Copa do Mundo 2026, EUA, Canadá e México - créditos: divulgação
21-06-2026 às 16h24
Elizabeth Accioly
A Copa do Mundo deveria ser, por definição, um território simbólico de encontro entre povos, sob as mesmas regras, com a mesma bola e, pelo menos em teoria, com as mesmas oportunidades. Durante algumas semanas, as fronteiras políticas, as rivalidades diplomáticas e as tensões entre Estados deveriam ceder lugar a uma ideia simples: a competição esportiva internacional exige igualdade de tratamento. Mas este Mundial mal começou e já parece merecer cartão amarelo. O evento que se apresenta como festa universal está sendo atravessado por decisões migratórias seletivas, recusas de entrada, suspeições políticas e uma preocupante postura evasiva da FIFA diante de situações que exigiriam respostas mais firmes.
O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan é um dos exemplos mais emblemáticos. Escolhido para apitar os jogos da Copa, depois de ter sido distinguido como o melhor árbitro africano em 2025, Artan foi impedido de entrar nos Estados Unidos, com base em alegadas razões de segurança. A FIFA, por sua vez, limitou-se a afirmar que não interfere em decisões de imigração do país anfitrião e confirmou que pagará integralmente o valor devido ao árbitro. Ou seja: indeniza-se o constrangimento, mas normaliza-se a arbitrariedade.
Por certo, a concessão de vistos é competência dos Estados, não da FIFA. Isso, porém, não a exime de responsabilidade: é ela que escolhe os países organizadores, negocia garantias, impõe exigências, vende direitos televisivos, controla patrocínios e transforma a Copa num dos maiores negócios do planeta. Se tem força para exigir estádios, zonas comerciais, protocolos de segurança e regras minuciosas sobre marcas e direitos de transmissão, também deveria ter força para exigir garantias sérias de acesso aos participantes credenciados e respostas firmes diante de episódios que atingem os princípios de igualdade e não discriminação. Não pode controlar todos os detalhes do espetáculo e, ao mesmo tempo, manter distância quando participantes enfrentam barreiras de entrada ou quando casos sensíveis são tratados como simples mal-entendidos.
O caso do Irã amplia essa preocupação e mostra como a política invade o campo quando deveria permanecer nas arquibancadas. Os jogadores iranianos receberam autorização para competir, mas membros da estrutura da equipe enfrentaram recusas, atrasos e incertezas que afetaram a preparação regular da seleção. Mais recentemente, o atacante Mehdi Torabi teve sua participação ameaçada por problemas de visto, enquanto a comissão iraniana reclamou de um “caos logístico” nos deslocamentos e treinos. No atual clima de tensão entre Washington e Teerã, uma prova mundial não deveria ser tratada como prolongamento dessas disputas. Quem garantiu presença no Mundial deve encontrar, fora das quatro linhas, condições minimamente justas para competir. Criar obstáculos administrativos não é um detalhe burocrático. É uma forma de desigualdade competitiva.
Do ponto de vista do Direito Internacional, o problema vai além da burocracia migratória. Eventos globais como a Copa deveriam ser orientados por valores mínimos de igualdade, não discriminação, boa-fé e respeito à dignidade humana. Nenhuma exigência de segurança ou conveniência política deveria funcionar como cartão vermelho contra esses compromissos. Também por isso, a FIFA não deveria limitar-se a uma neutralidade formal diante de obstáculos migratórios, suspeitas seletivas ou condutas que atentem contra a dignidade humana. Quando o tratamento dado a participantes e oficiais parece variar conforme a origem, o passaporte ou a conveniência política, há algo errado antes mesmo de a bola rolar.
Estados Unidos, Canadá e México, ao aceitarem organizar conjuntamente este Mundial, assumiram deveres especiais perante a comunidade esportiva internacional. Esses compromissos incluem garantir acesso razoável, previsível e não discriminatório a todos os participantes credenciados, bem como à imprensa e, dentro dos limites legais, aos torcedores. No fundo, este debate nos obriga a fazer uma pergunta simples: que “mundo” cabe afinal numa Copa do Mundo? Cabe apenas quem recebe autorização para entrar em campo? Ou cabe a diversidade real do planeta, com suas diferenças, tensões e contradições, disputando o mesmo jogo sob as mesmas regras?
A Copa vende a imagem de uma grande confraternização em torno da bola. Mas essa imagem perde força quando a entrada na festa parece depender mais de conveniências políticas do que de critérios objetivos. A soberania dos Estados deve ser respeitada, sim. Mas também deve ser exercida com responsabilidade, sobretudo quando esses mesmos Estados se oferecem para acolher um evento que pertence, simbolicamente, ao mundo inteiro.
O título de campeão do mundo só faz sentido se o mundo puder estar presente. Quando o Direito Internacional é colocado no banco de reservas, o jogo deixa de ser limpo. E uma competição disputada sob regras que não valem igualmente para todos termina sempre com um resultado injusto, por maior que seja o espetáculo.

