SUVs, porque tê-los ou não? créditos: divulgação
21-06-2026 às 13h50
Roberto Morais (*)
Quem acompanha o mundo dos automóveis no Brasil há algum tempo (54 anos) já se acostumou a ver modas. Moda dos sedans, dos hatches, das peruas, e agora chegou a moda dos suvs. Vamos tentar analisar o porquê.
As cidades estão, a cada dia que passa, com menos espaços para a locomoção dos veículos. Vendeu-se muito automóvel na época do pleno emprego – 2010/2015 – e tornou-se impossível que as vias públicas fossem ampliadas na mesma velocidade e proporção. Se os espaços estão escassos e, portanto, a mobilidade dificultada, por que tanto suv, cujas vendas representam, nos dias de hoje, mais da metade de toda a frota comercializada de automóveis?
Carros vocacionados para famílias grandes, coisa incomum hoje em dia, e que raramente se locomove reunida. A família média brasileira é composta por 3,3 pessoas e a ocupação média de um auto é de 1,3 ocupantes, portanto, a lógica do mercado seria cada vez mais carros menores nas ruas, e não, o contrário. E com famílias cada vez menores, qual o nexo para justificar esse boom dos suvs?
Lucratividade e empoderamento. As montadoras focaram seus departamentos de marketing neles, que, agregando mais recursos, justificam preços mais altos e margens melhores de lucro. Num mercado de mais de 1 milhão de unidades comercializadas em 2025, estamos falando de algo em torno de 30 bilhões de reais por ano, descontados os impostos. Não é pouco. Assim, as montadoras resolveram que doravante (e esse doravante já dura alguns anos), os queridinhos do mercado são os Sport Utility Vehicles – Veículos Utilitários Esportivos.
Já o empoderamento é um fenômeno mais recente. É sabido, no universo dos automóveis (basta dar uma voltinha em qualquer centro urbano brasileiro), que os veículos maiores tendem a impor uma certa “autoridade” quando em disputa por espaços nas vias públicas. Autoridade, segundo os dicionários, significa domínio, poder (olha o empoderamento aí), e nas vias públicas urbanas, o porte dos suvs lhes confere esse suposto poder. Pesquisas também mostram que a característica mais valorizada entre os compradores de suvs é a alta posição do condutor, em comparação aos outros veículos. Ora, se estou por cima, estou poderoso, estou bem.
As consequências para o cidadão comum é que o trânsito nas cidades só tende a piorar, pois um olhar mais atento enxerga o que significa empoderamento no trânsito brasileiro: menos gentileza, maior acirramento nas disputas por espaços, tendência por mais transgressões – alimentadas pelo anonimato proporcionado por películas proibidas –, confrontamento sem medo por conta do maior tamanho desses veículos, etc. etc. e etecétera.
Entendo que um maior nº de suvs nas ruas é nocivo para se alcançar um melhor padrão de civilidade em nosso trânsito. Polêmico, controverso. Tem como mudar?
Tem, mas isso implicaria em mexer com interesses muito poderosos (mudanças no CTB, nas fiscalizações e até nos exames práticos de direção veicular). Pensando bem, melhor comprar ou alugar uma patinete, a nova onda que está chegando. De capacete…
(*) Roberto Morais é auxiliar técnico de Mecânica de automóveis, ex piloto de kart, formado no Curso De Pilotagem Marazzi (SP), graduado em Educação e Segurança de trânsito pela Universidade Cândido Mende, ex professor de Instrutor de Autoescola, ex professor teórico e de prática de direção de autoescola, ex professor de moto-taxistas e ex professor de Legislação de Trânsito e Direção Defensiva nos cursos de Psicólogo Perito e Psicologia Aplicada ao Trânsito.

