Área desmatada ao lado de plantação de eucaliptos na região de Setubinha (MG), cidade do Vale do Jequitinhonha créditos: divulgação
08-06-2026 às 17h12
Por Soelson Araújo*
Há perguntas que uma sociedade madura precisa fazer, mesmo quando as respostas são incômodas.
Uma delas é: quanto custa recuperar um território transformado durante mais de meio século por um modelo de exploração econômica baseado na substituição da vegetação nativa por extensas áreas de monocultura?
No Alto Jequitinhonha, essa pergunta deixou de ser apenas ambiental. Ela passou a envolver água, agricultura familiar, comunidades tradicionais, biodiversidade e o próprio futuro de centenas de comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais da região.
A chegada da silvicultura industrial ao território mineiro, a partir da década de 1970, foi apresentada como uma alternativa de desenvolvimento. O eucalipto trouxe investimentos, movimentou a economia, criou empregos e fortaleceu uma cadeia produtiva ligada à siderurgia.
Mas todo modelo econômico deixa marcas.
E a marca ambiental dessa transformação ainda é objeto de intenso debate entre pesquisadores, comunidades e instituições que estudam o território.
As chapadas do Alto Jequitinhonha sempre tiveram uma importância estratégica para o equilíbrio hídrico regional. Esses ambientes funcionam como áreas de infiltração e armazenamento de água, alimentando nascentes e cursos d’água.
Estudos desenvolvidos por pesquisadores e instituições como o Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV), a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e a Universidade Federal de Viçosa (UFV) levantam preocupações sobre os efeitos da substituição de grandes áreas de Cerrado por monoculturas florestais, especialmente em relação à disponibilidade hídrica, biodiversidade e funcionamento dos ecossistemas.
A ciência demonstra que a relação entre eucalipto e água não pode ser reduzida a uma explicação única. O resultado depende de fatores como clima, solo, localização dos plantios, manejo adotado e condições ambientais de cada área.
Mas uma realidade é impossível de ignorar: a paisagem mudou.
Onde antes havia extensas áreas de Cerrado, hoje existem grandes maciços florestais homogêneos. Essa mudança alterou a relação entre sociedade e natureza e trouxe para o centro do debate a necessidade de recuperação ambiental.
É nesse cenário que a Fundação Aperam Acesita apresenta mais uma edição de seu edital ambiental, com inscrições abertas até 31 de julho, destinado ao financiamento de projetos socioambientais nos municípios de sua área de atuação.
O edital contempla iniciativas voltadas para recursos hídricos e uso da água, educação ambiental, reciclagem e gestão de resíduos sólidos, proteção da fauna e da flora e energia sustentável. Ao todo, serão destinados pouco mais de R$ 1 milhão para apoiar 51 projetos.
São iniciativas importantes.
Projetos de recuperação ambiental, educação ecológica e fortalecimento comunitário têm valor e precisam ser reconhecidos. O apoio financeiro permite que organizações e comunidades desenvolvam ações concretas em defesa do meio ambiente.
Porém, diante de um território marcado por mais de cinco décadas de profundas transformações na paisagem, surge uma reflexão necessária: pouco mais de R$ 1 milhão distribuído entre 51 projetos representa uma resposta proporcional à dimensão dos desafios ambientais acumulados?
Quando dividido entre as iniciativas selecionadas, o recurso médio por projeto revela uma escala limitada diante de demandas como recuperação de nascentes, restauração de áreas degradadas, proteção da biodiversidade e fortalecimento da segurança hídrica de comunidades que convivem há décadas com os efeitos das mudanças no território.
A discussão não é sobre a importância do edital, que representa uma contribuição positiva. A questão central é se investimentos dessa magnitude são suficientes para enfrentar um passivo ambiental construído ao longo de décadas e que envolve grandes extensões territoriais.
A Aperam é uma empresa global, com atuação em mercados internacionais e receitas bilionárias. Ao mesmo tempo, os territórios onde sua cadeia produtiva está instalada enfrentam desafios ambientais que exigem ações permanentes, amplas e proporcionais à escala das transformações ocorridas.
A pergunta que permanece é:
Quanto vale reparar aquilo que a natureza levou milhares de anos para construir?
A resposta não estará apenas no valor de um edital, mas na capacidade de transformar compromissos ambientais em resultados concretos para o território.
A dimensão desses investimentos corresponde ao tamanho do desafio ambiental existente?
Essa é uma discussão legítima.
A Aperam é uma empresa global, com atuação em mercados internacionais e receitas bilionárias. Ao mesmo tempo, os territórios onde sua cadeia produtiva está instalada enfrentam desafios ambientais que exigem ações de longo prazo.
Quando se compara a capacidade econômica de uma grande corporação com os recursos destinados a projetos ambientais específicos, surge uma reflexão inevitável: qual deveria ser a escala adequada de investimento para recuperar áreas degradadas, proteger nascentes e reconstruir serviços ambientais perdidos ao longo das décadas?
Essa pergunta não significa negar a importância econômica da atividade florestal. Significa defender que grandes empreendimentos precisam ser avaliados também pelo legado que deixam.
O verdadeiro conceito de sustentabilidade não pode estar limitado a relatórios, certificações ou campanhas institucionais. Ele precisa ser medido no território.
Uma nascente recuperada.
Um córrego que volta a correr.
Uma área de Cerrado restaurada.
Uma comunidade que recupera sua segurança hídrica.
O Alto Jequitinhonha não precisa escolher entre desenvolvimento e meio ambiente. Precisa construir um modelo onde a riqueza produzida seja acompanhada de uma responsabilidade ambiental proporcional aos impactos gerados.
Depois de cinquenta anos de profundas transformações, a pergunta continua aberta:
Quanto vale reparar aquilo que a natureza levou milhares de anos para construir?
A resposta será dada não apenas pelos valores de um edital, mas pela capacidade de transformar compromissos ambientais em resultados concretos para o território.
Porque o futuro do Alto Jequitinhonha será definido pela forma como a geração atual decidir enfrentar essa dívida ambiental.
*Soelson B. Araújo é jornalista, escritor

