Novo ESG - créditos: IA
09-06-2026 às 08h010
Cristiane Helena de Paula Lima Cabral[1]
Seja em virtude do seu mercado consumidor, das suas reservas de terras raras ou do novo tarifaço promovido pelo governo norte-americano, o Brasil ocupa hoje posição central nas discussões globais.
A geopolítica mundial revela-se, a cada dia, um verdadeiro cabo de guerra; estar preparado tanto para novos embates quanto para novas formas de relacionamento representa o principal desafio da atualidade.
Os conflitos envolvendo Estados Unidos e Irã, somados ao contexto pandêmico e pós-pandêmico, bem como à guerra entre Ucrânia e Rússia, provocaram intensas turbulências econômicas e fizeram crescer as incertezas nas relações, o que se reflete automaticamente no campo dos negócios.
Além das incertezas inerentes ao cenário geopolítico, os Estados devem atentar para o risco geopolítico, entendido como os potenciais riscos políticos, econômicos, militares e sociais decorrentes do envolvimento de uma nação em assuntos internacionais. Isso se torna ainda mais relevante diante de uma nova ordem mundial marcada pela rejeição ao multilateralismo e pela crescente descrença no Direito Internacional.[2]
Torna-se cada vez mais necessário que os países busquem maior autossuficiência ou ampliem seus investimentos em novos mercados, a fim de se destacarem e promoverem seu desenvolvimento econômico.
Nesse cenário, as relações interestatais deixam de se basear exclusivamente na sustentabilidade e passam a incorporar um novo conceito de ESG, centrado em economia (especialmente energia), segurança e geopolítica.
No caso brasileiro, o setor minerário configura-se como um dos principais pilares estratégicos, considerando que o país detém a maior reserva mundial de nióbio e, ao lado da Austrália e Rússia, lidera as reservas de minério de ferro, além de possuir a segunda maior reserva de terras raras, atrás apenas para China.
A energia, diretamente vinculada à economia, nunca esteve tão central quanto em 2026, uma vez que o avanço econômico, a coesão social e a autonomia estratégica tendem a ser priorizados em relação a compromissos climáticos de natureza mais abstrata. Concebido como um elemento-chave de poder, o tema energético articula-se com a política industrial, a defesa e a atuação geopolítica. Sob a ótica da gestão de riscos, trata-se de uma leitura direta de riscos sistêmicos de longo prazo.
Em 2026, a dimensão “E” dentro da nova abordagem ESG coloca a energia como um fator decisivo para competitividade, controle de custos e continuidade das operações.
No âmbito do “S”, voltado à segurança, observa-se que o avanço da inteligência artificial exige não apenas investimentos em cibersegurança — diante da tendência de crescimento dos ataques cibernéticos —, mas também uma abordagem ampliada que contemple segurança energética, operacional, de suprimentos e de pessoas. O “S” deixa de ser apenas social e passa a ser também estrutural, especialmente para a relação entre as organizações.
Em relação ao “G”, o governance deixa de estar atrelado apenas à governança corporativa tradicional e passa a incorporar dimensões geopolíticas. É preciso alinhar os investimentos aos interesses nacionais e regionais com as novas escolhas de fornecedores e manter relações em que seja possível prever a instabilidade e os efeitos regulatórios e fiscais.
Dessa forma, o novo conceito de ESG ultrapassa a esfera da sustentabilidade isolada, exigindo sua articulação com a capacidade de desenvolvimento em um contexto marcado por tensões políticas, riscos à segurança e desafios de competitividade. Mais do que isso, impõe-se às organizações a necessidade de manter estabilidade operacional de longo prazo, bem como de adotar mecanismos que promovam resiliência estratégica, autonomia e uma gestão de riscos alinhada ao planejamento estratégico.
[1] Doutora em Direito Público Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestre em Ciências Jurídico-Internacionais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa-PT. Professora dos Cursos de Pós-Graduação em Direito Internacional da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Servidora do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. Professora Universitária. Mãe de duas pequenas grandes mulheres. Contato: crishelenalima@gmail.com
[2] Cfr maiores informações em: https://geopoliticalfutures.com/risk/. Acesso em 2 de junho de 2026.

