23-05-2026 às 08h36
Gonzaga Medeiros*
Um homem já bem de idade pescava à beira do rio,
crente que pegaria peixe que só ele viu,
sem saber ele, sequer, que o rio morreu deitado,
desceu encachoeirado, caiu em pé no vazio.
Não sabia o velho homem que o rio só ainda corria
por conta de velha história e honra e fama e glória
que correram a cercania.
Assim maltrapilho, quase morto, não era o rio que andava.
Sua alma é que vagava correndo em busca do mar,
ou melhor, qualquer lugar, um refúgio onde pudesse
descansado se enterrar.
O homem já bem de idade que pescava à beira do rio,
com muita crença e desvelo ouviu um menino bem novo
tentando assim demovê-lo:
- ora, velho, se é sem água esse rio,
porque então o anzol jogado assim no vazio ?
E foi mais longe o menino, pregando ao pescador,
um homem já bem de idade.
Disse-lhe o pequeno pregador:
- se o rio vive é de água, por ela é que ele corre,
indo ao mar, onde deságua no balanço de sua rede.
Não tem água, então não corre, desidrata, se consome,
morre encharcado de sede e empanzinado de fome.
E o velho retrucou com esperança de menino:
- Menino, mas mesmo assim o rio ainda corre…
Foi quando ouviu-se – diz a lenda –
bem grave e mansa, nos arredores dali,
a voz do velho rio num severo desafio:
- Eu ainda estou aqui!

