Principais movimentos de Lula e Flávio em BH e Rio - créditos: divulgação
24-10-2026 às 17h00
Samuel Arruda*
A véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi marcada, neste sábado (24), por uma disputa intensa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Além dos últimos atos públicos de campanha, a repercussão do debate realizado na noite de sexta-feira (23), na TV Globo, continuou ocupando espaço nas redes sociais e nas buscas dos brasileiros na internet.
Com a votação marcada para domingo (25), os dois candidatos concentraram esforços para mobilizar apoiadores e conquistar eleitores indecisos. As agendas envolveram caminhadas e manifestações de rua, enquanto as equipes de campanha exploraram os principais momentos do debate para divulgar mensagens favoráveis a seus candidatos.
Lula aposta em caminhadas no Rio e em São Paulo
O presidente Lula programou uma caminhada em Copacabana, no Rio de Janeiro, às 10h, e o último grande ato de campanha na Avenida Paulista, em São Paulo, às 16h. A estratégia buscou demonstrar mobilização popular nos dois principais centros urbanos do país e reforçar as mensagens de sua campanha.
No debate da Globo, Lula concentrou parte de sua argumentação na defesa das políticas sociais, do salário mínimo e das ações de seu governo para enfrentar a pobreza e o endividamento das famílias. Também questionou as posições anteriores de Flávio Bolsonaro sobre o Bolsa Família e a licença-maternidade.
Outro tema de destaque foi a saúde pública. O presidente cobrou explicações sobre o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) e recuperou críticas à condução da pandemia de Covid-19 durante o governo de Jair Bolsonaro.
Nas redes sociais, a participação de Lula gerou discussões tanto sobre seus argumentos políticos quanto sobre suas respostas e expressões durante o programa. A forma como pronunciou a palavra Google, reproduzida por internautas como “Gugo”, tornou-se um dos memes do debate.
Flávio Bolsonaro mobiliza apoiadores em Belo Horizonte e no Rio
O senador Flávio Bolsonaro iniciou o sábado em Belo Horizonte, onde participou, às 9h, do chamado “Bloco do 22”, na Praça da Liberdade. A agenda previa ainda um ato na Praça do Ó, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, às 14h.
A mobilização em Minas Gerais colocou a capital mineira no centro da estratégia de encerramento da campanha do candidato do PL. O uso de um formato de manifestação inspirado em bloco de rua também se insere em uma estratégia de comunicação que combina presença física, imagens de apoiadores e conteúdo de rápida circulação nas plataformas digitais.
No debate, Flávio enfatizou críticas ao custo de vida, ao endividamento das famílias e às contas públicas. Defendeu que a Caixa Econômica Federal participe de iniciativas para renegociar dívidas dos consumidores e prometeu ampliar os investimentos na saúde pública.
O senador também tentou responsabilizar o governo federal pelos problemas econômicos e de segurança pública. Em diferentes momentos, entretanto, o debate deixou a discussão de propostas e passou a incluir acusações pessoais entre os dois candidatos.
Caso Ana Clara provoca a maior repercussão digital
Um dos momentos de maior impacto do debate foi a discussão envolvendo Ana Clara, menina de cinco anos morta após ser atingida por disparos de fuzil. Lula questionou Flávio sobre sua atuação anterior como advogado de um policial acusado no caso. A mãe da criança estava presente no estúdio, e sua reação durante o confronto também circulou amplamente nas redes.
Levantamento do Instituto Democracia em Xeque, divulgado pelo UOL neste sábado, apontou que o episódio gerou aproximadamente 401,3 mil publicações e 4,9 milhões de interações nas plataformas analisadas. O vídeo da reação da mãe da menina, divulgado pelo Jornal O Globo, ultrapassou 509 mil interações.
O levantamento contabilizou, no conjunto do debate, cerca de 2,9 milhões de publicações e 25,5 milhões de interações. Os números indicam a dimensão da repercussão digital, embora não permitam concluir, isoladamente, que um candidato tenha conquistado mais votos ou convencido mais eleitores.
A discussão provocou reações distintas. Críticos de Flávio destacaram a cobrança de Lula sobre o caso, enquanto apoiadores do senador defenderam sua atuação e contestaram a forma como o episódio foi apresentado. A repercussão também levantou questionamentos sobre segurança pública, responsabilidade política e o uso de casos de grande comoção durante campanhas eleitorais.
“Nove dedos” e “Gugo” viram assuntos de busca
Outro trecho que ganhou grande visibilidade ocorreu quando Flávio afirmou que Lula dava com uma mão e tirava com “nove dedos”, em referência à perda do dedo mínimo da mão esquerda do presidente em um acidente de trabalho. Lula reagiu e pediu desculpas pela ofensa; Flávio fez um pedido de desculpas, mas voltou a criticar o governo.
Segundo dados do Google Trends reunidos pela Folha de S.Paulo, as buscas por “checagem de fatos debate” e “quem ganhou o debate da Globo” ultrapassaram um milhão de pesquisas cada nas horas posteriores à transmissão.
A expressão “Gugo”, associada à pronúncia de Google feita por Lula, também virou meme e superou 50 mil pesquisas, de acordo com o mesmo levantamento. O episódio mostra como uma fala aparentemente secundária pode ganhar vida própria nas redes, deslocando parte da atenção dos temas programáticos para a disputa por frases, vídeos e montagens.
As discussões sobre salário mínimo e Bolsa Família também tiveram destaque, enquanto as perguntas sobre gastos com cartões corporativos, a Constituição de 1988 e a história do acidente de trabalho de Lula mobilizaram buscas adicionais.
Economia, saúde e segurança ficaram no centro do confronto
Apesar da repercussão dos episódios pessoais, o debate também abordou questões concretas que afetam o cotidiano dos brasileiros.
Na economia, os candidatos divergiram sobre a responsabilidade pelo endividamento das famílias, o preço dos alimentos, a política de juros e o equilíbrio das contas públicas. Lula defendeu as medidas de seu governo e relacionou a melhoria das condições de vida ao crescimento econômico. Flávio, por sua vez, criticou os resultados da administração petista e apresentou propostas de renegociação de dívidas.
Na área social, o Bolsa Família e o salário mínimo foram usados pelos dois lados para defender visões diferentes sobre o papel do Estado e os resultados das políticas públicas. Na saúde, o financiamento do SUS e a ampliação dos atendimentos também estiveram em pauta.
A segurança pública, por sua vez, apareceu tanto nas discussões sobre o combate ao crime quanto no confronto relacionado ao caso Ana Clara. O tema tem peso particular na reta final da campanha, pois envolve a percepção de segurança da população, a atuação policial e as responsabilidades dos governos.
Redes sociais não definem, sozinhas, o resultado eleitoral
A movimentação digital deste sábado evidencia que o debate continuou produzindo efeitos mesmo depois de encerrada a transmissão. Os candidatos e seus apoiadores passaram a disputar a interpretação dos principais momentos, transformando declarações em vídeos curtos, memes e argumentos para convencer eleitores.
Os dados de interação, contudo, precisam ser interpretados com cautela. Uma publicação pode gerar comentários favoráveis, críticas, ironias ou compartilhamentos motivados por indignação. Por isso, volume de visualizações e engajamento não equivale necessariamente a apoio eleitoral.
A disputa também não se resume a quem produziu a frase mais compartilhada. Para o eleitor, permanecem questões como renda, emprego, custo de vida, saúde, segurança, educação e capacidade de execução das propostas apresentadas.
O que esperar até a abertura das urnas
Com os últimos atos de campanha em andamento, Lula e Flávio Bolsonaro tentam consolidar suas mensagens e mobilizar apoiadores antes do encerramento do período permitido para manifestações eleitorais. O sábado representa a última oportunidade de grandes atos públicos antes da votação.
A repercussão do debate da Globo mostra que os episódios de maior carga emocional podem dominar as conversas digitais. Ainda assim, não há como afirmar, apenas com base nesses números, qual candidato converteu a exposição em intenção de voto.
A decisão final caberá aos eleitores neste domingo (25). Entre a mobilização nas ruas, as mensagens das campanhas e os conteúdos que viralizam nas redes, o desafio do eleitor é separar repercussão de resultado e confrontar as declarações dos candidatos com informações verificáveis e propostas concretas.
*Samuel arruda é jornalista e editor de política

