Créditos: Divulgação
02-02-2026 às 08h00
Ílder Miranda Costa*
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Quem conviveu de perto com o revolucionário ideal, o revolucionário tipo, sabe que ele, ávido por conquistar e manter o poder a qualquer custo, sonha em criar realidades paralelas, disseminar falsidades por meio de propaganda, distorcer fatos e falsificar a História. Vê a mentira não como desvio, mas como método revolucionário e missão de vida, nos seguintes termos: acordar hoje e tentar ser mais ardiloso do que ontem, amanhã mais do que hoje, e assim por diante, o ano inteiro, em agitação social sistemática e desfiguração desenfreada dos assuntos políticos.
Partindo dessa premissa e apoiando-se em dados deliberadamente adulterados, pressupostos propositadamente desonestos e teorias apresentadas de forma conscientemente inescrupulosa, ele brinca de perturbar corações e mentes, desmoralizar oponentes e enganar povos. Ao faz de conta dá o nome de práxis.
Observe-o enquanto dorme. Impulsionado por tremores inconfundíveis e descargas de rebeldia, seu corpo anima-se. Está sonhando. E, no sonho, ele é a chama bruxuleante que, enquanto ronca e faz ruídos, ilumina o caminho das hordas revolucionárias.
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Por essas e outras, Nicolás e Cilia foram retirados de seu quarto de casal. Ainda não haviam despertado e já estavam presos.
Nicolás sonhava com o turpial, a ave nacional da República Bolivariana da Venezuela. Na República Federativa do Brasil, Lula e Janja estariam sonhando com o sabiá-laranjeira.
Em seu sonho, maravilhado com a beleza selvagem do turpial, Nicolás interpretou-a como alegoria e perguntou à besta: “Ó Revolução, serão minhas mãos as que delinearão a feroz simetria do Golpe Final que levará o socialismo às nações?”
Graças a laços telepáticos inerentes a homens e mulheres que dormem na mesma cama há, pelo menos, uma década, Cilia teve o mesmo sonho. E, da mesma forma: “Ó Revolução, será de meu marido a mão a empunhar o martelo que desferirá o Golpe Final?”
Foram acordados no momento em que, sonhando juntos a mesma cena, diante do diabo, oravam, ao mesmo tempo: “´Ó Revolução, guia a mão deste homem!”
Diante da “tropa de elite” do exército dos EUA[1], ficaram em silêncio.
Atônitos, perguntaram-se se o turpial emergiu do passado, representando um retorno do recalcado, uma recordação daquilo que, até então, permanecera clandestino no inconsciente. Ou se estaria o turpial ligado a um mito, a alguma profecia, quem sabe. Se assim fosse, seria urgente a análise disso, que alguma providência fosse tomada, mas perceberam que era tarde demais: imersos no drama daqueles que não conseguem dormir, despojava-se deles qualquer resquício de vida privada.
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Alguns classificam os eventos do Três de Janeiro como “ataque”[2], “invasão”[3], “ofensiva”[4] etc., mas a ação norte-americana em território venezuelano constitui uso de força militar em terras estrangeiras com o objetivo de encerrar violação de direitos humanos.
Intervenção humanitária legitimada por parecer do Tribunal Superior Eleitoral, segundo o qual “voto é caminho para assegurar o que dispõe a Declaração Universal dos Direitos Humanos”[5]. O TSE refere-se à DUDH/1948, cujo art. 21, § 3º, dispõe que “a vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas.”[6].
Ora, a eleição em que Nicolás se reelegeu é desonesta porque não seguiu o rito eleitoral. E, tal como Lula previu, em agosto de 2024: “Ele que arque com as consequências de seus atos.”[7] Naquela oportunidade, Lula recorreu ao teatro. Primeiro, apresentou-se à audiência como porta-voz de Nicolás: “Ele fala que ganhou.” Em seguida, numa fração de segundo, fez como se estivesse em Miraflores ou no Forte Tiuna: “Mas você não tem prova.”
4 Mas existe outro elo entre Lula e a quimera chavista que, em seus sonhos mais íntimos, lhe aparece cuspindo fogo na barba; a saber:
[1] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/03/maduro-foi-capturado-por-tropa-de-elite-do-exercito-dos-eua-diz-rede-de-tv.ghtml
[2] CNN (https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/trump-amplia-ameacas-apos-ataque-na-venezuela-veja-paises-na-mira/), Gazeta do Povo (https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/ataque-a-venezuela-e-precedente-extremamente-perigoso-dizem-brasil-e-mais-5-paises/), SBT News (https://sbtnews.sbt.com.br/videos/trump-confirma-ataque-dos-eua-na-venezuela-governo-local-nega)
[3] Brasil 247 (https://www.brasil247.com/blog/trump-invade-a-venezuela-para-roubar-seu-petroleo-e-saquear-suas-riquezas), Folha de São Paulo (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/01/do-inicio-dos-ataques-a-discuros-de-resistencia-veja-momentos-da-invasao-dos-eua-a-venezuela.shtml), G1 (https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2026/01/03/venezuela-invadida-por-trump-e-a-deposicao-de-maduro-o-assunto-1631.ghtml), Poder 360 (https://www.poder360.com.br/poder-brasil/saiba-quem-no-brasil-apoiou-e-foi-contra-a-invasao-dos-eua-a-venezuela/)
[4] Estadão (https://www.estadao.com.br/economia/fabio-alves/trump-e-o-risco-politico-subestimado-nos-cenarios-dos-investidores-para-2026/?srsltid=AfmBOopAT27TdxzEiJZ4STmjc-oCZwWHN-wMRJkcEeORuNOCXU_bNoKV)
[5] https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Dezembro/voto-e-caminho-para-assegurar-o-que-dispoe-a-declaracao-universal-dos-direitos-humanos
[6] DUDH/1948, art. 21, § 3º: A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto. https://www.oas.org/dil/port/1948%20Declara%C3%A7%C3%A3o%20Universal%20dos%20Direitos%20Humanos.pdf
[7] https://www.youtube.com/watch?v=9W_vA33unDg
“No início de 2015, (…) Leamsy Salazar, um capitão de corveta da Marinha venezuelana, recém exilado nos Estados Unidos, declarou às autoridades americanas ter presenciado, em 2013, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Diosdado Cabello, despachar quatro lanchas de cocaína a partir de uma praia localizada na Península Paraguana, porção do território venezuelano que avança pelo Mar do Caribe. Salazar afirmou ter visto o general Hugo Carvajal, diretor da inteligência militar, conhecido pelo apelido de El Pollo (O Frango), recepcionar Cabello no local de envio da cocaína.”[1]
“Em junho de 2015, José David e seu irmão mais velho, Diosdado, visitaram o Brasil a convite da maior indústria de carnes do país e principal fornecedora da Venezuela, a JBS Friboi. Ciceroneados pelo presidente do Conselho da companhia, Joesley Batista, os irmãos Cabello foram recebidos duas vezes pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sede do instituto que leva seu nome, em São Paulo. E embora não tivessem comunicado sua presença ao Itamaraty ou sequer marcado previamente, conseguiram ‘furar’ a agenda das principais autoridades da política nacional e foram recebidos pela presidente Dilma Rousseff, pelo vice-presidente Michel Temer, e pelo presidente do Congresso, o senador Renan Calheiros. (…) o périplo dos irmãos Cabello tinha um objetivo estratégico. Por causa das afinidades com o governo brasileiro, eles escolheram o país como laboratório para verificar se os americanos apresentariam alguma ordem internacional de captura. Eles sabiam que em um país amigo as chances de uma prisão seriam remotas. A estratégia de José David e Diosdado Cabello tinha um fundamento. Onze meses antes, Hugo Carvajal – uma das principais peças do chavismo no âmbito da Inteligência e da espionagem, e considerado um dos mais importantes operadores da rede de narcotráfico na Venezuela – havia passado pelo constrangimento de ser preso em Aruba, em cumprimento a uma ordem de captura expedida pelos Estados Unidos, onde fora indiciado por narcotráfico pela Justiça.”[2]
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Seja pela tolerância com tráfico de cocaína, seja por crime eleitoral, as consequências previstas por Lula chegaram no Três de Janeiro. Lula lamentou[3], reivindicou posse sobre o hemisfério que “pertence a todos nós”[4] e se disse “indignado”[5] Não há contradição entre o “que arque com as consequências” de 2024 e a lamentação etc. pelo Três de Janeiro, porque o neopositivismo e a filosofia linguística, que permeiam o uso da linguagem por qualquer revolucionário, demarcam fronteira entre o que se fala para não fazer sentido e o que se diz em troca de algum significado.
[1] COUTINHO, Leonardo. Hugo Chávez, o espectro: como o presidente venezuelano alimentou o narcotráfico, financiou o terrorismo e promoveu a desordem global. São Paulo: Vestígio, 2018, p. 60.
[2] COUTINHO, Leonardo. Hugo Chávez, o espectro: como o presidente venezuelano alimentou o narcotráfico, financiou o terrorismo e promoveu a desordem global. São Paulo: Vestígio, 2018, p. 62-63.
[3] Lula classifica prisão de Maduro como ‘lamentável’: aliado histórico do ditador, o petista acredita que intervenção dos EUA na Venezuela é ‘extremamente preocupante’. https://revistaoeste.com/politica/lula-classifica-prisao-de-maduro-como-lamentavel/
[4] Lula critica ação dos EUA na Venezuela e diz que “este hemisfério pertence a todos nós”: em artigo publicado no New York Times, presidente da República afirma que ataques e prisão de Nicolás Maduro violam o direito internacional e ameaçam a estabilidade global. https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/01/18/lula-artigo-eua-venezuela-nyt.ghtml
[5] Lula diz estar “indignado” com captura de Maduro pelos EUA: presidente reforçou que a América do Sul é um território de paz, que não possui armas nucleares. https://www.cnnbrasil.com.br/politica/america-do-sul-nao-abaixara-cabeca-pra-ninguem-diz-lula-ao-citar-venezuela/
“Consequências” é um exemplo de Lula falando para não fazer sentido. O termo é tratado como impureza metafísica pela ala iluminista da esquerda latino-americana. A esses ouvidos, Lula é um mestre das palavras da tribo, da linguagem ordinária, carregada de influências espúrias. Mas não passa disto; seu discurso precisa ser filtrado para ser compreendido.
Ao final da filtragem, separada a fração irracional do discurso lulista da porção razoável de sua fala, o “arque com as consequências” aparece restaurado e, asceticamente, claro: “este hemisfério pertence a todos nós”. Esse “nós” é para bom entendedor.
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Não cabia a Nicolás arcar com consequências. A intenção do “ele que arque com as consequências” nunca foi esta.
Em 2024, Lula não denunciou crime eleitoral; para ele, o crime consumou-se, tanto que “era importante convocar novas eleições”[1]. Em 2024, Lula quis, apenas, definir o tratamento a ser dado ao criminoso, lembrando que “as pessoas, de certo modo, são classificadas em vulgares e invulgares” [2].
“Os vulgares têm de ser obedientes e não têm o direito de transgredir a lei”; servem “unicamente para engendrar semelhantes”; são, em geral, “pessoas conservadoras por natureza, corretas, que vivem na obediência e gostam de ser obedientes” e “têm a obrigação de ser obedientes, porque é esse o destino delas”.
“Os invulgares, por seu lado, têm o direito de cometer crimes e transgredir a lei de todas as maneiras e feitos”[3]; são os “destruidores ou têm propensão para o serem”. “Os crimes destas pessoas, evidentemente, são relativos e muito variados; na maioria dos casos exigem de diferentes maneiras a destruição do presente em nome da ideia do melhor.”[4]
Os vulgares conservam o mundo e multiplicam-no numericamente; os invulgares movimentam o mundo e levam-no até um objetivo; a primeira categoria é sempre senhora do presente e a segunda do futuro; ambas as categorias têm o direito absolutamente igual de existir.[5]
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Apesar dessas sutilezas, Nicolás e Cilia estão presos no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn em Nova York, “descrito como ‘o inferno na Terra’ por ex-detentos”[6].
Em defesa do casal, Lula alegou que a “intervenção dos EUA na Venezuela é ‘extremamente preocupante’ ”. Além disso, fez publicar que, em sua opinião, “ataques e prisão de Nicolás Maduro violam o direito internacional e ameaçam a estabilidade global”.
[1] https://www.youtube.com/watch?v=9W_vA33unDg
[2] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime de castigo. Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra. Lisboa: Editorial Presença, 2001, p. 331-332.
[3] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime de castigo. Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra. Lisboa: Editorial Presença, 2001, p. 336.
[4] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime de castigo. Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra. Lisboa: Editorial Presença, 2001, p. 337.
[5] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime de castigo. Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra. Lisboa: Editorial Presença, 2001, p. 338.
[6] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2026/02/01/maduro-cumpre-um-mes-preso-em-meio-a-disputa-por-imunidade.htm
*Ilder Miranda é Professor

