Jornalista cronista, Araciana Macedo, bem vinda ao DM - créditos: criação por IA
31-05-2026 às 17h46
Araciara Macedo*
Existe uma categoria de mulher que deveria receber homenagem oficial da sociedade. Não medalha. Terapia mesmo.
É a mulher que trabalha, cuida da casa, cria filhos, resolve problema dos outros, corre atrás de notícia, administra boleto, lembra reunião, faz comida e ainda encontra tempo para sofrer acidentes completamente desnecessários dentro da própria casa.
Eu me chamo Araciara.
Sou jornalista.
E aparentemente também sou atleta profissional na modalidade “me machucar sozinha”.
Minha vida é basicamente uma mistura de redação de jornal com programa de humor pastelão.
Tem dias em que acordo determinada, organizada, pronta para vencer.
Cinco minutos depois já bati o dedinho na cama, derrubei café na roupa e quase caí tentando vestir a calça pulando num pé só.
E o pior é que ninguém leva a sério.
Outro dia apareci mancando na sala e perguntaram:
— “O que aconteceu?”
E eu respondi:
— “A mesa.”
Porque chega uma fase da vida da mulher em que os móveis da casa viram inimigos pessoais.
Eu tenho certeza de que existe uma conspiração silenciosa entre:
— quina da cama,
— porta de armário,
— cadeira fora do lugar,
— e fio de carregador.
Eles esperam a gente passar distraída.
E eu vivo distraída.
Principalmente porque minha cabeça funciona em 38 abas abertas ao mesmo tempo.
Enquanto estou escrevendo matéria, penso no almoço.
Enquanto faço almoço, lembro da roupa na máquina.
Enquanto tiro a roupa da máquina, lembro da pauta atrasada.
Enquanto resolvo a pauta, alguém grita:
— “Mãããããe!”
E mãe nunca é chamada para ouvir coisa simples.
Nunca.
É sempre:
— “O forno quebrou”
— “Tem comida?”
— “Chegou mais uma intimação”
— “A gata vomitou.”
A mulher adulta não vive.
Ela gerencia crises em tempo integral.
E no meio disso tudo ainda tentam vender aquela imagem da mulher elegante, plena e equilibrada.
Mentira.

Outro dia eu fui procurar meus óculos.
Passei quase meia hora procurando.
Revirei sofá.
Olhei cozinha.
Fui no banheiro.
Voltei irritada.
Até perceber que os óculos estavam na minha cabeça o tempo inteiro.
Em outro momento glorioso da minha carreira doméstica, coloquei o controle da central de ar dentro da geladeira.
A exaustão feminina é um estado espiritual.
E os machucados seguem acontecendo em níveis impressionantes.
Eu já:
— queimei o dedo fazendo café,
— bati a testa no armário,
— prendi cabelo na janela do carro,
— tropecei no próprio chinelo,
— levei susto do próprio reflexo,
— e quase caí porque tentei sair andando antes da cadeira terminar de levantar comigo.
Sem contar os roxos misteriosos.
Mulher adulta vive igual detetive:
— “De onde veio esse hematoma?”
Ninguém sabe.
Nem a ciência explica.
A verdade é que a gente vive tão no automático que o corpo vai acumulando provas físicas do cansaço.
E mesmo assim seguimos funcionando.
Seguimos cuidando de filhos.
Seguimos trabalhando.
Seguimos escrevendo.
Seguimos resolvendo tudo.
Mesmo cansadas.
Mesmo atrapalhadas.
Mesmo parecendo uma personagem de comédia tentando sobreviver à própria rotina.
Porque existe uma força silenciosa nas mulheres como eu.
A mulher que corre o dia inteiro, resolve mil problemas e ainda consegue rir de si mesma no fim do dia.
E talvez esse seja nosso maior talento:
continuar em pé…
mesmo depois de bater o joelho na quina da cama pela terceira vez na mesma semana.
Hoje eu já aceitei minha realidade.
Não sou desastrada.
Sou multitarefa em velocidade excessiva.
Mas, por segurança, acho prudente começar a usar capacete dentro de casa.
*Araciara Macedo é diretora de jornalismo do grupo de comunicação A Gazeta do Amapá


