Créditos: Divulgação
04-06-2026 às 15h26
Anna Marchesini*
Tem guerra que não sai no jornal. Não tem tanque, não tem fronteira. Acontece em silêncio, às 3h da manhã, quando o ponteiro do relógio parece mais alto que o medo.
É a guerra dentro da gente.
Semana que vem faço holter. 24 horas com uma maquininha grudada no peito, só pra garantir que tá tudo em ordem. Check-up. Rotina. Porque cuidar também é rotina, não só emergência. No dia seguinte, uma amiga espera o resultado de uma biópsia. Na outra semana, é ressonância, é nódulo, é “vamos investigar”.
O mundo fala de Ucrânia, de Gaza, de fronteira invadida. Mas quantos de nós estamos de olho no próprio território e não contamos pra ninguém? O corpo é o primeiro país que a gente habita.
E também o último que a gente aceita perder.
A gente posta foto na praia, story no bar, dancinha no TikTok. Corpo perfeito, filtro perfeito. Só não posta o susto no banheiro quando acha um caroço. Não posta a ansiedade que aperta o peito às 2h da manhã. Não posta o exame marcado e a frase que não sai da cabeça: “e se for?”.
IBGE diz que o Brasil tá envelhecendo. Em 2040, um em cada quatro vai ter mais de 60 anos. Tradução: mais remédio, mais cuidador, mais solidão em apartamento com grade. A gente se prepara pra comprar casa, carro, faculdade. Mas quem se prepara pra ter um corpo que cobra a conta dos 20 anos em que a gente achou que era invencível?
Minha avó dizia que “corpo fecha as contas”. E fecha mesmo. Uma hora ele cobra a noite virada, o “depois eu resolvo”. Cobra com juros. E quando cobra, não adianta mandar áudio pro médico. Tem que ir. Tem que encarar. Tem que deitar na maca fria e deixar a máquina confirmar o que a gente torce pra ouvir: tá tudo bem.
Ir ao médico virou ato de coragem. Não pelo jaleco. Mas porque é ali, naquela sala branca, que a gente confirma que ainda manda no próprio país. Que ainda é dono do próprio CEP.
E a gente vai com medo mesmo. Porque o contrário de coragem não é medo. É desistência. É deixar pra lá. É fingir que o check-up pode esperar, que a dor passa sozinha, que o cansaço é só “fase”.
Vai com medo, mas vai. Porque o corpo é o único lugar que a gente não pode se mudar. Não dá pra vender, não dá pra alugar pro vizinho. É endereço fixo. É CEP da alma.
Esses dias ouvi uma frase: “a gente cuida do que ama”. E me peguei pensando quando foi a última vez que tratei meu corpo como algo que eu amo, e não como funcionário que tem que produzir sem reclamar. Quando foi a última vez que agradeci por ele me carregar até aqui, mesmo cansado?
O holter vai apitar 24 horas no meu peito. Vai lembrar que tô viva. Que cada “tum” no compasso certo é vitória. E que enquanto tiver batida, tem território pra zelar.
Pode dar tudo normal no exame. Se Deus quiser, vai dar. Mas só de marcar, só de ir, só de olhar pra dentro, eu já não desertei. Eu escolhi ficar do meu lado.
E você? Que check-up você tá adiando aí e ainda não teve coragem de marcar?
Vai. Marca o exame. Enfrenta a sala branca. Porque no fim, o único país que a gente não pode perder por descuido, é o da própria pele
*Anna Marchesini é Educadora e Palestrante

