Créditos: Magnific
12-08-2026 às 08h14
Sérgio Augusto Vicente*
Naquele dia, naquela mesa, ele se deliciou. Deliciou-se como se fosse a última mordida. Lambuzou-se com uma suculenta coxa de frango.
A nova condição física lhe tirara a força das pernas. Homem acostumado a beijar o ventre da terra com a rústica sola dos pés, não se conformava com a dependência da cadeira de rodas e dos filhos para tomar banho, fazer as necessidades fisiológicas e comer. Perdera a fome, o paladar, o entusiasmo.
Aquele dia, porém, era Dia dos Pais. Talvez não o soubesse, mas era seu último Dia dos Pais.
Comemorou junto aos filhos, como fazia todos os anos. Se não no melhor estilo, mas no melhor estilo que a sua nova condição (que não sabíamos ser passageira ou não) podia oferecer. Como de costume, pediu à nossa Mãe que lhe separasse uma quantia da aposentadoria. Colocou as notas no bolso da camisa e as entregou, em seguida, ao nosso amigo-irmão, Gabriel (Bié), para que lhe comprasse um delicioso frango assado com maionese para o almoço de domingo. Era seu prato predileto.
Por um breve instante, parecia ter recobrado o paladar. Talvez quisesse manter aquela postura de pai presente, que sempre tivera. Pai que sabia agradar os filhos.
Mesmo combalido de saúde, tentando processar a torturante condição de cadeirante, permitiu-se erguer a cabeça, colocar o dinheiro no bolso e protagonizar o almoço de domingo. Um mimo. Um carinho que sabia fazer como ninguém.
De banho tomado, cheiroso, de barba feita e de cabelo cortado, com a sua camisa xadrez de manga comprida, pediu que aproximássemos sua cadeira da mesa. Segurou firme naquela coxa dourada e a devorou com gosto. A vida, insípida desde o último retorno do hospital, parecia receber de volta o sabor de outrora.
Hoje, enxergo esse momento como um lindo gesto de carinho conosco. Afinal, queria nos ver felizes no Dia dos Pais. Não que fingisse o apetite para nos agradar. A circunstância da data talvez lhe fizesse reativar o tradicional instinto de Pai Leão. Pai que sabia como ninguém defender os filhos, supri-los de afetos e dignidade.
Passamos um dia diferente. Diferente de todos os que passáramos juntos, desde que saíra do confinamento hospitalar, na última semana de julho.
Devorou aquela coxa como um Leão. Nunca mais o veríamos comer assim. A batalha para fazê-lo se alimentar e se hidratar só se tornava mais difícil e inglória. Não sentia fome nem sede. As broncas para fazê-lo comer e beber nos angustiavam. Escoava pelo ralo o desejo de viver…
Não demorou um mês para que seu viço, vitalidade e músculos murchassem. Debilitava-se a cada dia, como numa despedida lenta. Mas tínhamos esperança de vê-lo andar novamente. Não andou. No dia 4 de setembro, partiu desejoso do descanso. Estava exausto.
Deus o recebeu de braços abertos. De lá de cima, continua nos abençoando. Não tenho dúvidas disso!
Aquela cena da coxa de frango continuará inesquecível. Desde então, não importa o cardápio. Dia dos Pais sempre terá cheiro e sabor de coxa de frango assada.

* Sérgio Augusto Vicente é historiador, escritor e curador. Trabalha na Fundação Museu Mariano Procópio. Editor de cultura do Diário de Minas.

