Flávio Bolsonaro e Lula se enfrentam pela última vez - créditos: divulgação
24-10-2026 às 08h40
Samuel Arruda*
A repercussão do debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite desta sexta-feira (23) pela TV Globo, indica uma mudança de tom em relação ao confronto anterior, na TV Bandeirantes. Desta vez, os candidatos dedicaram mais espaço à discussão de propostas, ao custo de vida, ao salário mínimo, à infraestrutura e às políticas sociais, embora também tenham recorrido a críticas mútuas.
O último debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), realizado na noite desta sexta-feira (23) pela TV Globo, terminou com os dois candidatos disputando a interpretação dos resultados de seus respectivos governos e tentando conquistar os eleitores que ainda não decidiram seu voto. O encontro ocorreu a dois dias do segundo turno, marcado para domingo (25), em um cenário de forte polarização e disputa apertada nas pesquisas eleitorais.
Diferentemente do confronto anterior, realizado pela TV Bandeirantes, o debate da Globo abriu mais espaço para a discussão de propostas e temas relacionados ao cotidiano da população. Os candidatos abordaram infraestrutura, salário mínimo, transporte público, desenvolvimento regional e políticas econômicas, embora as críticas pessoais e as divergências sobre os governos anteriores também tenham aparecido.
Lula defende o legado de seu governo
O presidente apostou na defesa das políticas sociais e dos resultados que atribui às administrações petistas. Ao abordar o salário mínimo, Lula argumentou que os reajustes concedidos durante os governos do PT contribuíram para a valorização dos rendimentos dos trabalhadores.
O candidato também defendeu os investimentos federais em rodovias, ferrovias, portos e hidrovias, citando obras que pretende concluir. Ao tratar de questões regionais, procurou questionar a atuação do governo de Jair Bolsonaro e destacar iniciativas de desenvolvimento econômico.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, contestou os resultados apresentados pelo presidente e insistiu em temas como custo de vida, inflação, endividamento das famílias e poder de compra. O senador também criticou a situação das contas públicas e questionou a capacidade do governo federal de conciliar programas sociais com equilíbrio fiscal.
Flávio apresenta críticas e promete investimentos
O senador do PL procurou associar a atual gestão federal às dificuldades econômicas enfrentadas por parte da população. Entre os assuntos explorados, estiveram o preço dos alimentos, os gastos públicos e a necessidade de ampliar a infraestrutura nacional.
Na discussão sobre transportes, Flávio manifestou apoio à gratuidade dos ônibus aos fins de semana, mas levantou questionamentos sobre o financiamento da medida e seus possíveis efeitos sobre os gastos públicos.
Na área de infraestrutura, prometeu ampliar a malha ferroviária brasileira e criticou a existência de obras paralisadas. Lula rebateu as críticas apresentando os investimentos de sua administração e defendendo a continuidade de projetos em andamento.
O debate também registrou divergências sobre a transposição do Rio São Francisco e sobre investimentos destinados às diferentes regiões do país. As discussões evidenciaram a disputa entre os candidatos para atribuir responsabilidades pelos problemas existentes e reivindicar os resultados das obras realizadas.
O que a imprensa está dizendo sobre o desempenho dos candidatos?
As primeiras análises publicadas após o debate apresentam interpretações distintas sobre a atuação dos dois candidatos, mas algumas avaliações destacam a mudança de comportamento em relação ao confronto anterior.
A revista Exame, por sua vez, destacou que o formato da Globo favoreceu uma discussão mais concentrada em propostas e no legado das administrações. A publicação chamou a atenção para as divergências sobre infraestrutura, salário mínimo, transporte público e desenvolvimento regional.
Já a Folha registrou que Flávio também conseguiu pressionar Lula ao abordar as contas públicas e a evolução da dívida. O episódio demonstra que o debate não se limitou à defesa dos resultados do governo: os dois candidatos tiveram de enfrentar questionamentos sobre pontos vulneráveis de suas respectivas estratégias.
E nas redes sociais, quem se destacou?
As redes sociais tendem a transformar os momentos mais incisivos dos debates em vídeos curtos, memes e publicações que circulam principalmente entre pessoas já identificadas com um dos candidatos.
Por isso, a quantidade de compartilhamentos, comentários ou visualizações de um trecho não significa, necessariamente, que seu autor tenha convencido mais eleitores. Uma fala pode ter grande repercussão por provocar indignação ou mobilizar apoiadores, sem alterar a opinião de quem ainda está indeciso.
Até o momento desta apuração, não há dados consolidados e independentes suficientes para afirmar qual candidato obteve maior repercussão positiva nas redes sociais após o encerramento do debate. Para chegar a uma conclusão desse tipo, seria necessário analisar o volume de menções, o sentimento predominante nas publicações, o alcance dos conteúdos e a evolução desses indicadores ao longo das horas seguintes.
É possível afirmar quem teve a melhor performance?
A repercussão inicial permite identificar avaliações favoráveis a Lula em análises publicadas por veículos como a Folha de S.Paulo, especialmente quanto à condução de determinados confrontos. Também permite reconhecer que Flávio conseguiu colocar questões econômicas e fiscais no centro da discussão. Entretanto, essas observações não equivalem a uma medição objetiva de qual candidato convenceu mais eleitores.
Uma avaliação mais completa depende de três fatores: a qualidade das respostas apresentadas, a capacidade de explicar propostas concretas e a repercussão efetiva entre os eleitores que ainda não definiram seu voto.
O debate terminou, mas seus efeitos políticos permanecem em aberto. A reação dos eleitores, os levantamentos de opinião divulgados após o encontro e a mobilização das campanhas nas últimas horas antes da votação ajudarão a esclarecer como o confronto foi recebido.
O desafio para os dois candidatos é transformar a exposição na televisão em confiança do eleitor. Mais do que os momentos de confronto, a decisão de parte do eleitorado poderá depender das respostas oferecidas sobre emprego, renda, segurança pública, inflação e a capacidade de governar o país nos próximos quatro anos.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de politica

