Rio das Velhas, São Francisco e Parnaíba até alcançar o litoral do Piauí. Créditos: Reprodução
28-06-2026 às 07h39
Téo Natureza*
Toda grande jornada começa muito antes da primeira remada. A minha
começou aos 15 anos, nas águas do Ribeirão Jaboticatubas, perto de lagoa
santa. Ali no meio do mato, com o improviso de umas jangadas de
bananeira amarradas com cipó que realizávamos entre gritos de alegria, eu
e meu amigo Adélsio Aparecido plantamos uma semente: o sonho de seguir
o curso das águas até encontrar o mar.
O tempo passou, mas o rio nunca saiu de mim. Aos 18 anos, chegando em
casa de madrugada, liguei a tv e vi no filme ” O amargo pesadelo”, a
descida de umas canoas canadenses em rios turbulentos, e isso me
emocionou profundamente. Naquele instante, eu soube que eu já tinha um
sonho, e agora acabava de conhecer a embarcação apropriada para realiza-
lo. Aquelas imagens foram o combustível que eu precisava.
passando-se mais tempo aos 28 anos, na cidade de São Thomé das Letras,
o destino se selou. Ali, mochilando com amigos, convidei Luiz Henrique e
Pedro Benevides que andavam comigo na época, para “sumirmos pra
sempre e virarmos lenda”. Eles aceitaram…O que os repórteres mais tarde
chamaria meio que de “bagunça” ou ” A Armada de Brancaleone” foi, na
verdade, uma arquitetura minuciosa de anos:
Por sorte ou ironia do destino, eu encontrei o molde das canoas com um
amigo chamado Beto, e como foi auspicioso esse momento! A partir daí foi
fácil construir elas em fibra de vidro.
Apresentei o beto pro Luiz Henrique que comprou o molde posteriormente.
Tive a sabedoria de trazer o Luiz Carlos, meu amigo de infância que
conhecia os segredos da sobrevivência na selva.
Eu desenhei a estratégia: a logística de buscar sustento com as cestas
básicas nas prefeituras ribeirinhas, coisa que aprendi em minhas andanças,
garantindo uma base de alimentos em todo percurso.
E no dia da partida, finalmente colocamos as canoas na água, era pra serem
três integrantes mas tinham seis, o luiz henrique tinha convidado outros
dois amigos dele que eu não conhecia, senti então o que eu deveria fazer
pra que desse certo o meu plano: navegar o Rio das Velhas que era a pior
parte. Naveguei o trecho mais ariscado, técnico e traiçoeiro, domando o
Rio até o encontro com o São Francisco, deixando a expedição segura e
pronta para o resto do seu destino. Eu sabia que teria de “sacrificar” algo
para que as canoas chegassem ao mar, e esse sacrifício seria a minha
ausência no meu próprio invento e sonho… O meu “projeto” de criança era
incompatível com as coisas que aconteciam nos bastidores daquela
viagem…
A história escrita por outros falou em “desorganização”, mas esqueceu de
contar sobre o suor da construção e sobre a chegada emocionante do
Adélsio aparecido que pegou um ônibus e entro na expedição mais a rio
abaixo (amigo que fazia as jangadas comigo bem antes de tudo acontecer) .
Saí em Barra do Guaicuí com o coração pesado, mas com a alma lavada.
Saí porque o espírito daquela jornada — que deveria ser de liberdade e
amizade e havia sido ferido por conflitos que eu não podia aceitar. Outros
seguiram e colheram os louros; como tinham os previlégios de serem
parentes e conhecidos dos repórteres, conseguiram ocultar o meu nome e o
nome do adelsio nas reportagens. Foram chamados para darem entrevista
na Cemig e não nos chamaram…A notícia da expedição rumo ao oceano
estamparam as páginas da revista IstoÉ e do jornal Estado de Minas,
enquanto a Globo nos substimou na largada e as imagens da Rede Minas se
perderam no tempo. Até o grande Amyr Klink reconheceu a grandeza do
que fizemos.
Hoje, não busco apenas um registro. Busco a honra de quem plantou a
semente. Essa saga que cruzou estados até o Piauí não foi um acaso; foi o
fruto de um menino que olhou para uma bananeira e viu uma embarcação,
e de um homem que, inspirado por uma cena de cinema, olhou para o
horizonte e viu o mar. A história é de quem sonha, arquiteta e abre o
caminho.
*Téo Natureza
Idealizador e Estrategista da primeira Expedição do Rio das velhas rumo ao
oceano depois do britânico Richad Buton.
O Rio que Nasceu em Mim: A verdadeira saga da expedição de canoas
canadenses de Lagoa Santa ao Piauí em 1998.
Zap 35 99146-6819
De Lagoa Santa ao mar: a saga da expedição que cruzou o Brasil em
canoas https://share.google/dU5Pa0ZW8lC3MJd0D

