Créditos: Freepik
06-09-2026 às 08h37
Mauro Bomfim*
A última impressão: Na velocidade supersônica em que as reputações pessoais sucumbem nas mídias digitais, o lugar comum vem logo à mente: a última impressão é a que fica. Existe até o esgotamento do repertório de batismo de nomes para tantas e tantas operações da Polícia Federal. São os escândalos diários que estouram feito milho de pipoca na panela. Pelo andar da carruagem, e considerada a atávica “memória de geleia” do brasileiro, até o dia 04 de outubro, que é o domingo da eleição, vai lucrar mesmo é quem não figurar no último escândalo do dia ou da noite.
O errado que é o certo: Já dizia o Kafunga, velho comentarista esportivo da TV Itacolomi de Belo Horizonte: “Aqui neste país, o errado é o certo”. É o tal negócio: tudo que começa errado, pode acabar certo, se arrumar o erro no começo. E tudo que continua errado está fadado ao fracasso. O mais incrível é que atualmente o difícil em matéria de Direito é fazer o fácil. No Supremo e no Judiciário de um modo geral, raras exceções à parte. As normas da Lei Maior estão aí, límpidas, cristalinas, para muitos tão reluzentes como o espelho d’agua do lago de Narciso. Está dito e está escrito na Carta Constitucional: a polícia judiciária investiga, o Ministério Público denuncia, o Judiciário julga. Simples assim. “Elementar meu caro, Watson”, já dizia Sir Arthur Conan Doyle pela boca do detetive Sherlock.
Balaio de caranguejos: Brasília – talvez não imaginariam Juscelino, Israel, Niemeyer e Lúcio Costa – acabou virando uma espécie de Ilha da Fantasia, capital do poder, da luxúria, dos prazeres, da cornucópia governamental. O Dr. Tancredo disse certa feita: “Um balaio de caranguejos, se tira um, vem mais um agarrado na perna de outro “. Típico retrato da paisagem mórbida que foi edificada para ser o coração do mundo, a pátria do Evangelho, do ideário de Dom Bosco. Ali hoje impera o profano, nada de santidade e muito menos de pureza angelical. Retrato cruento da degeneração total de uma escala mínima de valores. Falência das instituições, crise moral incurável dos Três Poderes. Fracasso desse modelo de República, que, aliás, desde o primeiro presidente, já se iniciou com a renúncia do Marechal Deodoro e a posse do vice Floriano Peixoto. Começo a sonhar, saudosista que sou, com a volta da Monarquia Constitucional. Quem sabe assim tiramos o Brasil do atoleiro. Vamos chamar Dom Rafael, vamos chamar Dom Bertrand de Orleans e Bragança, herdeiros de Dom Pedro II. Viva o Poder Moderador! Viva o Conselho de Ministros! Viva o Conselho de Estado.
A toga que não exprime e que não vale: Sebastião Lacerda, avô do jornalista Carlos Lacerda, era ministro do Supremo. O ano era 1925. Na pauta, o rumoroso caso dos cadetes da Escola Militar do Realengo, no Rio, punidos pela revolta de 1922. O presidente da República era o mineiro Arthur Bernardes. Governou o tempo todo sob estado de sítio. Ofereceu ao velho Ministro Sebastião Lacerda a nomeação de um primo para um cobiçado cargo federal. Em troca, o ministro deveria faltar à sessão do STF no julgamento do habeas corpus requerido pela defesa a favor dos cadetes. Mesmo doente, Sebastião Lacerda desafiou as restrições médicos, atravessou a Avenida Rio Branco, participou da sessão e foi voto isolado pela concessão do habeas corpus. Na saída do julgamento, desabafou que o Supremo se curvou ao Exército de forma pusilânime. E emendou: “Essa toga está mais doente do que eu”. Antes de morrer, pediu para ser sepultado sem a toga: “Ela já nada mais exprime, nem vale”. Trecho da excelente biografia “Lacerda, coração de tempestade”, de autoria de Mário Magalhães, pela Companhia das Letras. Reflexões atualíssimas para esse atual fogaréu vivido pela Suprema Corte.
*Mauro Bomfim é advogado, jornalista e escritor – texto artesanal, sem uso de IA.

