Créditos: Divulgação
03-06-2026 às 08h37
Anna Marchesini*
Toca o áudio no WhatsApp. É a voz da sua mãe: “Filha, bati o carro, me transfere 2 mil pro guincho, é urgente”. Você treme. A voz é dela. O desespero é dela. O jeito de puxar o “r” é dela. Só não é ela.
Semana passada, mais de 3 mil brasileiros caíram nesse golpe. A polícia chama de clonagem de voz por IA. Eu chamo de roubo de confiança. Porque quando roubam a voz da sua mãe, não levam só dinheiro. Levam o chão.
A gente sempre soube que papel aceita tudo. Crescemos ouvindo “não acredita em tudo que lê”. Agora descobrimos que vídeo e áudio também aceitam tudo. E aí, em que a gente acredita?
2026 é ano de eleição e o TSE já derrubou mais de 120 deepfakes só no primeiro semestre. Candidato sorrindo, dizendo frase que nunca falou, prometendo coisa que nunca pensou. A montagem é tão boa que seu tio compartilha no grupo da família com legenda: “tá vendo? eu sabia”.
Antes a gente brigava por opinião. “Política X é melhor que Y”. Doía, mas o jogo era esse. Hoje a gente briga pelo fato. “Mas essa fala aconteceu?” Se não concordamos nem no que houve, como vamos conversar sobre o que fazer? Não tem debate. Tem nevoeiro.
E desconfiar de tudo cansa. É exaustivo viver com a pulga atrás da orelha 24 horas. A saída mais fácil virou não acreditar em nada. “É tudo manipulação mesmo”. “É tudo fake”. Só que o niilismo digital tem dono. Quando você para de acreditar, alguém que quer que você não acredite, venceu.
O filósofo Byung-Chul Han disse que vivemos na sociedade do cansaço. Eu acho que evoluímos: agora é a sociedade da desconfiança. A gente terceirizou a memória pro Google. Aí terceirizou o caminho pro Waze. Agora está terceirizando a verdade pra uma máquina. E quando a máquina erra, quem pede desculpa?
Antigamente a verdade era de graça. Você via, você cria. Um boi na sala era um boi na sala. Hoje a verdade custa caro. Custa tempo pra checar. Custa ligar pra sua mãe e perguntar “cê bateu o carro mesmo?”. Custa sair do zap, atravessar a cidade, olhar no olho e confirmar se a Pampulha secou ou se é só mais um vídeo mentindo com a cara mais lavada do mundo.
Aqui em Minas a gente é desconfiado por ofício. “Come quieto” é ciência. Desconfia da comida, do tempo, do político. Só que agora a desconfiança virou requisito técnico. Minha avó não cai em golpe de Pix. Não por causa de cartilha do banco. É porque pra ela conversa séria é na sala, com café coado, não com áudio de 15 segundos.
Talvez a verdade não morreu. Só voltou a ser artesanal. Feita à mão, no boca a boca, no “eu tava lá, eu vi”. Voltou a custar presença. Porque presença ainda não dá pra clonar. Ainda.
A mentira ganhou a minha cara. Ganhou a minha voz. Ganhou o seu medo. A prova não prova mais nada. Sobra o vínculo. Sobra quem atende o telefone às 3h da manhã e fala: “calma, filha, tô aqui”.
Num mundo onde até meus olhos me enganam, eu te pergunto: o que pra você ainda é sagrado e inegociável? O que nenhum algoritmo consegue falsificar?
Responde baixinho. E depois liga pra sua mãe. Só pra ouvir a voz dela. A de verdade.
*Anna Marchesini é Educadora e Palestrante

