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06-09-2026 às 09h12
Rodrigo Marzano Antunes Miranda*
O tempo tem dessas coisas: não avisa, mas ensina. E, ao ensinar, transforma. Não é todo dia que um menino da Vila Cemig, no Barreiro, vê seu nome reconhecido em uma solenidade acadêmica. Quando esse dia chega, porém, o tempo parece dobrar-se sobre si mesmo: vejo-me, ao mesmo tempo, menino e homem; passado e futuro; sonho e memória.
Ao receber a notícia do título de Doutor Honoris Causa, a primeira imagem que me veio à mente não foi a da cerimônia, das togas ou dos discursos solenes. Vieram-me, antes, os rostos que povoaram minha infância, as pedaladas pelas ladeiras, o sol quente no rosto e o cheiro de terra molhada depois da chuva. É nesse tempo aparentemente simples que se encontra a origem mais profunda de toda conquista. O tempo não apaga o vivido; amadurece as experiências e lhes atribui novos sentidos.
Minhas origens são humildes. Venho de uma terra simples, de uma família marcada pela dureza do trabalho diário, em que o pão à mesa era fruto de esforço hercúleo. Os títulos acadêmicos conquistados ao longo das décadas – entre eles o Doutorado em Cidadania, Direitos Humanos, Ética e Política e a honraria agora recebida – jamais apagaram essa história. Ao contrário, ela permanece como o “húmus fértil”, o solo sagrado de minha produção intelectual e de minha atuação pública.
Recordo, com gratidão, as mãos calejadas que sustentaram minha infância para que meus dedos pudessem, um dia, folhear páginas de filosofia. Recordo também os professores de escolas públicas modestas que reconheceram em mim, ainda menino, uma centelha merecedora de cuidado, incentivo e oportunidade. Nenhuma conquista é inteiramente individual: toda trajetória traz consigo a generosidade de quem acredita em nós, por vezes antes que nós mesmos sejamos capazes de acreditar.
Nascido e criado na periferia de Belo Horizonte, aprendi cedo que o conhecimento não era um luxo, mas um instrumento de sobrevivência, dignidade e transformação. Cada livro lido, cada noite de estudo sob luz precária e cada dúvida enfrentada constituíram os fios de uma caminhada construída lentamente. A graduação em Filosofia pela PUC Minas e o mestrado em Direito pela UFMG foram etapas decisivas dessa travessia, levando-me a compreender o Direito e a Ética não como formulações abstratas, mas como práxis cotidiana e compromisso com o presente.
O doutorado pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Barcelona consolidou uma convicção que orienta minha vida intelectual e profissional: o Estado somente se justifica quando reconhece a dignidade da pessoa humana e a coloca no centro de suas decisões. Essa é uma lição que o tempo insiste em nos reapresentar, pois cada geração precisa reaprendê-la diante de seus próprios desafios.
Na atuação como assessor da Presidência do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais e na experiência anterior como diretor da Escola de Contas e Capacitação Professor Pedro Aleixo, pude constatar, na prática, aquilo que a teoria sempre indicou: o controle externo, a formação permanente dos funcionários públicos e a boa gestão pública não são rituais burocráticos; são antes de qualquer coisa condições para que a democracia se sustente, para que os recursos públicos alcancem quem deles necessita e para que a confiança da sociedade nas instituições possa florescer.
O tempo, esse juiz implacável, cobra de todos nós integridade, responsabilidade e transparência. Mas cobra também uma disposição sincera para a paz. A paz não é indiferença diante da injustiça, tampouco silêncio diante da violência ou da mentira. Paz é a construção paciente de relações públicas e humanas fundadas no respeito, no diálogo, na justiça e na dignidade de cada pessoa.
Por isso, este título honorário não pode ser compreendido como um ponto de chegada. Ele se apresenta, antes, como uma pergunta: o que faremos com o conhecimento acumulado? De pouco valem diplomas, funções e reconhecimentos se não forem colocados a serviço da redução das desigualdades, do fortalecimento das instituições e da construção de uma sociedade mais fraterna e pacífica.
Não basta diagnosticar a corrupção, a desigualdade ou o enfraquecimento do diálogo público. É preciso agir com a integridade de quem não teme o contraditório, mesmo quando o tempo parece curto e o cansaço se impõe. A busca pela justiça exige disposição para ouvir, rever posições e defender a verdade sem transformá-la em instrumento de arrogância, perseguição ou exclusão.
A verdade não é propriedade de pessoas, grupos ou ideologias. Ela se revela a quem a busca com humildade, rigor e abertura de espírito. É dela que nasce a possibilidade de um diálogo honesto; é sobre ela que se sustenta uma paz duradoura. Onde a mentira se normaliza, a confiança se desfaz; onde a verdade é perseguida com responsabilidade, a convivência se torna possível. Por isso, reafirmo: Veritas praevalet — a verdade vence.
Ser Doutor Honoris Causa significa, para mim, renovar o compromisso de lutar por um Estado que cuide de todos, sobretudo daqueles que olham para o horizonte sem ainda saber que o mundo pode caber dentro de um livro. A honra não me pertence exclusivamente. Ela pertence a Minas Gerais, a cada mestre que cruzou meu caminho, à minha família, aos amigos, aos alunos e a cada jovem que insiste em acreditar, mesmo quando o tempo parece pesar contra.
Porque, no fim, o tempo não mede distância: mede presença. E sigo aqui, inteiro, grato e preparado para o próximo passo – comprometido com a educação, com a justiça, com a paz e com a verdade. No tempo certo, como sempre foi e como sempre será.
(*) Rodrigo Marzano Antunes Miranda é diretor da Escola de Contas e Capacitação Professor Pedro Aleixo, vinculada ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), doutor em Cidadania, Direitos Humanos, Ética e Política da Faculdade de Filosofia da Universidade de Barcelona-UB (2025), mestre em Direito pela UFMG (2019), especializado em Formação Política (lato sensu) pela PUC-RJ (2007) e graduado em Filosofia (bacharel e licenciado) pela PUC-MG (2005).

