Créditos: TV/via REUTERS
28-06-2026 às 09h17
Rogério Reis Devisate*
Em primeiro lugar, que o povo venezuelano receba a nossa solidariedade, neste momento de dor, diante da tragédia provocada pelo forte terremoto que ceifou vidas, deixou feridos e fez brotar lágrimas nos corações de todos nós.
A história da Venezuela registra diversos eventos sísmicos importantes. Foram terremotos atrás de terremotos, atrasando o relógio da prosperidade, do desenvolvimento e do bem-estar para o seu povo. Primeiro, ocorreu o grande terremoto de Caracas, de 1812, que dizimou grande parte da capital. Depois, a disputa política em torno da riqueza petrolífera e diversos fatores internos e externos provocaram sucessivos abalos na economia nacional. Nos últimos anos ocorreu um outro tipo de catástrofe e que atingiu o rico território venezuelano, sendo, porém, de natureza política. Um processo planejado, que continua a atingir a população, mesmo tantos anos após a ascensão de Hugo Chávez ao poder, no ano de 1999, já que o contexto foi mantido, em linhas gerais, por seu sucessor, Nicolás Maduro. O resultado? Bem, muitos acham que é uma das maiores crises da história contemporânea, com um povo empobrecido num país que tem a maior reserva de petróleo do mundo. Para ficar claro o tamanho da crise, o atual salário mínimo mensal equivale a R$ 2,72 (dois reais e setenta e dois centavos), mais um “bônus” que o governo dá. Como se vive com isso?
Embora sejam fenômenos completamente distintos, o terremoto produzido pela natureza e o “terremoto político” apresentam semelhanças, porquanto ambos desestruturam os pilares sobre os quais uma sociedade se organiza, esvaziam a despensa e a mesa das famílias, comprometem instituições, a economia e a confiança social, desafiam a capacidade organizacional e de resposta e socorro aos necessitados, sobrecarregam o sistema de saúde e abalam as perspectivas de bom futuro.
Com consequências mais duradouras do que qualquer terremoto natural, a Venezuela passou e passa há décadas por outro tipo de abalo, pelo projeto político de Hugo Chávez, que propunha refundar o Estado venezuelano por meio da chamada Revolução Bolivariana, reescrever a história e centralizar o poder político, com expansão do papel do Estado na economia e a utilização da renda petrolífera para sustentar a manutenção do seu grupo no poder. Isso tudo destruiu um país que detinha vantagens excepcionais de riqueza e fartura! De fato, poucos países latino-americanos reuniram, ao longo do século XX, tantas condições naturais para prosperar quanto a Venezuela. Detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, dona de vasta riqueza mineral, potencial agrícola e posição estratégica no Caribe para exportações, parecia destinada a ocupar posição de liderança local e regional. É por isso que a tragédia venezuelana se torna ainda mais dramática, pois não decorre da escassez de recursos naturais e sim da incapacidade de transformá-los em prosperidade duradoura para sua população! A experiência venezuelana constitui um alerta para todas as nações, demonstrando que riqueza natural, por si só, não assegura prosperidade, desenvolvimento nem liberdade e que o caminho da destruição é fácil de ser encontrado.
O terremoto político tornou-se também um terremoto humanitário e que se espraiou por outros países, já que milhares de venezuelanos partiram em busca de melhores condições de vida, trabalho, segurança, confiança no governo e esperança.
A metáfora do terremoto revela-se particularmente apropriada porque ambos os processos — o natural e o político — produziram destruição de estruturas fundamentais. Se o terremoto físico fez ruir prédios, casas, igrejas e pontes, o terremoto político feriu por dentro a alma do país e deteriorou instituições, credibilidade, legitimidade, liberdade, empresas, moeda, sistema produtivo e relações democráticas e de confiança entre o Estado e a sociedade.
Nos dois casos, a reconstrução exige muito mais do que recursos e a reparação dos danos materiais, pois requer comprometimento, solidariedade, empatia, tempo, liberdade, estabilidade e capacidade de restabelecimento da confiança coletiva na Nação.
No entanto, há um detalhe importante, pois, além das semelhanças mencionadas, há diferença fundamental entre os dois fenômenos. Os terremotos naturais são inevitáveis e independem da vontade humana. Já os terremotos políticos resultam de decisões, escolhas institucionais, disputas de poder, manipulação da vontade popular, exploração da confiança das pessoas, da inocência e dos movimentos de massa. Consequentemente, resultam de ações e omissões, de vontade política declarada e manifestada nos atos decisórios. Nestes casos, alguém tem culpa e, se alguém causou mal a outrem, ao país e ao povo, tem responsabilidades por responder perante as vítimas.
Que a ajuda humanitária nacional e internacional alcance rapidamente os atingidos. Que médicos, socorristas e voluntários encontrem os meios necessários para salvar vidas e aliviar o sofrimento. Que o governo facilite esse trabalho e que a solidariedade fale mais alto do que as divergências políticas. Que o terremoto da terra seja passageiro e que o terremoto da política também encontre o seu fim, permitindo que a esperança volte a florescer.

