Créditos: Divulgação
07-06-2026 às 09h16
Marcos de Noronha*
Título com uma palavra inusitada para pregar ao contrário: que as palavras cumpram seu principal objetivo, a comunicação. Que as palavras cumpram seu principal objetivo, a comunicação? Se é esta a função da palavra, como entender a função da poesia? Pretendo aqui, longe de desistir de aprender novos e melhores termos, para obter uma escrita mais clara e criativa, criticar a erudição narcisística, que muitas vezes faz com que o interlocutor fuja dos objetivos da comunicação. Na minha trajetória, encontrei alguns autores incapazes de se colocarem no lugar do outro, o que poderia auxiliá-los na hora de escrever. A impressão é que precisavam mostrar vantagens com a erudição, causando desconforto àqueles que não carregavam um dicionário debaixo do braço.
Em novembro farei 69 anos, conquistando um longo trecho da minha vida, permitindo-me refletir sobre os sentidos que me proporcionaram maior serenidade e conhecimento. Nesta longa trajetória, foi na França, quando eu fazia minha pós-graduação em Etnopsiquiatria, na Universidade de Nice, que decidi preferir livros de autores que escreviam de forma mais simples e compreensiva. Vejam que, naquela época, eu estava aprendendo uma outra língua e imaginem enfrentar a erudição em obras estrangeiras. Compreendia melhor, por exemplo, as obras de Henri Collomb, criador do Serviço de Etnopsiquiatria, comparando com as de Michel Foucault. Collomb só havia escrito artigos: nenhum livro publicado. Foucault, por outro lado, publicou inúmeras obras, dentre elas: Gênese e Estrutura da Antropologia de Kant e História da Sexualidade. Os artigos de Collomb eu li todos; as obras de Foucault não cheguei à terceira.
Ainda em formação na Faculdade de Medicina na Universidade Estadual de Londrina, na década de 70/80, criei com outros alunos, da Faculdade de Psicologia e da Comunicação, o Rádio Saúde. Tratava-se de um programa diário e ao vivo. Fui encarregado desta missão, pela rádio, que acabara de ser adquirida pelo periódico Folha de Londrina. Durante as preparações para a estreia do programa, os estudantes de comunicação nos auxiliaram na postura diante do microfone, para que evitássemos os vícios de linguagem e fôssemos capazes de uma melhor interação com os ouvintes, estes, de todas as classes. O nosso sucesso era observado na interatividade com o público, através de telefonemas colocados no ar, durante a transmissão. Havia uma vantagem em se comunicar de forma acessível, ao invés de optar por belas palavras, que não ajudavam a compreensão. Nos atendimentos, no início da minha carreira médica, passei então a investir numa linguagem coloquial.
Quando uma pessoa sabe ler e escrever, mas é incapaz de interpretar as palavras, chamamos de “analfabetismo funcional”. Descartando patologias, como os diversos tipos de dislexia, por um lado teríamos a provável ignorância do leitor, ou a comunicação erudita irresponsável de um determinado autor. Voltando 60 anos na minha vida, na carroceria da caminhonete do fazendeiro e meu avô Waldomiro, onde naquele tempo se podia carregar as crianças, por diversas vezes ele parava no caminho, em diversos empórios, para atender as encomendas, tanto da propriedade, como dos seus empregados, ou simplesmente para conversar com as pessoas. E nós, ansiosos para chegar no sítio, lamentávamos. Eu observava que ele mudava sua forma de falar durante aquele trajeto e assim acontecia também durante o período em que passávamos na fazenda. Ao lidar com pessoas simples, meu avô escolhia palavras capazes de comunicar, ou atitudes para demonstrar sua simplicidade empática.
Lembro que naquela época, na Igreja, até o padre, durante a missa, substituía trechos sagrados em latim, para o português. A instituição católica havia elegido que o importante era a comunicação, ao invés de impressionar com o rito. Mario Quintana, em seus cadernos, escreveu: “Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco: não há nada que substitua o sabor da comunicação direta.” Até o governo brasileiro, em 2025, aprovou a Política Nacional de Linguagem Simples, capaz de assegurar uma comunicação mais direta e legível ao público, com escolhas de palavras comuns.
Curiosamente, o Nobel de Literatura George Bernard Shaw escreveu: “O maior problema na comunicação é a ilusão de que ela aconteceu.” Até aí, tudo bem. Mas este britânico tinha uma profunda amizade com G. K. Chesterton, onde a admiração era mútua e os debates eram intensos. Foi Shaw que incentivou Chesterton a escrever sua primeira peça teatral. Mas quando eu, motivado em conhecê-lo, fui ler a obra Hereges, onde Chesterton dava sua versão do mundo, por volta de 1905, fiquei decepcionado diante da dificuldade em compreendê-lo. Não satisfeito, recorri a outra obra sua: Ortodoxia. Nela, mais uma vez, fiquei perdido no emaranhado de sua erudição, perdendo meu tempo.
O tão afamado George Orwell, em 1946, lançou Politics and the English Language. Neste ensaio, fez o diagnóstico destas linguagens pedantes: “expressam sintomas de insinceridade”. Parece que o autor não domina o que diz, e se protege na névoa de suas palavras. Orwell nos oferece uma ética da escrita, para podermos discernir entre os objetivos reais e os declarados da comunicação. Um escritor honesto deveria se perguntar: “O que estou tentando dizer? Quais palavras vão expressar isso? Qual imagem ou idioma vai deixar isso mais claro? Esta imagem é recente o suficiente para ter algum efeito?”
Se compreendermos a crítica de George Orwell, a clareza na escrita é um dever moral. Traduzindo seu conselho para nossa realidade: “Nunca use uma frase estrangeira, uma palavra científica ou uma palavra de jargão se conseguir pensar em um equivalente comum em português.” Portanto, a linguagem obscura está diretamente relacionada à incapacidade (ou recusa) do autor de pensar com precisão e não, simplesmente, trata-se da não compreensão decorrente do analfabetismo do leitor. Se tivermos que eleger o maior crítico da erudição, pensaríamos em Arthur Schopenhauer que escreveu Sobre a Erudição e os Eruditos e A Arte de Escrever. “Usar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos é, em toda parte, o sinal infalível da mediocridade; já a característica do espírito eminente é encerrar muitos pensamentos em poucas palavras.”
O psiquiatra Irvin Yalom, que escreveu A Cura de Schopenhauer, deixou de escrever obras técnicas para se dedicar a expor suas ideias através do romance. Nos trazendo afetivamente para o contexto romântico, através de seus personagens, podíamos compreender melhor fenômenos, como por exemplo, o sofrimento, ao intercalar a biografia do filósofo alemão, com sessões de terapia em grupo, num confronto de ideias entre protagonistas. Sobre o prolixo, Schopenhauer escreveu… “o prolixo é, em geral, oco. E o erudito que escreve para si mesmo — ou para uma plateia de iguais — não escreve: exibe-se.” “Nada é mais fácil do que escrever de modo que ninguém entenda; assim como, pelo contrário, nada é mais difícil do que expressar pensamentos profundos de maneira a que todos tenham de entendê-los.”
Quando os brasileiros se viram perdidos com a destruição das referências políticas no poder, decorrente das operações Lava Jato, dentre outras, passaram a buscar a verdade na espontaneidade de outros candidatos. Foi então que surgiu como opção popular Bolsonaro, mesmo que grotesco e improvável concorrente nas eleições, porém adotando uma comunicação direta. O índio encara a prolixidade do branco, como tentativa de enganar, explicando por que são de poucas palavras. Clarice Lispector, numa entrevista, disse assim: “Escrever é um ato solitário. Mas é também uma tentativa de diálogo. Quando escrevo, tento me fazer entender — não por mim, mas pelo outro.” Mas se estou aqui tentando contornar o exibicionismo erudito e optando pela clareza da comunicação, que exige coragem e o entendimento de que, linguagem é essencialmente um diálogo, que implica num encontro, numa relação, o que meus quase 70 anos de vida ainda pode me proporcionar?
Eu me deleito quando leio livros de autores criativos, como Liev Tolstói, por exemplo, publicado em 1886; ou José Cândido de Carvalho, que escreveu O Coronel e o Lobisomem, ou ainda do Nobel García Márquez e sua obra mais famosa, Cem Anos de Solidão. Desde criança faço uma breve ficha dos livros que leio, num ato cotidiano, e com dois ou três títulos no mesmo período. Ao ler, me entrego à leitura, caminhando como que ingenuamente, somando minha imaginação às imagens proporcionadas pelo autor. Quando estou psiquiatra, fico atento ao discurso dos pacientes, mas aprendi, para fazer o diagnóstico, em considerar também importante, além do conteúdo, a forma de falar. A trajetória de vida me trouxe está dádiva, que me leva a me envolver com o interlocutor, para depois tirar e conferir minhas impressões.
Foi recentemente que conheci a façanha do professor Alan Sokal, ao submeter um artigo satírico e repleto de absurdos, a uma respeitável revista científica. Conhecer este fato aumentou minha crítica em relação às palavras e as pessoas. Ao se aliar ao belga Jean Bricmont, Sokal mostrou em seu livro Imposturas Intelectuais, os abusos de terminologias científicas e erudição enganosa feita por renomados intelectuais, como alguns dos meus preferidos, que passei a me afastar na década de 80, diante da atitude de escolher autores mais simples e comunicativos, como falei. Não foram poupados pela dupla Jacques Lacan, Gilles Deleuze, Félix Guattari (que conheci em Nice), Luce Irigaray, dentre tantos. Intenções são comuns em qualquer que seja o encontro, o que é compreensível. Porém, quando a carência de um interlocutor se junta com a ignorância do outro, o terreno é favorável à manipulação.
*Marcos de Noronha
Psiquiatra Titulado pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Conselho Federal de Medicina
Psicoterapeuta e Psicodramatista reconhecido pela Federação Brasileira de Psicodrama
Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural
Membro da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural
Associado da Seção de Psiquiatria Transcultural da Associação Mundial de Psiquiatria
Membro do Grupo Latino Americano de Estudos Transculturais (GLADET)
Com formação em diversas técnicas psicoterapêuticas, dedicou-se ao estudo de disciplinas que fazem fronteira com a psiquiatria, como sociologia e etnologia. É um dos fundadores da Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural e da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural, tendo publicado artigos pioneiros nos principais periódicos científicos nacionais e livros sobre o tema.
Entre suas obras, destacam-se:
- Terapia Social – um relato intimista de sua trajetória e técnica;
- O Cérebro e as Emoções – uma abordagem contemporânea sobre o tema, com analogias entre práticas ritualísticas e os bastidores das psicoterapias;
- Polarização – Sintoma de uma Doença Social (no prelo).
Atua em Florianópolis coordenando grupos de Terapia Social tanto no setor público quanto no privado, defendendo o trabalho em grupo como uma alternativa eficaz para uma sociedade com grande demanda de cuidados em saúde mental. Também é apresentador do programa Psiquiatria Sem Fronteiras e de lives produzidas pelo Humanitas TV no YouTube.
Formação e Trajetória Profissional
Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Londrina em 1977, onde percebeu as limitações do ensino médico tradicional. Para complementar sua formação, dedicou-se ao estudo de História e Filosofia Médica, Medicina Oriental e Homeopatia. Seu primeiro contato prático com a psiquiatria ocorreu já no primeiro ano de graduação, em estágios supervisionados em um hospital com técnicas modernas de psicoterapia de grupo na linha do psicodrama.
Aprofundou seus estudos em psiquiatria cultural após a graduação, inicialmente buscando uma bolsa para estudar Orgonomia com Wilhelm Reich na Europa. No entanto, sua trajetória mudou ao conhecer o Serviço de Etnopsiquiatria da Universidade de Nice, na França, onde se especializou na abordagem desenvolvida por Henri Collomb, um dos pioneiros da etnopsiquiatria clínica.
Durante sua estadia na França, trabalhou com imigrantes e aprendeu a integrar diferentes saberes no tratamento de transtornos mentais, priorizando abordagens humanizadas e reduzindo a dependência de psicotrópicos. Essa experiência consolidou sua visão sobre a importância da diversidade cultural no tratamento psiquiátrico.
Ao retornar ao Brasil, empenhou-se na difusão da etnopsiquiatria, publicando artigos em revistas como a Revista da Associação Brasileira de Psiquiatria e o Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Também apresentou trabalhos em congressos nacionais e internacionais, conectando-se com outros pesquisadores interessados no tema.
Em 1993, durante o 9º Congresso Mundial de Psiquiatria, no Rio de Janeiro, fundou a Associação Brasileira de Psiquiatria Cultural. Em 1998, foi eleito o primeiro presidente da entidade no I Congresso Brasileiro de Etnopsiquiatria e Simpósio Internacional de Psiquiatria Cultural, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina.
Desenvolvimento da Terapia Social
Com base em suas experiências e inspiração nas sociedades tradicionais, desenvolveu a Terapia Social, uma abordagem que enfatiza a reintegração do indivíduo ao grupo e à sua tradição cultural. Diferente de abordagens convencionais, a Terapia Social propõe um envolvimento ativo e constante do paciente em seu processo terapêutico, tanto dentro quanto fora do consultório.
Em 2007, lançou o livro Terapia Social, formalizando sua metodologia. A obra foi posteriormente traduzida para o espanhol e publicada em 2012.
Atualmente, além de suas atividades clínicas e acadêmicas, é membro do Conselho da Associação Mundial de Psiquiatria Cultural e segue promovendo pesquisas e eventos sobre psiquiatria cultural e terapias integrativas.

