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08-08-2026 às 09h12
Roberto Morais*
Quase todo 50+ já guiou um Fusca. É um projeto da época da 2ª Guerra Mundial cujas maiores qualidades eram a robustez, a simplicidade da mecânica e a genial concepção de um motor que não precisava de água para sua refrigeração (um tipo de motor usado ainda, inclusive em carros modernos e sofisticados). Em 1978 dominava o mercado brasileiro de automóveis, mas tinha sua produção encerrada na Alemanha, berço do grupo Volkswagen. A Fiat resolveu comprar essa briga com um projeto feito especialmente para o Brasil, baseado em seu modelo 127, largamente conhecido e vendido na Itália. O estado de Minas Gerais ofereceu incentivos e a Fiat Automóveis construiu aquela que viria a ser a maior fábrica da empresa e, comprovadamente, uma das maiores do mundo até hoje. No Salão do Automóvel de 1976 foi lançado o 147 com a difícil incumbência de competir com o Fusca, líder com folga nas vendas.
Lembro como se fosse hoje a sensação ao ver na rua pela 1ª vez um Fiat 147. Fiquei surpreso com seu tamanho (achei bem pequeno) e linhas bem diferentes de tudo que já havia visto neste segmento, o percebi quadradinho e simpático. Aos poucos foram aparecendo mais unidades e fui gostando cada vez mais, inclusive colegas do colégio me achacavam por essa predileção. A diferença de idade entre os dois projetos era gritante e visível a olhos nus. O Fusca tem o desenho de um besouro, com motor na traseira, porta-malas mínimos (dois), pouco espaço interno e vidro dianteiro bem pequeno. O 147 veio com motor dianteiro, pneu sobressalente junto a ele (super inovador), áreas envidraçadas grandes, amplo espaço interno e um porta-malas enorme, maior que de muitos carros fabricados atualmente. E era menor do que o Beetle, uma façanha.
Muito mais moderno em tudo por tudo do que o Fusca, era natural que fosse mais veloz, econômico e espaçoso. Não obstante o fato de a Volks ter se instalado 23 anos antes, o 147 chegava para ficar. Tratava-se de um carro robusto, com motor transversal, ótima estabilidade, que começou a agradar também graças à versatilidade que seu banco traseiro rebatível proporcionava. Problemas no início foram o engate um pouco duro do câmbio (principalmente a 1ª marcha e a ré) e a resistência natural das pessoas à novidade. Nada que não pudesse ir melhorando com o tempo. Com o passar dos anos, o 147, já bem-sucedido – campeão de vendas em 1981/82/83 –, dava sinais da idade e acabou sendo aposentado em 1986, tendo vendido mais de 1.100.000 unidades, incluindo suas variáveis sedan, pick-up, perua e furgão.
À medida que o tempo passou e os automóveis foram mudando de patamar em tecnologia e sofisticação, o público um pouco mais entendido no assunto começou a se referir ao 147 como um “mico” da indústria automotiva, um modelo despojado, portador de muitas deficiências, motivo de gozações. Mas não se pode enxerga-lo com um olhar de século XXI, é um grave equívoco. Mesmo jornalistas especializados mais “especializados” do que eu cometeram essa injustiça. Toda e qualquer análise deve ser feita levando-se em consideração o momento histórico em que ocorreu, as condições da época e o nível de desenvolvimento tecnológico conhecido até então. Lembremos que foi o responsável por confrontar um ícone da indústria automobilística mundial, o “Volks”, e chegado ao país duas décadas após o adversário, queridinho de várias gerações.
Não me esqueço do presidente mundial da montadora em visita ao Brasil no aniversário de 30 anos da fábrica (2006), respondendo a um entrevistador sobre o papel (na verdade, o repórter insinuou “papelão”) do 147 na história da Fiat brasileira. Luca di Montezemolo gentilmente respondeu que o modelo foi muito importante na implantação da marca no país, mas o fez com um certo constrangimento, quase pedindo desculpas pelo conjunto de características apresentadas pelo carro. Ora, sinceramente, eu teria respondido melhor. Carro nenhum é isento de deficiências e o 147 mostrou-se muito competente no objetivo da Fiat de se instalar e se estabelecer num novo país, repleto de adversidades (a cultura local, estradas e ruas esburacadas, disparidades enormes de clima, relevo, etc). Enfrentou e venceu modelos consagrados, fabricados por uma montadora de origem alemã, país cuja indústria é reconhecida mundialmente pela busca constante da excelência técnica de suas máquinas. Nada tenho contra o Fusca, acredito que tenha sido uma honra para a Fiat enfrentá-lo (e derrotá-lo).
Parabéns, 147, você foi Brilhante! Merece ser lembrado como tal.
Email: roberto.morais80@gmail.com
Contato: (31) 9 8040-4015
- Formado no Curso De Pilotagem Marazzi (SP)
- Graduado em Educação e Segurança de trânsito pela Universidade Cândido Mendes
- Ex professor de Legislação de Trânsito e Direção Defensiva nos cursos de Psicólogo Perito e Psicologia Aplicada ao Trânsito.

