Créditos: Divulgação
13-05-2026 às 08h29
Luís Carlos Silva Eiras*
Ao completar quatro anos, a guerra deixou de ser aquela narrativa apressada de vitória relâmpago, que Moscou ensaiou no início — uma espécie de blitzkrieg tardia, quase nostálgica, como quem tenta reeditar um clássico fora de catálogo — para se transformar em algo muito mais familiar e, por isso mesmo, mais incômodo: uma guerra de trincheiras. Não as trincheiras românticas da memória europeia, mas uma versão cibernética, onde o soldado não sabe se está sendo observado por um satélite, por um drone ou por um estagiário de inteligência artificial. O avanço, quando ocorre, mede-se em metros; o custo, em vidas; e a eficiência, nos gráficos dos algoritmos.
Os drones, esses pequenos arautos da modernidade, tornaram-se ao mesmo tempo olhos e carrascos. Pairam sobre o campo de batalha como uma consciência incômoda, tornando visível tudo aquilo que, em guerras passadas, dependia da sorte ou da neblina. Mísseis de precisão e robôs terrestres fazem o trabalho que antes exigia carne humana, e as redes eletrônicas — sempre discretas, como convém aos verdadeiros protagonistas — coordenam tudo com uma frieza que faria inveja a qualquer general prussiano.
Nesse novo teatro, certos velhos atores descobriram que já não são bem-vindos. Helicópteros de ataque, outrora símbolos de poder aéreo, passaram a frequentar a retaguarda, como aristocratas deslocados em uma república hostil. Tanques, esses gigantes de aço que durante décadas encarnaram a ideia de avanço irresistível, agora se movem com cautela, quase com pudor, reduzidos a coadjuvantes de luxo em um cenário dominado por drones baratos e mísseis oportunistas. No mar, a frota russa, antes senhora de Sebastopol, recuou diante de embarcações não tripuladas, que mais parecem improvisos engenhosos do que armas estratégicas — o que talvez seja precisamente o ponto.
Até mesmo as joias tecnológicas do Kremlin, os imbatíveis mísseis hipersônicos, sofreram o destino reservado a toda promessa exagerada: foram interceptados. Nada destrói mais rapidamente a aura de invencibilidade do que um bom sistema de defesa funcionando no momento certo. A aviação, por sua vez, optou pela prudência, lançando mísseis à distância segura, como quem prefere discutir à distância em vez de se envolver em um debate presencial potencialmente fatal.
Se a tecnologia trouxe novidades, a geopolítica tratou de preservar certos hábitos antigos. A introdução de tropas norte-coreanas no conflito — cerca de 14 mil homens — foi inicialmente recebida como um sinal de força, mas logo revelou-se um sintoma de outra coisa: escassez. As perdas, estimadas em milhares, e o uso dessas tropas como material descartável compõem um quadro, que seria escandaloso em qualquer país onde o escândalo fosse permitido. Em um raro momento de teatralidade sincera ou cuidadosamente ensaiada, Kim Jong-un apareceu chorando em funerais — gesto que, dependendo do observador, pode ser lido como humanidade ou teatro de um canastrão cínico.
Enquanto isso, as narrativas — sempre tão importantes em tempos de guerra — começaram a desbotar. A ideia de “desnazificação”, útil no início como peça de consumo interno e argumento de exportação acadêmica, perdeu vigor diante de um fato inconveniente: o presidente ucraniano é judeu e não correspondeu ao papel que lhe foi atribuído pelos adoradores acadêmicos de Putin. A tese de uma invasão preventiva contra a OTAN seguiu destino semelhante, especialmente após a expansão da própria OTAN, que avançou não por ameaça iminente, mas por reação ao conflito. Como tantas explicações grandiosas, essas narrativas não resistiram ao teste mais simples: o da realidade persistente.
Outros elementos desapareceram com igual discrição. Os famosos comboios de dezenas de quilômetros, que no início da guerra pareciam anunciar um avanço irresistível, tornaram-se relíquias de um tempo em que ainda era possível concentrar forças sem ser imediatamente detectadas — e destruídas. Tropas de elite foram rebaixadas à condição de infantaria comum. O Grupo Wagner perdeu sua autonomia após a morte de seu líder. E até mesmo as criptomoedas, outrora vistas como uma rota de fuga elegante para as sanções, mostraram-se menos revolucionárias do que seus entusiastas gostariam.
Se há um campo em que a inovação floresceu com vigor quase empresarial, foi o dos ataques à infraestrutura energética russa. Desde 2024, a Ucrânia conduz uma campanha metódica contra refinarias, depósitos e terminais de exportação. O objetivo é tão simples quanto eficaz: cortar combustível e dinheiro. Em certos momentos, entre 20% e 40% da capacidade de refino russa ficou fora de operação. Portos estratégicos registraram quedas abruptas nas exportações, e as perdas chegaram a cifras semanais bilionárias. Moscou, pragmática, respondeu com restrições às exportações de gasolina — uma medida que, embora necessária, revela o grau de pressão.
Essa campanha só é possível graças a uma constelação de engenhocas tecnológicas com nomes quase domésticos — Liutyi, Bober, Malyuk — que, juntas, conseguem atingir alvos a milhares de quilômetros dentro da Rússia. A lógica é engenhosa: drones maiores esgotam as defesas, enquanto outros, mais precisos, atacam os pontos críticos. Refinarias, afinal, são como relógios: basta danificar a engrenagem certa para parar o mecanismo inteiro.
E então chegamos ao ponto mais curioso de todos. Em 2026, a Ucrânia, antes dependente de ajuda externa, começa a se comportar como exportadora de tecnologia militar. Com uma capacidade produtiva estimada em US$ 55 bilhões, o país passou a vender sistemas testados em combate para parceiros que vão do Golfo à Europa. Drones, sistemas de guerra eletrônica, soluções anti-drone — tudo com o selo implícito de eficácia prática. A guerra, nesse sentido, não apenas destrói; ela também produz, inova e, com certo cinismo inevitável, exporta.
No fim das contas, o conflito ucraniano tornou-se uma espécie de síntese improvável: a brutalidade física de 1914 combinada com a precisão tecnológica de 2026. A massa cedeu lugar à informação; o heroísmo, à persistência; e a vitória rápida, a um desgaste prolongado que parece não ter pressa em terminar. Se há uma lição — e guerras sempre gostam de oferecer lições, ainda que ninguém as peça — é que a modernidade não aboliu o passado. Apenas lhe deu novas ferramentas e, com isso, novas formas de insistir.
(*) Luís Carlos Silva Eiras é escritor.

