Créditos: Reprodução
12-06-2026 às 07h32
Hatsuo Fukuda*
Assistir o filme O Diabo Veste Prada 2 é um acontecimento. Está passando em todos os shoppings de Curitiba. Tentei assistir no Pátio Batel – queria ver as mulheres chiques – e todas as sessões do dia e do final de semana já estavam lotadas, inclusive as salas VIP. Fui para o Shopping Mueller, onde havia duas salas quase lotadas. Uma fila na entrada, como sempre acontece com blockbusters – mas este não é Vingadores – é uma comédia-quase sátira sobre o mundo da moda e do jornalismo e, the last but not the least, do big business que é o mundo da moda e do jornalismo. E, como todo mundo, tirei uma foto junto com o cartaz, notando que havia muitas mulheres maduras acompanhadas de outras, mais jovens. Elas, como eu, devem ter assistido O Diabo Veste Prada, há vinte anos – eu com o meu filho quase criança – e agora, já adultas, estavam revivendo a experiência. Mães e filhas. Achei tocante.
O Diabo Veste Prada 2 é, principalmente, uma amostra do que Hollywood sabe fazer melhor: um conto de fadas contemporâneo para adolescentes e adultos. E, como todo conto de fadas, os personagens são conhecidos da platéia: Miranda, Andy, Emily. E como todo conto de fadas precisa de uma fada boazinha, este se transformou em um bruxo, Nigel, bruxo que num passe de mágica produz sapatos e vestidos de grifes chiques para as cinderelas esfarrapadas se transformarem em princesas encantadas.
Conto de fadas contemporâneo? Quer dizer: todos os sonhos de consumo que a patuléia jamais terá acesso serão realizados aos personagens: Dior, Chanel, Prada, Givenchy, Versace. Vestidos, casacos, bolsas- ah! as bolsas! – sapatos. É preciso ser uma centopéia para usar tantos sapatos chiques que serão dados (dados!) pelo querido bruxo Nigel a suas protegidas.
Hollywood vive de vender ingressos, portanto, seus contos de fadas não serão contos dos Irmãos Grimm e toda a crueldade inerente a camponeses germânicos vivendo na Floresta Negra. Serão contos de Andersen, devidamente formatados para platéias infantis, expurgados das duras realidades da vida.
A grande Meryl Streep, que já no filme original havia introduzido um toque de humanidade à personagem Miranda – por sua sugestão e feeling de grande atriz que Miranda se transformou em uma bruxa má boazinha – desta vez nos apresenta uma mulher ainda mais palatável à platéia. Ela é a própria personificação da mulher independente que luta contra tudo e contra todos. Faltou um cartaz dizendo: Fight like a Girl. É difícil a vida de uma CEO mulher no mundo corporativo dominado por homens machistas, mas ela se sai muito bem.
Fight like a girl, naturalmente, era o papel reservado a Anne Hathaway. Há vinte anos, ela, com 22 anos, lutou como uma garota determinada para ganhar o papel de Andy no Diabo Veste Prada. Ela era vista como uma princesinha moderna no Diário da Princesa – outro conto de fadas da Disney – que fez um sucesso enorme junto a crianças e adolescentes. Este seria seu primeiro papel para platéias adultas. Ela conseguiu, e sua carreira subiu de patamar. Transformou-se na grande estrela que é hoje, ao contrário de outros idols adolescentes da época, que não tiveram a mesma sorte ou determinação. Lembro-me que quando assisti o filme, notei a grande quantidade de meninas acompanhadas de suas mães. As garotinhas estavam lá para ver a princesa Mia Thermopolis, do Diário da Princesa, e ganharam pelo resto da vida a princesa Andy, personificação da jovem moderna e independente entrando no mundo adulto. Hoje, aquelas garotas voltam aos cinemas, e muitas vão acompanhadas de suas mães, e tiram selfies junto ao cartaz. É um grande acontecimento e irá direto para as redes sociais. Thank you, Mammy.
O papel da bruxa má foi dado a Emily Blunt, que faz o papel de Emily. No primeiro filme, ela também era uma jovem atriz em ascensão. Depois de O Diabo Veste Prada sua carreira acelerou, transformando-a em uma das atrizes mais versáteis do cinema contemporâneo – e uma das mais bem pagas.
E a bruxa má da vida real, Anna Wintour, a toda poderosa editora da revista Vogue, que inspirou a personagem Miranda Priestly? No primeiro filme, a lenda que o acompanha diz que Wintour inspirava um medo tão grande no mundo da moda que todo mundo se recusou a participar. Eles tiveram dificuldades para conseguir figurinos e participações reais (cameo appearance, em que personagens reais fazem breves aparições como eles mesmos). Com o sucesso do primeiro filme tudo mudou. Repita-se, graças a atuação de Meryl Streep, que humanizou Miranda. Wintour esteve presente no lançamento mundial do filme, em New York, e foi fotografada com Meryl Streep. Ela visitou o set e filmou uma cena que não foi incluída no filme. Houve um problema na tomada, e o diretor teve medo de pedir a Wintour que a refizesse. Ela continua a inspirar temor.
Personagens do mundo da moda e do entretenimento concordaram em aparecer. Uma cena hilária acontece com Donatella Versace, interpretando ela mesma. Dezenas de outras personalidades do mundo da moda aparecem no filme. Todo mundo quis tirar uma casquinha. Outra cena espetacular é com Lady Gaga. Se o filme fosse uma porcaria, a aparição de Lady Gaga valeria o ingresso.
Na Disney+ há um documentário da estréia mundial em New York. Dentro do espírito do filme, é só deslumbre. Todos estão lindos e maravilhosos, todos vestem grifes famosas, todos adoram todos, todos se divertem como se não houvesse amanhã. Foi no Lincoln Center, e o tapete vermelho nunca foi tão glamuroso.
O filme é pura diversão. Vale cada centavo do ingresso. Não esqueça a pipoca.

