Créditos: Divulgação
08-07-2026 às 08h29
Anna Marchesini*
O WhatsApp vibrou de madrugada.
Era mais uma foto. Mais um vídeo. Mais uma baixaria.
Político nu. Político xingando. Político virando meme.
E eu pensei: é isso que a gente quer pro país?
É isso que sobrou do debate público?
Cansa. Cansa na alma.
Porque enquanto a internet vira ringue, o Brasil real está na fila do posto de saúde.
Está no ônibus lotado às 6h.
Está na sala de aula com 40 alunos e uma professora heroica.
Está no pequeno empresário contando moeda pra pagar funcionário no fim do mês.
O Brasil não é meme. O Brasil é gente.
Somos a 9ª economia do mundo. 213 milhões de brasileiros.
Temos o agronegócio que alimenta meio planeta. Temos pré-sal, temos sol, temos água, temos criatividade.
País desse tamanho não merece debate de quintal.
País desse tamanho merece conversa de gente grande.
Eu não discuto político. Eu discuto política.
Político passa. Política fica.
Ideia fica. Projeto fica.
E é disso que eu quero falar.
Quero saber: qual o plano pra baixar o preço do arroz sem destruir o produtor?
Qual o plano pra escola pública formar gente que compete com o mundo?
Qual o plano pra saúde não depender de vaquinha no Instagram?
Isso é política.
O resto é torcida de futebol com camisa cara.
Respeito não é fraqueza. É estratégia de país.
A gente virou especialista em desumanizar.
Se pensa diferente, é inimigo. Se vota diferente, é traidor.
Criamos dois Brasis que não se falam.
Mas me diz: de que adianta “ganhar” a eleição e perder o país?
De que adianta comemorar no grupo se na rua o vizinho está com fome?
Respeito é deixar os dois lados mostrarem proposta. Sem apelido. Sem baixaria.
É julgar projeto, não vida pessoal.
É entender que o adversário de hoje pode ser o parceiro de amanhã numa lei que salva vidas.
Democracia madura não grita. Democracia madura constrói.
A disputa é por nós. E depois da eleição, continua.
Negro, branco, pardo. Evangélico, ateu, católico. Do campo, da cidade.
Na hora da dor no hospital, a cor não importa. Na hora do desemprego, a religião não paga boleto.
Temos as mesmas necessidades. Isso nos une.
O que nos divide é a indústria do ódio que lucra com a nossa briga.
Eleger é fácil. Difícil é cobrar.
Difícil é ler o projeto de lei. Difícil é ir na audiência pública.
Difícil é dizer: “olha, você prometeu isso. Cadê?”
Cidadão que só aparece de 2 em 2 anos é cliente.
Cidadão que cobra todo dia é dono.
E o Brasil precisa de dono. Não de torcedor.
O Brasil que eu quero
Eu quero um Brasil onde a gente discorde sem se odiar.
Onde a gente perca uma eleição e não perca a amizade.
Onde a gente entenda que o problema não é o “lado de lá”.
O problema é a corrupção, a desigualdade, a educação ruim, a saúde que falha.
E esses problemas não têm partido.
O Brasil é incrível. Mas incrível não anda sozinho.
Incrível anda quando a gente ajuda um ao outro.
Quando a gente troca a gritaria pela proposta.
Quando a gente troca a baixaria pela ideia.
Não vamos tratar voto como flamengo x vasco.
Vamos tratar voto como o que ele é: um contrato.
E contrato se cobra.
Então escolha com consciência. Escolha com dado. Escolha com futuro.
E depois da escolha, não some. Fica. Cobra. Participa.
Porque o país não se faz só em outubro.
O país se faz todo dia, no miúdo, na conversa, na decisão.
O Brasil não precisa de mais barulho.
O Brasil precisa de mais gente disposta a construir.
E construir,começa com respeito.
*Anna Marchesini é Educadora e Palestrante

