11-10-2026 às 08h00
Luiz Othávio de Freitas*
Há pelo menos alguns dias após as votações, ando pelas ruas e percebo as pessoas desanimadas, talvez aflitas, resultado da grande trama a qual todos nós, brasileiros, estamos agora envolvidos. Esse sentimento foi o que sobrou do último domingo (4), quando o TSE fechou a apuração do primeiro turno das eleições, onde Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos e Lula (PT) 45,16%, deixando ao país o compromisso de voltar às urnas em 25 de outubro. Só que o número mais eloquente não era de nenhum dos candidatos. A abstenção, de 21,08%, foi recorde, pelo menos desde 1998. Mais de 33 milhões de eleitores ficaram em casa. É gente demais para chamarmos de desinteresse, e talvez seja, mais do que tudo, cansaço.
Assim como esses brasileiros, por impossibilidade geográfica-temporal, não pude me manifestar nas urnas. E é evidente que os resultados – em especial para a Câmara e Senado – me inquietaram ao imaginar os próximos passos do Brasil. Pus-me então a perguntar o que de fato preocupa o brasileiro neste momento de eleição: será o custo de vida, a segurança, a saúde, o emprego, a educação, o futuro? Tudo isso, claro, e com razão! Mas desconfio que, debaixo dessas aflições visíveis a olho nu, exista outra camada – ou várias outras camadas – menos compartilhada, que decide se as promessas de palanque terão alguma chance de vingar. Saber quem governa com quem, o quanto pode fazer, afinal, um presidente, e em especial, que lugar o Brasil quer ocupar num mundo que se reorganiza são questionamentos devidamente importantes. Por isso, escrevo para quem ainda tem dúvidas, e dúvida, em tempos de certezas gritadas, é sempre bem-vinda.
Comecemos pelo que se esquece. Ao menos desde 1988, nenhum presidente governa o Brasil sozinho. O voto no Congresso é tão fragmentado que o presidente raramente conta com maioria própria, e precisa construí-la, partido a partido, com negociação de ministérios, cargos e verbas. É o que ficou conhecido como “presidencialismo de coalizão”. Funcionou, e bem, do meio dos anos 1990 ao início dos 2010, mas cobrou seu preço. Foi assim que boa parte da energia política dos governos passou a ser gasta em negociação permanente. Quando esse arranjo se desgastou, o STF ocupou espaço a partir do ativismo judicial, e passou a decidir o que antes se resolvia no Congresso ou no Executivo. Há quem leia as duas fases como faces de um mesmo fenômeno onde a política deixa de decidir os rumos do país e passa a administrar o que se julga possível, primeiro por acordos parlamentares, depois por decisões judiciais. O presidente segue no centro do palco, mas não escreve o roteiro sozinho.
De todos os campos de atuação do Poder Executivo, a Política Externa é, curiosamente, onde o presidente mais pode inovar. No vasto campo das relações internacionais, um governo escolhe quais serão as alianças desenvolvidas com outros Estados durante seu mandato, participa de blocos que promovem integração, e define qual será seu alinhamento com grandes potências (ainda que tratados dependam de aprovação do Congresso e a saída de organismos seja tema juridicamente controverso). Por isso me demoro no tópico um pouco mais: é onde acontecem as escolhas que mais mudam o país, bem como sua percepção global, e ao mesmo tempo a que menos aparece nos debates. Chegamos, então, ao mundo, e pálidos o assistimos atravessar uma nova ofensiva neoliberal. Isto porque a crise do modelo tornou-se profunda demais para ser ignorada e o colapso das bases econômicas que sustentaram a globalização das últimas décadas não produziu, até aqui, uma ruptura com o receituário já conhecido. É o turn to the right-wing, ou a guinada à Direita operando.
Isso não deveria nos surpreender! O Brasil viveu, nos últimos anos, uma espécie de exceção em relação a um dos movimentos mais amplos do mundo atual. Enquanto diferentes países recolocavam o Estado no centro da política econômica, protegendo setores estratégicos ao ampliarem políticas industriais e admitirem novamente a intervenção pública como instrumento de desenvolvimento, o Brasil caminhou em sentido diferente. A experiência brasileira foi marcada por uma persistente tentativa de reduzir o espaço de atuação do Estado justamente quando o restante do mundo começava a rediscutir os limites do mercado. Agora, porém, essa excepcionalidade parece chegar ao fim, pois a crise do modelo econômico se tornou global. E, diante dela, a disputa política passa a ser sobre qual Estado queremos construir, para quem ele deve funcionar e qual posição pretende ocupar em um mundo que está, simultaneamente, se fragmentando e se reconstruindo.
A ordem política que emergiu da Guerra Fria na década de 1990, com uma só superpotência, cedeu lugar a um cenário multipolar, em que Estados Unidos e China disputam ainda influência econômica e tecnológica, enquanto países como Índia, Brasil e Turquia buscam margem própria de manobra. Hoje, duas visões se contrapõem entre nós. De um lado, o multilateralismo e a diversificação, com o Brasil como ator de peso no Sul Global, no BRICS, no Mercosul, nos foros multilaterais, aberto internacionalmente e dialogando com todos; e de outro, o alinhamento bilateral prioritário aos Estados Unidos em busca de um suposto investimento milagroso em tecnologia, mercado(s) e proteção contra pressões comerciais (será mesmo?). Nesse mesmo terreno entra o BRICS. O que se torna evidente (e crítico) até aqui é a possibilidade de redução da participação brasileira quando se há alinhamento aos EUA. E é válido destacar que nossa baixa participação no grupo, ou a saída dele, diminuiria nosso peso nas negociações e poderia custar mercados. Em contraponto, os defensores da aproximação com Washington respondem que o bloco ganhou perfil “antiocidental” e que há mais a ganhar com os parceiros ocidentais. Mas novamente: o que quer, afinal, o brasileiro?
Outro ponto é o dilema já conhecido das terras raras, que costuma ser lido apenas como uma disputa tecnológica mas, na verdade, é uma discussão sobre soberania. O Brasil detém uma das maiores reservas do mundo, atrás apenas da China, e esses elementos estão na base da economia do século XXI. Os ímãs permanentes de veículos elétricos e turbinas eólicas, os sistemas de defesa, a eletrônica avançada e parte da cadeia dos semicondutores compõem o arsenal tecnológico do futuro, e quem controla essa cadeia define o ritmo da transição energética e da corrida tecnológica. Não por acaso, os EUA, que querem reduzir a dependência da China, olham para o nosso subsolo com interesse estratégico. O mesmo vale para o território e o litoral, que teve discussão sobre a ocupação e a privatização de faixas da costa, como a que envolveu a chamada PEC das Praias. Todas essas tentativas de minar o território brasileiro passam pela mesma pergunta: o Brasil será sujeito ou objeto da disputa geopolítica deste século?
Esse dilema diz sobre o que fazemos com o que temos, já o de posicionamento geoestratégico brasileiro no Mercosul, é sobre quem somos. Discute-se se o bloco deveria ser flexibilizado para que cada membro negocie por conta própria, inclusive com os Estados Unidos, sob a promessa de liberdade e velocidade. Mas questiono: liberdade para quê, e velocidade rumo a onde? Vejamos o que está em jogo. O Mercosul dá ao Brasil algo que nenhuma mesa bilateral daria, com a condição de liderar a América do Sul sem dominá-la, fazendo o papel de fiel da balança numa região que já conheceu todas as formas de tutela. Essa posição não foi concedida por potência alguma. Foi construída, ao longo de décadas, por uma ampla e forte diplomacia que fala com Pequim e com Washington, com Bruxelas e com Nova Délhi, com o mundo árabe e com a África, sem se curvar a ninguém. Poucos países têm esse trânsito, e ele é, no sentido mais pleno, nosso: brasileiro!
E isso importa porque o mundo caminha, cada vez mais, para duas margens. De um lado, um império falido e seus aliados, que tentam sustentar a própria riqueza empobrecendo os demais por meio de tarifas, sanções, dívida e dependência tecnológica. De outro, o resto do mundo em cooperação, que aprende a comerciar em moedas próprias e a erguer instituições que não passam por Washington. Dividido, cada país negociaria sozinho, e sozinho ninguém dita os termos. A pergunta sobre o Mercosul é, no fundo, uma pergunta sobre o Brasil que se estabelece: para quê e para quem? Trata-se de um país que usa sua escala e sua credibilidade para elevar toda a região, ou um sócio menor de quem vive de transferir riqueza para fora? Negociamos como líder de um bloco ou como país isolado? Ou, mais incisivamente: jogaremos fora todo o ideal de Brasil construído sob esforços coletivos durante tantos anos?
Ao fim, o brasileiro está preocupado, e com razão! Os preços altos, a segurança frágil, a educação colapsada, o emprego e a saúde são coisas concretas, que pesam no bolso e na vida de cada um. Ainda, há o risco iminente de perdermos o Brasil que conhecemos hoje, cedendo, conscientemente, espaço para intervenção (e minagem territorial) externa, como aconteceu com China, Rússia, México, Panamá ou Cuba. Mas tão importante quanto elas é entender os limites dentro dos quais o país é governado e o lugar que escolhe ocupar num mundo em que as regras estão sendo reescritas. Concorde-se ou não, a leitura lembra que eleição não é só escolher quem administra, mas quais perguntas o país aceita fazer a si mesmo e quanto das respostas consegue conceber. Um voto informado não garante a escolha ideal, mas dificulta ser enganado, seja por promessas que o cargo não cumpre, seja por alarmes que a realidade não confirma, bem como os possíveis (e terríveis) riscos mascarados pelo discurso.
Se estas linhas ajudarem um único eleitor a perguntar melhor, terão feito seu papel. Mas perguntar melhor só muda o país quando a pergunta chega até a urna. Resta, então, quem ficou de fora: eu, talvez você, nós. Os 33 milhões de brasileiros que não foram às urnas no dia 4 são vizinhos, colegas, parentes, e nenhuma dessas pessoas está dispensada da escolha seja por qualquer impedimento atemporal ou simplesmente porque se cansou. Abster-se não suspende o futuro, apenas entrega a outros a caneta que escreve o roteiro de forma mais rápida. Cada decisão que discutimos aqui, do que cabe no poder do cargo, do lugar que o Brasil ocupa, será tomada de qualquer jeito, com a nossa voz ou sem ela. Sei que o cansaço é real, mas também pode ser o terreno onde as certezas gritadas mais prosperam. Por isso, no dia 25 de outubro, quem puder, vote; e quem não puder, converse, pergunte, empreste argumentos a quem vai. Que o Brasil não seja decidido pelos que gritam mais alto, mas por todos os que têm algo a dizer, e que, desta vez, ninguém fique em casa!
*Luiz Othávio de Freitas, é Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia e Mestrando em Direito Público (Cultura, Cidadania e Direitos Humanos) pela Universidade Federal de Minas Gerais. É pesquisador do Centro de Excelência Jean Monnet em Estudos Europeus, Internacionais e Comparados e do Grupo “MacroPODER: Macrofilosofia, Política e Ontoteleologia do Direito, do Estado e das Relações Internacionais”. Contato: lzoofs@ufmg.br.
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