Créditos: Divulgação
28-06-2026 às 11h30
Giovana Devisate*
Me perguntei quantas vezes olhei para corpos magros desejando ser mais magra, mesmo já sendo magérrima. Jamais terei essa resposta, mas sei que quase todas as mulheres vivem ou viveram isso pelo menos em alguma fase da vida.
Procedimentos invasivos e de manutenção contínua já estão no mercado há muitos anos, fazendo com que muitas pessoas percam a mão nas plásticas e nos preenchimentos, tornando-se irreconhecíveis. Dietas irresponsáveis sempre foram compartilhadas também, em rotinas em que comer apenas 900 calorias jamais fará sentido.
Assistimos pessoas famosas vivendo suas vidas dessa forma, enquanto torcemos para um milagre em nossas vidas, muitas vezes reproduzindo algumas coisas que elas fazem, na espera de que também funcione com a gente. O objetivo é sempre o mesmo: alcançar perfeição e magreza, até porque o próprio mercado nos faz questionar a todo momento sobre a nossa aparência… Ele constrói em nós uma insatisfação constante com quem somos e, por isso, entramos em um looping.
Esse looping nos coloca cada vez mais vulneráveis, porque a perfeição sempre se afasta de nós, estando passos à frente. Toda vez que pensamos estar perto dela, ela muda de forma, de cor, de textura, de tamanho e talvez seja justamente por isso que a indústria da beleza continua funcionando tão bem e lucrando tanto com o nosso sofrimento: ela vende uma ideia que não existe, uma busca que nunca termina.
Essa ideia de perfeição é difusa, distante, irreal, embaçada. Mesmo com tanto esforço das atrizes de Hollywood, por exemplo, não penso em ninguém perfeito, se tento imaginar. Ainda mais agora que muitas atrizes estão muito magras, com uma aparência que mais me deixa preocupada que admirada… É difícil não se perguntar que tipo de mensagem esse excesso transmite para as milhares de mulheres pelo mundo que se espelham nas imagens tão difundidas dessas famosas.
A população, na tentativa de também emagrecer a qualquer custo, começou a usar canetas emagrecedoras. Agora, acho que isso foi longe demais porque já soube de inúmeras pessoas conhecidas usando sem estarem em situação de obesidade ou risco, ultrapassando o tempo estipulado pelo médico inicialmente e insistindo no tratamento como uma fórmula mágica para o emagrecimento tão desejado.
Penso que isso, alinhado a novos procedimentos estéticos, nos mostra como estamos todos doentes, na era da beleza perigosa. Não porque cuidar da aparência seja um problema, até porque o corpo já é tratado como um projeto sem fim, que precisa estar constantemente sendo corrigido e aperfeiçoado há muito tempo, mas porque esse corpo, agora, tem como padrão ser fraco, frágil, vulnerável.
É um buraco sem fundo, que nos leva à ruína, porque um corpo tão frágil assim não consegue lutar se precisar, não consegue gritar se quiser, não consegue existir com plenitude em um mundo que passa por cima de quem não ocupa espaço. A magreza excessiva esconde coisas que impactam a todos…
Está valendo quase tudo para chegar perto do que acham que é o ideal de beleza: procedimentos não invasivos, cirurgias plásticas, emagrecimento exagerado, intervenções dermatológicas e capilares, clareamento dos dentes, exagero no exercício físico, suplementos e uso de hormônios e outras substâncias. Além de maquiagem, bronzeamento artificial, unhas, cílios, roupas modeladoras, lentes de contato, extensões de cabelo e manipulação digital da própria imagem, com edição das fotos, apps que alteram o rosto e o corpo, filtros que mudam a fisionomia e ferramentas que disfarçam qualquer sinal de imperfeição.
A pressão estética e a comparação constante nas mídias sociais são gatilhos para ansiedade, depressão e transtornos alimentares e talvez o mais assustador, agora, seja perceber que talvez as pessoas em quem nos espelhamos provavelmente estão vivendo nesses estados adoecidos.
Uma coisa preocupante também é ver que o mercado da beleza cresceu e se firma ainda mais com profissionais vendendo procedimentos, dietas e ideias nas redes sociais, como se não fossem coisas relevantes, que deveriam ser individuais. A quantidade de desinformação que circula nas plataformas é gigante e as pessoas tendem a acreditar por vir de gente que simplesmente tem uma grande audiência.
Aos poucos, as intervenções médicas, as restrições alimentares e as mudanças corporais passam a ser tratadas como tendências de consumo e não como escolhas que exigem cuidado, informação, acompanhamento profissional e, muitas vezes, necessidade ou contexto. Ao ver a imagem da Ariana Grande, por exemplo, que parece tão pequena, me pergunto: para onde estamos olhando? Para quem? Em quem devemos nos inspirar, nos espelhar? Como saber onde parar?

