Créditos: Divulgação
12-03-2026 às 08h27
Alberto Sena*
Ouvi durante uma hora, seis minutos e 56 segundos a entrevista que o professor João Batista dos Mares Guia fez com Ucho Ribeiro, montes-clarino de cepa, em São Gonçalo do Rio Preto, município no Vale do Jequitinhonha, a cerca de 350 quilômetros de Belo Horizonte e 53 da gloriosa Diamantina.
O Batista é professor de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e deu mostras de entrevistador por excelência, daqueles que enriquecem a conversação, e no caso desta às vezes ganha conotação de palestra.
Poderia ficar a ouvir por até mais tempo, se a entrevista perdurasse, na minha condição de um esfomeado vendo através de vitrine pratos deliciosos expostos, e como me achava do lado de fora, babava de vontade, comendo com os olhos.
Foi a sensação que senti enquanto ouvia as conversas, vendo ao fundo a paisagem pela qual a minha alma suspira de vontade de fazer parte dela. Se Deus quiser, faremos.
Depois de tudo vivido até aqui, aos não sei quantos anos de idade, Ucho, a exemplo do guerreiro quando alcança um grau maior de consciência do que foi vivido e é chegada a hora de viver em um universo diferente do nosso, aqui, na grande cidade e lá onde as bombas são explodias e vidas humanas voam pelos ares para satisfazer a sanha consumista de governantes nada escrupulosos.
Ucho regula comigo pelo menos em termos de formação, em Montes Claros, onde nasceu, filho de grande amigo, Mário Ribeiro da Silveira, irmão do mestre Darcy Ribeiro, que a sociedade dos empresários do aço não o deixou lançar em Minas Gerais a receita para desasnar gente humana, os famosos Cieps – Centros Integrados de Ensino Público e Social.
Ucho, quando criança, pisava a terra com os pés descalços como fazíamos nós também na infância, enquanto jogávamos bolinha de gude e finca no período das águas. Ele lembrou que, na Montes Claros dele, que é a mesma minha, tinha preservadas Festas de Agosto, que eram na verdade para comemorar a produção, como se dissessem “os celeiros estão cheios”.
Era então o tempo de ouvir o batuque dos catopês, com as suas roupas brancas e faixas multicoloridas presas ao capacete (cocar) e esvoaçantes de acordo com os movimentos de dança e dos ventos. Ventos de agosto, tempo de empinar papagaios e de irradiar a alegria de viver da meninice.
Ele nadou no Ribeirão Vieira, que ainda era limpo e passava no fundo do quintal da casa onde vivi com a minha família, na Rua Marechal Deodoro. Tomávamos banho nele e o atravessávamos pendurado em cipó, assim como ele fazia, lá pelos lados da Santa Casa, quando ainda era de “Misericórdia”.
Ucho viveu a vida exercendo atividades variadas, tendo até cuidado de uma pedreira, no Vale de Jaíba e por isso até dá a mão à palmatória, porque andou promovendo desmate à base de correntes. Mas, em compensação, há muito, e hoje em dia mais ainda, ele diz ser incapaz de quebrar sequer um galho de árvore. Defende a preservação das matas e principalmente do nosso Cerrado.
Não é o caso de retratar aqui todo o teor da entrevista porque é longa, entretanto, considero de grande valia dizer que se pôde perceber entre o entrevistador e Ucho uma aproximação fraterna, e posso dizer, isso é um privilégio, considerando a baixa qualidade das relações humanas nos dias atuais.
(São Gonçalo do Rio Preto é um lugar calmo, com 3.032 habitantes (IBGE 2022). Lá são realizadas as Festas do Divino, com a marujada.).
Vídeo completo no link: https://m.youtube.com/watch?v=qKQivXXfDcY&pp=iggCQAE=
Canal do YouTube: João Batista dos Mares Guia

