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23-10-2026 às 12h23
Samuel Arruda*
O PSDB, que durante décadas ocupou posição central na política brasileira, vive uma das fases mais delicadas de sua história. A legenda que levou Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República, governou São Paulo por sucessivos mandatos e reuniu algumas das principais lideranças do país perdeu espaço nas urnas, viu seus quadros migrarem para outras siglas e passou a enfrentar dificuldades para se manter competitiva em disputas majoritárias e proporcionais.
A crise tucana não pode ser explicada apenas pela ascensão do PT e do bolsonarismo. Ela também reflete o desgaste de lideranças tradicionais, a dificuldade de renovar seus quadros, as divisões internas e a perda de identidade diante de um eleitorado cada vez mais polarizado. O desafio atual é transformar o patrimônio político acumulado em uma estrutura eleitoral capaz de disputar novamente o protagonismo nacional.
Minas Gerais é um retrato importante dessa trajetória. O estado, que já teve no PSDB uma das forças mais influentes de sua política, tornou-se palco de uma discussão decisiva para o futuro da legenda: como financiar candidaturas competitivas, renovar seus representantes e evitar que a sobrevivência parlamentar dependa de poucos nomes?
Ciro Gomes e Aécio Neves: duas apostas para reconstruir a legenda
A tentativa de recuperação nacional ganhou novos contornos com a volta de Ciro Gomes ao PSDB. Ex-governador do Ceará e ex-ministro, Ciro passou a ser uma das principais apostas tucanas para recuperar visibilidade nacional. Em abril de 2026, o presidente nacional da legenda, Aécio Neves, chegou a convidá-lo para disputar a Presidência da República. No mês seguinte, entretanto, Ciro anunciou que pretendia concorrer novamente ao Governo do Ceará.
A movimentação demonstra a tentativa de reunir nomes conhecidos em torno de um projeto político capaz de romper a polarização entre PT e bolsonarismo. Mas também evidencia uma dificuldade: o PSDB precisa conciliar projetos estaduais, alianças regionais e uma estratégia nacional coerente.
Para as eleições de 2026, o partido apresentou pré-candidatos a governos estaduais como Marconi Perillo, em Goiás, João Henrique Caldas, em Alagoas, Tião Bocalom, no Acre, e Paulo Serra, em São Paulo, entre outros nomes. Aécio também entrou na disputa por uma vaga no Senado por Minas Gerais, buscando recuperar espaço político em seu estado de origem.
A candidatura de Aécio tem significado especial para os tucanos mineiros. Governador por dois mandatos e figura central da política estadual durante anos, ele representa uma tentativa de reativar uma marca que perdeu parte de sua influência. Sua trajetória, contudo, também está associada ao período em que o partido deixou de apresentar a mesma capacidade de mobilização eleitoral que possuía no auge de sua força.
O dinheiro dos partidos e o desafio de transformar recursos em votos e a perda de protagonismo do PSDB ocorre apesar de a legenda continuar tendo acesso a recursos públicos destinados à manutenção partidária e ao financiamento eleitoral. Os dois mecanismos, porém, precisam ser diferenciados.
O Fundo Partidário financia despesas permanentes e atividades dos partidos, enquanto o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) é destinado às campanhas eleitorais. Os valores são distribuídos segundo regras legais, mas cabe às direções partidárias definir como repartir os recursos entre candidaturas, respeitadas as exigências legais.
Em 2025, o PSDB declarou cerca de R$ 28,32 milhões em receitas relacionadas ao Fundo Partidário, segundo levantamento baseado nos dados da Justiça Eleitoral. Para as eleições de 2026, a legenda aparece com uma previsão de aproximadamente R$ 147,9 milhões do fundo eleitoral. Os valores são de exercícios e finalidades diferentes e, portanto, não devem ser somados como se representassem uma única receita disponível para qualquer finalidade.
O volume de recursos torna inevitável o debate sobre as escolhas das direções partidárias. A distribuição do dinheiro público de campanha pode privilegiar candidatos com maior potencial eleitoral, nomes conhecidos ou disputas consideradas estratégicas. A questão política é saber se essa concentração fortalece o conjunto da legenda ou se termina por enfraquecer candidaturas que precisariam de apoio para crescer.
Em Minas Gerais, os números de 2022 oferecem um exemplo concreto dessa discussão. Naquele pleito, o PSDB destinou aproximadamente R$ 3,4 milhões à chapa de candidatos a deputado federal, enquanto a campanha ao governo estadual recebeu cerca de R$ 4,6 milhões. A chapa tucana de deputados estaduais contou com aproximadamente R$ 7,3 milhões.
A questão não é simplesmente quanto dinheiro cada candidato recebeu, mas qual estratégia foi adotada para transformar esses recursos em votos, ampliar a votação da legenda e garantir representação parlamentar.
O caso de João Leite, com R$665 mil e votação insuficiente para a Câmara, ajuda a ilustrar o desafio enfrentado pelo PSDB mineiro para converter investimento financeiro em representação parlamentar.
É importante distinguir as duas últimas eleições. Em 2022, quando concorreu a deputado estadual, João Leite declarou receitas de aproximadamente R$ 621,8 mil e recebeu 39.835 votos, mas não foi eleito. Desse total de receitas, R$ 395.841 vieram do Fundo Especial de Financiamento de Campanha.
Em 2026, já candidato a deputado federal, João Leite recebeu R$ 665 mil em recursos partidários, sendo R$ 365 mil da direção nacional do PSDB e R$ 300 mil do diretório mineiro. Sua votação total foi de 12.771 votos.
O resultado de 2026 evidencia a dificuldade de transformar um nome tradicional, com trajetória conhecida na política mineira e no futebol, em uma candidatura competitiva para a Câmara dos Deputados. O desempenho também levanta uma questão legítima sobre a eficiência dos investimentos eleitorais, embora o resultado de uma campanha não possa ser atribuído exclusivamente ao volume de recursos recebidos.
O quadro de Minas Gerais fica ainda mais expressivo quando se observa o desempenho de Paulo Abi-Ackel, considerado um gigante que resiste com mais um mandato em meio ao encolhimento tucano. Em 2022, recebeu 105.383 votos e foi reeleito deputado federal. Naquela campanha, declarou receitas de aproximadamente R$ 3,19 milhões, das quais R$ 2,4 milhões vieram do fundo eleitoral.
Em 2026, Abi-Ackel foi novamente eleito, mas com 68.795 votos, uma queda de 36.588 votos em relação ao pleito anterior, equivalente a aproximadamente 34,7%. Ele permaneceu como o único deputado federal eleito pelo PSDB em Minas Gerais.
O encolhimento eleitoral em números
Votos em 2022
105.383
Votos em 2026
68.795
Redução absoluta
36.588
Queda percentual
34,7%
Fonte: resultados eleitorais divulgados pelo TSE e compilados pela imprensa. Cálculo percentual feito a partir das votações informadas.
A eleição de apenas um deputado federal tucano em Minas Gerais mostra a dimensão do desafio. Mesmo com a permanência de um parlamentar experiente, a legenda não conseguiu construir uma bancada estadual mais ampla na Câmara. A situação é particularmente preocupante para um partido que já teve presença expressiva no Congresso e ocupou posições centrais no governo federal.
O resultado de Abi-Ackel não significa, por si só, que a distribuição de recursos tenha sido a causa da redução de votos. Para sustentar essa conclusão, seria necessário comparar os repasses recebidos por todos os candidatos, suas despesas, as votações e a estratégia adotada pela direção partidária. Ainda assim, o contraste entre a votação de 2022 e a de 2026 revela uma perda eleitoral que merece ser examinada pela própria legenda.
A crise de representação e a necessidade de renovação
O PSDB enfrenta uma crise de representação e necessidade de renovação que vai além da arrecadação. Recursos financeiros são importantes, mas não substituem a presença nos municípios, a formação de novas lideranças, a construção de alianças e a identificação de propostas capazes de dialogar com as preocupações atuais do eleitorado.
A distribuição desigual do financiamento eleitoral é uma questão recorrente no sistema partidário brasileiro. Em 2022, por exemplo, levantamento da CNN Brasil apontou que aproximadamente um terço das candidaturas não havia recebido recursos partidários até o período analisado, enquanto nomes considerados competitivos concentravam parcelas significativas do financiamento de campanha.
No caso tucano, o dilema é ainda mais sensível: quando uma legenda perde força eleitoral, torna-se tentador concentrar recursos nos nomes considerados mais seguros. Mas, se essa estratégia reduz as condições de competitividade dos demais candidatos, pode contribuir para perpetuar a dependência de poucos parlamentares e dificultar a renovação da bancada.
Em Minas Gerais, o debate envolve justamente esse equilíbrio entre financiar nomes tradicionais, apostar em novas lideranças e construir uma chapa proporcional capaz de ampliar a representação partidária. O desempenho de João Leite e a redução da votação de Paulo Abi-Ackel são indicadores diferentes, mas ajudam a expor o tamanho do desafio.
O futuro tucano dependerá de mais do que candidaturas conhecidas
O futuro tucano dependerá de mais do que candidaturas conhecidas e nesse cenário, Aécio Neves, Ciro Gomes e outras lideranças podem oferecer visibilidade ao PSDB. A presença desses nomes nas disputas de 2026 demonstra que a legenda ainda dispõe de capital político e de quadros com experiência administrativa e eleitoral.
A questão decisiva, entretanto, é se o partido conseguirá transformar essa visibilidade em um projeto nacional consistente e em estruturas estaduais capazes de sustentar candidaturas competitivas. Não basta reunir nomes conhecidos em torno de uma sigla; é necessário construir uma base eleitoral que sobreviva às mudanças de liderança e às disputas conjunturais.
O PSDB já foi protagonista da política brasileira. Agora, enfrenta o desafio de provar que ainda pode ser mais do que uma legenda dependente de figuras históricas e de mandatos isolados. Em Minas Gerais, a eleição de apenas um deputado federal, somada à queda de votação de um parlamentar experiente, torna esse desafio particularmente evidente.
A derrocada tucana, portanto, não se resume à perda de cargos. É uma crise de identidade, estratégia e representação. A recuperação dependerá não apenas do dinheiro disponível nos fundos públicos, mas de como ele será utilizado, de quais lideranças serão formadas e da capacidade do partido de voltar a apresentar ao eleitorado uma alternativa política reconhecível e competitiva.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de política

