23-10-2026 às 11h36
Samuel Arruda*
O Brasil acompanha nesta sexta-feira (23) o último debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), transmitido pela TV Globo a partir das 21h20, após o Jornal Nacional. O encontro ocorre a dois dias do segundo turno e representa uma oportunidade para os candidatos esclarecerem suas propostas e responderem às dúvidas dos eleitores.
A expectativa é que o confronto ofereça mais conteúdo programático do que o debate realizado pela TV Band, no último domingo (18). Na ocasião, o embate foi marcado por acusações pessoais, provocações e questionamentos envolvendo familiares, enquanto temas essenciais para o cotidiano dos brasileiros ficaram em segundo plano. A dinâmica gerou críticas pela dificuldade de acompanhar uma discussão organizada sobre os rumos do país.
O problema não está no confronto entre adversários. Questionamentos firmes, cobranças e esclarecimentos sobre a conduta dos candidatos fazem parte do processo democrático. A questão é saber se essas discussões serão acompanhadas de respostas objetivas e de compromissos que possam ser cobrados pela sociedade.
O eleitor que acompanhar o debate espera compreender como cada candidato pretende enfrentar os problemas que afetam diretamente a vida da população. A inflação, o custo dos alimentos, o endividamento das famílias, a geração de empregos, os juros e o equilíbrio das contas públicas precisam ser tratados com explicações claras sobre prioridades, recursos e resultados esperados.
Na saúde, a discussão deve ir além de promessas genéricas. O acesso a consultas e exames, a redução das filas, a disponibilidade de medicamentos e o atendimento especializado são questões que exigem medidas concretas, prazos e capacidade de execução.
A segurança pública também deverá ocupar espaço relevante. O avanço das organizações criminosas, o tráfico de drogas, os homicídios e a atuação das facções exigem respostas sobre integração entre as forças policiais, inteligência, controle do sistema penitenciário e combate ao financiamento do crime organizado.
Nesse campo, será importante entender as diferenças entre as estratégias defendidas por Lula e Flávio Bolsonaro, assim como os mecanismos de financiamento e coordenação necessários para colocar cada proposta em prática.
Outro tema de interesse é a manutenção dos programas sociais e sua relação com o mercado de trabalho. O debate deve permitir que os candidatos expliquem como pretendem proteger as famílias de baixa renda, ampliar oportunidades de emprego e estimular a autonomia financeira de quem recebe benefícios.
Também merecem atenção as propostas para o salário mínimo, a valorização dos trabalhadores, o empreendedorismo, o endividamento dos pequenos negócios e a discussão sobre a jornada de trabalho. Mais do que apresentar medidas populares, os candidatos precisam esclarecer como pretendem financiá-las e quais efeitos esperam produzir sobre a economia.
A pergunta fundamental é simples: quais ações cada governo pretende adotar, quem será beneficiado, quanto elas custarão e de onde virão os recursos?
A TV Globo organizou o debate em quatro blocos, com três blocos de temas definidos e um de tema livre, além das considerações finais. O encontro será mediado pelo jornalista César Tralli. A emissora também informou que as declarações serão submetidas a checagem de fatos, com publicações nos canais jornalísticos durante o debate, embora não haja verificação ao vivo na própria transmissão televisiva.
A organização do cenário também procura evitar situações que desviem a atenção do conteúdo. Nos três primeiros blocos, o candidato com a palavra poderá circular pelo estúdio, enquanto o adversário deverá permanecer em seu púlpito. A regra difere da dinâmica da Band, na qual a movimentação dos candidatos contribuiu para momentos de provocação e disputa visual.
A checagem jornalística terá papel importante para que declarações, números e acusações sejam confrontados com informações documentadas. Ao público, cabe observar não apenas o que é dito, mas também se as respostas correspondem às perguntas e se os dados apresentados podem ser confirmados.
Em uma eleição presidencial, a desenvoltura diante das câmeras pode influenciar a percepção do público, mas não substitui a consistência de um programa de governo. Um candidato pode demonstrar habilidade no confronto verbal sem necessariamente esclarecer como pretende administrar o país.
Por isso, será importante observar se Lula e Flávio Bolsonaro conseguem apresentar prioridades, explicar suas propostas e responder diretamente às questões levantadas pelo adversário. Também será necessário distinguir compromissos efetivos de promessas sem detalhamento, além de avaliar a compatibilidade das medidas anunciadas com as atribuições da Presidência e a necessidade de aprovação do Congresso.
O debate é uma oportunidade para os dois candidatos apresentarem suas visões para o Brasil e para a população avaliar as diferenças entre elas. Não cabe ao confronto substituir a leitura dos programas de governo nem dispensar a verificação das informações, mas oferecer elementos adicionais para uma escolha consciente.
Com o segundo turno marcado para domingo (25), o debate desta sexta-feira será o último confronto direto entre os dois candidatos antes da votação.
A expectativa dos eleitores é legítima: menos tempo desperdiçado em ataques e mais espaço para discutir soluções. Corrupção, investigações e eventuais irregularidades devem ser esclarecidas quando pertinentes, mas não podem servir de justificativa para deixar em segundo plano os problemas cotidianos de milhões de brasileiros.
Ao final, o principal critério não deveria ser quem elevou mais o tom ou conseguiu constranger o adversário, mas quais informações foram apresentadas, quais perguntas ficaram sem resposta e quais propostas podem ser examinadas e cobradas pela sociedade.
O Brasil precisa de um debate que respeite a inteligência do eleitor e trate a disputa presidencial como aquilo que ela é: uma escolha sobre os rumos da economia, dos serviços públicos, da segurança e das oportunidades para as próximas gerações.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

