O poeta, escritor e jornalista, Carlos Drummond de Andrade - créditos: Blog do Club de Literatura
31-05-2026 às 12h12
Rogério Reis Devisate
Carlos Drummond de Andrade, na comemoração dos 160 anos do jornal Diário de Minas, significa muito mais do que o festejo com a homenagem ao escritor, poeta e cronista que tão bem traduziu realidades vistas e vividas. Ele escreveu neste tradicional jornal, deixando marca indelével neste virtuoso órgão de imprensa, que não só noticia e informa, mas abre espaço para inspirar e sensibilizar o leitor, por meio da escrita tão bela e profunda, que festejava as verdades nas nossas vidas – mesmo aquelas que nem sabíamos possuir.
A sua escolha como símbolo comemorativo é um acerto e uma grande necessidade dos dias atuais, tão fúteis, tão melancólicos, tão deprimentes, onde a leitura parece perder o páreo para as curtidas em aplicativos e as postagens de dancinhas e mensagens curtíssimas, insensíveis, pouco estruturadas linguisticamente e que são boas, apenas, como amostras da decadência dos tempos modernos, em que, inclusive, pela primeira vez em cem anos, a nova geração se mostra cognitivamente inferior à anterior.
Quando Drummond, metaforicamente, falou que no meio do caminho tinha uma pedra, alertou-nos para algo além do óbvio, pois é preciso que vivamos e não apenas sobrevivamos durante esta linda jornada que é a existência das nossas vidas na Terra. Sim, precisamos aceitar o que não se pode mudar. Mas isso não impulsiona o existir, pois apenas nos faz ficar conformados e, de certa forma, enlutados, tristes, melancólicos e derrotados. Ah, quão bom e quão suave é a vitória ante a dificuldade… Como disse Guimarães Rosa, outro escritor mineiro erudito e, da vida, sabido, “o que a vida quer da gente é coragem”. De modo distintos, ambos nos impulsionaram, nos dando forças para vencer, nos carregando no braço quando achamos que devíamos desistir e nos dizendo que não é para isso que estamos aqui, afinal, as pedras inanimadas, sem vida e pesadas, não podem impedir a vitória da mente humana, da alma, da consciência e da vontade de vencer. Coragem!
Quantos castelos construímos na vida, com as pedras que nos atiraram e com as que coletamos no chão? Em quantas tropeçamos nos caminhos? O que aprendemos ao encontrar obstáculos em nossas jornadas? Sucumbimos e nos entregamos à derrota ou lutamos e os superamos? Quantos anos temos hoje e como nos vemos diante do que já vivemos? Quais os planos para o futuro?
Sabemos que há algo além dessas coisinhas do dia a dia, que consomem o nosso tempo e nos afastam do descanso real, do convívio com os queridos e dos abraços de saudade. Sentimos a necessidade da crença para, do óbvio mesquinho, tirar as nossas existências tão vinculadas aos compromissos indesejados, ruas congestionadas, juros altos, pagamento de contas e carestia dos produtos nos supermercados. A vida não é só isso! Temos tempo para respirar profundamente e sentir o ar fresco a nos dar fôlego para continuar. Temos os olhos da alma para distinguir o cheiro daquela flor especial em meio aos jardins da vida, mesmo que estejam tomados por mato e problemas. Temos a capacidade de perceber as sutilezas do céu azul e das nuvens que, naquela tela imensa, desenham formas diversas, em sucessivas conformações, dizendo-nos que nada é definitivo…
Ainda temos os riachos onde podemos molhar os pés na água gelada… e as montanhas a nos convidar a olhar o mundo lá de cima e, com novos ângulos, para ver os problemas ficarem tão pequenininhos lá embaixo. Olhando com a alma pura, percebemos que as casas continuam sendo lares, que as camas são as proporcionadoras do justo abraço para o descanso e que os nossos bichinhos de estimação seguem se lançando em explosivos festejos de alegria quando voltamos da rua. Se temos tanto, porque reclamar, desistir e não enfrentar as pedras do caminho?
Visitei as casas de Guimarães Rosa, de Drummond, de Cora Coralina e de alguns outros próceres da escrita nacional. Em comum há casas “de verdade” e não construções frias e soberbas. Não há detalhes para exibição e sim um convite à percepção, a ter tempo para contemplar detalhes, anotar pensamentos, levar aquela prosa gostosa e tomar café da tarde com um bolo quentinho. Em todas mergulhamos nos cenários onde escreviam e que se projetam para as suas escritas. Nesses ambientes tão simbólicos, recebemos o puxão de orelha acerca do modo corrido com que temos permitido gastar as nossas horas, sempre com a sensação clara de que o tempo tem passado mais rápido, que temos menos tempo para fazer o que gostamos e que o último movimento da partitura se aproxima, a sinalizar o fim da melodia.
Fica clara a chegada dos pensamentos intrusivos que nos banham com as suas palavras como se estas fossem alertas do destino, para que tiremos do caminho as pedras e sigamos o bom rumo, com amor ou sem, mas com vontade de viver. Aliás, é o que exsurge de Drummond em outro texto literário de importância, quando escreveu que “João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.” Dá-nos a lição de continuidade, de fluxo, de liberdade, de que a vida escreve certo por linhas tortas e que viver com amor é bom mas que a sua perda não é gatilho para o suicídio. Como desistir de algo que não é nosso e do qual somos apenas beneficiados e cuidadores? A vida não pode ficar parada, estagnada, como poça pestilenta e apodrecida. É preciso que tudo flua, que tudo siga, que tudo se movimente, pois pedras que rolam não criam limo.
A vida é imprevisível e por isso é tão importante que seja percebida no seu passar, valorizando-se cada momento. Imagine se soubéssemos de tudo o que fosse acontecer, a cada dia, a cada mês e ano. Seria uma chatice a vida, um fator de desperdício. Imagine, viver sem surpresas, sem novidades, sem descobertas! O bom é viver cada dia intensamente, verdadeiramente, sinceramente. Viver como se olhássemos no espelho e víssemos a nossa imagem e pudéssemos vê-la sempre alegre e próspera, motivada e feliz, endorfinada e se jogando nas trilhas do cotidiano, metaforicamente de qualquer forma, seja de tênis, de bota, de sapato, de sandálias, contanto que haja ação, movimento. … o que interessa é ir adiante, de todo modo, de todo jeito, a todo tempo, tropeçando, deslizando, correndo… indo, indo… e que, se pedras encontrarmos no meio da jornada, possamos chutá-las para longe e, sozinhos, correr e saltar com o braço para cima, imitando aquela pose do Pelé ao comemorar o gol.
Estamos patinando na paz, neste mundo com novas guerras. Vivemos numa economia perigosa, com juros de 15% há tanto tempo que o país não aguenta; é tão alto que atrai os investidores estrangeiros, que podem pegar empréstimos em seus países, com juros menores, para investir aqui – e ainda sair com lucro. Teremos eleições neste ano, mas o povão só quer saber dos destinos do país na Copa do Mundo. Parece que a massa já chutou o balde, afinal tudo muda para que nada se modifique de verdade.
Enquanto isso, o tempo consome os nossos dias e a velhice chega rápido. Precisamos, muito, de Drummond, para que possamos agir juvenilmente, para poder perceber a grandeza nas coisas miúdas, nos momentos de silêncio, no bater das asas das borboletas e da lição de superação das pedras do caminho, para se ter gana, liberdade, horizonte adiante, esperança e as coisas lindas que os poetas de verdade destilam em suas linhas abençoadas: vida.
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