08-10-2026 às 10h40
Por Samuel Arruda*
Brasília — O resultado do primeiro turno da eleição presidencial de 2026 obrigou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a mudar o tom e a estratégia da campanha. Pela primeira vez na disputa, o presidente chegou à segunda rodada atrás de Flávio Bolsonaro (PL), que terminou a primeira etapa com cerca de 47% dos votos válidos, contra aproximadamente 45% de Lula. A diferença, embora relativamente pequena, transforma o segundo turno em uma disputa de recuperação, na qual cada segmento do eleitorado pode ser decisivo.
A própria campanha petista reconheceu problemas no primeiro turno. Lula classificou a campanha como uma das menos organizadas de sua trajetória e apontou falhas de comunicação e coordenação. Agora, o desafio é transformar o segundo turno em uma eleição completamente diferente, com apenas dois candidatos e uma quantidade muito maior de votos disponíveis entre eleitores que escolheram outros nomes ou sequer compareceram às urnas.
Buscar os votos de quem ficou pelo caminho
Uma das principais frentes da campanha será conquistar os eleitores dos candidatos eliminados no primeiro turno. Cerca de 7,8% dos votos válidos foram destinados a outros candidatos, formando um contingente que pode decidir a eleição.
Lula deverá tentar construir pontes com setores de centro e centro-direita, além de governadores e lideranças de partidos como PSD e MDB. A campanha já identificou lideranças estaduais que podem desempenhar papel importante nessa aproximação. A estratégia é combinar alianças políticas com uma mensagem capaz de convencer eleitores que não necessariamente se identificam com o PT, mas que podem considerar Lula a opção mais segura para o país.
O movimento, porém, tem uma dificuldade: boa parte dos votos que estarão disponíveis no segundo turno veio de candidatos posicionados à direita de Lula. Isso exige uma campanha menos ideológica e mais concentrada em temas capazes de dialogar com o eleitor moderado.
Reduzir a abstenção vira prioridade
Outro alvo estratégico será o eleitor que não votou no primeiro turno. A abstenção chegou a aproximadamente 33,4 milhões de pessoas, e o Nordeste, região historicamente favorável a Lula, registrou cerca de 8 milhões de ausências.
A situação é particularmente importante porque a abstenção não se distribui de maneira uniforme entre os grupos sociais. Historicamente, eleitores de menor renda e escolaridade — segmentos nos quais Lula costuma ter maior vantagem — apresentam índices elevados de não comparecimento.
Por isso, a campanha deverá combinar mobilização política com uma comunicação mais direta: convencer o eleitor de que não basta preferir Lula; é necessário comparecer às urnas.
Segurança pública e economia entram no centro da disputa
O primeiro turno também mostrou que Lula precisa enfrentar áreas nas quais Flávio Bolsonaro apresenta vantagem junto ao eleitorado.
Pesquisas realizadas antes da votação já indicavam que Flávio tinha desempenho superior ao petista em temas como segurança pública, combate ao crime organizado e controle da inflação. Lula, por outro lado, apresentava vantagens mais claras em áreas como redução da desigualdade, educação, saúde e direitos das mulheres.
A tendência, portanto, é que a campanha petista amplie a presença de Lula em temas econômicos e de segurança, procurando evitar que esses assuntos permaneçam como territórios exclusivos do adversário.
Nesse cenário, a proposta de mudança na escala de trabalho 6×1, políticas de renda e emprego e a defesa de medidas para melhorar o poder de compra podem ganhar espaço na propaganda eleitoral. Ao mesmo tempo, Lula terá de apresentar respostas mais objetivas para a criminalidade e para a sensação de insegurança que influencia parcela significativa do eleitorado.
A aposta na comparação com Flávio Bolsonaro
Outra estratégia será transformar a eleição em uma escolha entre dois projetos de país. Lula já começou a explorar a ideia de que uma eventual vitória de Flávio representaria a continuidade e a ampliação da presença da família Bolsonaro no poder.
O discurso permite ao petista tentar recuperar parte do eleitorado que rejeita o bolsonarismo, mesmo quando esse eleitor não demonstra entusiasmo pelo governo.
A dificuldade será fazer essa estratégia sem transformar a campanha exclusivamente em uma disputa de rejeições. Para conquistar os indecisos, Lula também precisará apresentar razões positivas para um novo mandato.
Comunicação terá papel decisivo
A campanha reconheceu que a comunicação foi um dos pontos frágeis do primeiro turno. Houve críticas à falta de coordenação entre os diferentes núcleos responsáveis pela comunicação e à demora para reagir a ataques dos adversários.
No segundo turno, a tendência é de uma atuação mais centralizada e agressiva. Lula deverá ampliar sua presença em entrevistas, redes sociais, debates e eventos públicos, buscando falar diretamente com segmentos específicos do eleitorado.
A experiência do primeiro turno mostrou também que a disputa digital não pode ser tratada como uma frente secundária. A campanha já havia aumentado a presença nas redes e buscado aproximação com públicos jovens. Agora, esse esforço deverá ganhar ainda mais importância.
O novo discurso sobre o STF
Uma mudança particularmente significativa apareceu depois do primeiro turno: setores da campanha petista passaram a defender uma postura mais crítica em relação ao Supremo Tribunal Federal.
Lula e dirigentes do PT sinalizaram a intenção de discutir mudanças no sistema de indicação de ministros da Corte. A iniciativa representa uma mudança de tom e mostra que a campanha está tentando responder a uma percepção de desgaste do governo em determinados segmentos do eleitorado.
A estratégia, entretanto, envolve riscos. Ao tentar alcançar eleitores de centro e direita, Lula poderá ganhar espaço em alguns setores, mas também terá de evitar que a mudança de discurso provoque desconforto entre sua própria base política.
Sudeste é o principal campo de batalha
O mapa eleitoral do primeiro turno aumenta a pressão sobre o PT no Sudeste. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro concentram grande quantidade de eleitores e apresentaram dificuldades para Lula. Ao mesmo tempo, esses estados também registraram níveis elevados de abstenção.
A campanha terá, portanto, de trabalhar em duas frentes: reduzir a vantagem de Flávio entre os eleitores que comparecerem e estimular a participação de eleitores que tradicionalmente votam em Lula.
Minas Gerais aparece especialmente importante nesse cálculo. O estado, historicamente considerado um termômetro eleitoral, pode assumir papel decisivo na definição da maioria nacional.
Uma eleição que começa novamente
Apesar da desvantagem inicial, o resultado do primeiro turno não determina o vencedor. O segundo turno cria uma disputa diferente: os candidatos precisam ampliar suas bases, enquanto os eleitores que escolheram outros nomes são obrigados a fazer uma nova escolha.
Para Lula, a equação passa por pelo menos cinco movimentos: conquistar parte dos votos da terceira via, reduzir a abstenção, recuperar terreno no Sudeste, melhorar a comunicação e diminuir a rejeição ao governo.
A margem estreita registrada no primeiro turno permite ao presidente acreditar em uma reação, mas também mostra que não haverá espaço para erros. A campanha terá poucas semanas para transformar uma posição de desvantagem em maioria absoluta.
Mais do que repetir a estratégia utilizada na primeira etapa, Lula terá de convencer o eleitor de que o segundo turno não é apenas uma escolha entre dois candidatos, mas uma decisão sobre o rumo político e econômico do país nos próximos quatro anos.
A vantagem de Flávio Bolsonaro, portanto, representa menos uma sentença definitiva do que um sinal de alerta para o PT. A eleição entra agora em uma nova fase — e, nela, capacidade de mobilização, alianças políticas, comunicação e rejeição dos adversários poderão pesar tanto quanto os votos conquistados no primeiro turno.
*Samuel Arruda é jornalista e editor de politica

