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06-06-2026 às 13h34
Rogério Reis Devisate*
As famílias estão endividadas. São 80,4% de lares endividados, número muito próximo do percentual de 90% da perda do poder de compra da nossa moeda, o Real, desde a sua criação, em 1994.
Isso significa que cem reais em 1994 equivalem hoje a pouco mais de dez reais. A inflação mensal pode parecer pequena, mas a soma contínua gerou um acumulado de 686,64% (G1, 13.4.2025). Para que o povo entenda o que está acontecendo, significa dizer que para se comprar as mesmas mercadorias que se comprava com R$ 100,00 em 1994 seria necessário gastar, agora, R$ 808,02 (CACB, 01.7.2025).
De modo singelo e despretensioso, podemos dizer que chegou às famílias o resultado do descuido com o planejamento do país e com a nossa economia, nesses longos 30 anos.
A dívida externa aumentou e o nosso parque industrial vem retrocedendo, encolhendo, num processo singelamente definido como desindustrialização. Aliás, o Paraguai vai muito bem e tem recebido algumas empresas lá, pois praticam impostos e encargos de 12% enquanto nós os temos na faixa de 80%, um dos motivos pelos quais várias das nossas empresas passaram a produzir no Paraguai, como JBS, Karsten e Lupo. O leitor imagina o impacto para os empregos e salários, a arrecadação e as cadeias produtivas – lá e aqui? Quem perde e quem ganha?
Ao mesmo tempo, os gastos públicos triplicaram nesses anos, a nossa inflação foi maior do que a de muitos países desenvolvidos, saímos da 8ª economia do mundo para a 11ª, sendo ultrapassados no ano passado pela Rússia – que está há anos em guerra com a Ucrânia – e a violência está em níveis assustadores, pois somos o país do mundo que tem o maior número de homicídios absolutos (Exame, 10.6.2024).
A soma desses ingredientes cria uma verdadeira bomba atômica, que cobrará a conta nos anos vindouros. E essa bomba explode no colo de quem? Da população brasileira.
Não se trata de análise por posição política à esquerda ou direita e sim do que nos mostram os fatos ocorridos e os dados disponíveis e, como dizia o historiador Moniz Bandeira, no livro A desordem mundial, não há na história “ideais, mas somente fatos, nem verdades, mas somente fatos, não há razão nem honestidade, nem equidade etc, mas somente fatos […] E palavras não mudam a realidade dos fatos”.
Paralelamente, a chegada de indústrias chinesas no Brasil se faz acompanhar dos seus próprios trabalhadores. Por mês, chegam mais de mil pessoas da China para trabalhar aqui. Não é difícil perceber que isso significa que os trabalhadores brasileiros estão deixando de ter essas vagas para ocupar.
Aliás, parece que definitivamente afastaremos os nossos trabalhadores dessas opções de emprego, na medida em que aprovarmos o fim da jornada 6×1, pois nas empresas chinesas as jornadas diárias de trabalho são de 12 horas, seguindo o padrão “996” expediente das 9h às 21h, seis dias por semana” (clickpetroleoegás, 11.8.2025).
Na prática, enquanto descansaremos, eles trabalharão pesado e não seria impróprio imaginar que, no futuro, talvez os invejemos, não só pelo que poderão individualmente comprar, mas pelo aumento da riqueza do seu próprio país, que repercutirá em mais investimento em educação, cultura, tecnologia e, assim, na melhor formação dos seus cidadãos que cada vez mais dominarão os melhores postos de trabalho e ditarão como as coisas funcionarão no mundo.
Assusta – muito – pensar que há 50 anos vivemos o milagre econômico e que estávamos melhor do que eles! Como eles nos ultrapassaram? Eles hoje são a maior economia do mundo e nós estamos ficando para trás – éramos a 8ª e, agora, somos a 11ª. O mérito é só deles ou a culpa também é nossa? Fomos autofágicos, atirando nos nossos próprios pés, com políticas equivocadas e pouco investimento em educação, tecnologia e indústrias.
Enquanto isso tudo ocorre, o povo tá se distraindo e já se preparando para se distrair na Copa do Mundo, que está por começar, enquanto a inflação segue corroendo o nosso poder de compra e as famílias estão endividadas – e muito – com o governo fazendo uma 2ª rodada de negociações em busca de quitação das dívidas, no Desenrola. A medida significa que, desde o primeiro projeto de quitação de dívidas, o endividamento continuou e continua, em meio a notícias de que “Dívidas em recorde assombram as famílias brasileiras” (Agência Senado, Senado Federal, 29.5.2026).
Vivemos numa economia perigosa, com juros de 15% há tanto tempo que o país não aguenta. Os juros são tão altos que permite que investidores estrangeiros peguem dinheiro emprestado nos seus países, com juros menores, para investir aqui – e ainda sair com lucro. Estamos remunerando investidores estrangeiros à custa do brasileiro endividado… e afastando a indústria, que gera empregos e riqueza, por causa desses mesmos juros altos. Parece até que a massa não vê ou não quer ver ou já chutou o balde, afinal tudo muda para que nada se modifique de verdade.
Não sei bem o motivo, mas os pensamentos me trouxeram versos do poeta Mário Quintana: “Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho/Eles passarão… Eu passarinho!”

