fazer isso com planejamento e estratégia, pois o improviso e o acaso não
são bons conselheiros em um ambiente internacional cada vez mais complexo.
O sociólogo alemão Niklas Luhmann, ao estudar a complexidade dos sistemas sociais,
chamou a atenção para os riscos sistêmicos: situações em que alterações aparentemente
pontuais podem produzir consequências amplificadas e difíceis de controlar.
A economia global funciona exatamente dessa maneira. Uma barreira comercial
contra a carne brasileira não atinge apenas o exportador, pois afeta uma cadeia que envolve
produtores, frigoríficos, armazéns, transportadores, fornecedores, trabalhadores, municípios
dependentes da atividade e a própria arrecadação.
Uma decisão tomada fora do país pode causar impactos de médio e longo prazo em
empresas, empregos, investimentos e cadeias produtivas inteiras. Por isso, planejamento é
essencial e uma nação soberana não pode depender apenas da reação quando o problema
aparece. Precisa antecipar movimentos, acompanhar tendências, fortalecer sua diplomacia
comercial e construir alternativas.
O Brasil precisa reduzir vulnerabilidades e melhorar sua competitividade interna.
Nenhuma política externa será suficientemente forte se a economia doméstica continuar
enfrentando limitações estruturais. Também precisamos superar a ideia de que toda discussão
econômica deve ser aprisionada pela polarização política. Esquerda e direita fazem parte da
democracia e o debate de ideias é, aliás, necessário e legítimo. Mas acima de qualquer dogma
deve estar o interesse nacional. O papel de uma boa gestão pública é entregar resultados: mais
empregos, mais produtividade, mais segurança econômica e melhores oportunidades para a
população. O país sempre deve estar em primeiro lugar — como princípio fundamental e
pedra angular de qualquer movimento.
Sun Tzu já ensinava que a preparação antecede a vitória. Carl von Clausewitz
demonstrava que as disputas entre os Estados possuem várias dimensões. Neste século, os
conflitos não acontecem apenas nos campos militares que, além dos custos humanos,
representam enormes impactos econômicos e fiscais para os países envolvidos. A competição
entre países também ocorre nos mercados, na tecnologia, na energia, nos recursos naturais e
nas cadeias produtivas. A guerra comercial é uma dessas dimensões. O Brasil não precisa
escolher entre cooperação internacional e defesa dos seus interesses, como se fossem
alternativas excludentes. Precisa compreender que ambas caminham juntas. Ignorar sinais
custa caro.
Quando falta planejamento, o improviso ocupa espaço. Quando falta estratégia, o
risco aumenta. E quando sistemas complexos são enxergados de forma simplista, os prejuízos
podem atingir toda a sociedade. O desafio brasileiro é abandonar a postura de apenas reagir e
construir uma cultura permanente de antecipação. Na economia internacional, quem apenas
reage às crises quase sempre chega atrasado. As nações que prosperam são aquelas que
conseguem antecipar movimentos, transformar riscos em oportunidades e fazer da estratégia
uma política permanente de Estado.

