Créditos: Divulgação
08-10-2026 às 12h34
Direto da Redação*
A moda vai muito além das vitrines e das tendências. Em Minas Gerais, tecidos, vestuário e calçados formam uma cadeia econômica que conecta indústria, confecção, comércio, fornecedores e pequenos negócios, com presença em dezenas de municípios e forte capacidade de geração de empregos. É o que mostra análise elaborada pelo Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência da Fecomércio MG, a partir de dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC/IBGE) de julho de 2026 e de informações sobre a estrutura empresarial e territorial do setor.
A leitura dos dados revela uma combinação de força estrutural e maior exposição às oscilações do mercado. Em Minas Gerais, a atividade de tecidos, vestuário e calçados teve desempenho superior ao brasileiro durante boa parte de 2024 e 2025, mas entrou em trajetória de retração em 2026. No acumulado em 12 meses, o segmento passou de estabilidade em janeiro, com 0,1%, para quedas sucessivas até chegar a -5,1% em julho, pior resultado da série analisada. No mesmo mês, o comércio varejista mineiro ainda apresentava resultado positivo de 0,8%.
O movimento contrasta com o desempenho observado nos dois anos anteriores. Em 2024, Minas Gerais saiu de um cenário bastante negativo, com retração de 12,7% em janeiro, e encerrou dezembro com crescimento de 4,2%, acima dos 2,9% registrados no país. Em 2025, a vantagem mineira permaneceu durante praticamente todo o ano, com o segmento chegando a 6,6% em maio e junho, enquanto o Brasil registrava 5,0% e 5,5%, respectivamente. A partir do fim de 2025, porém, o ritmo perdeu força e a diferença se inverteu.
Para a economista da Fecomércio MG Fernanda Gonçalves, o comportamento recente precisa ser observado à luz da própria estrutura da atividade em Minas. “A moda tem uma presença econômica mais expressiva em Minas Gerais do que no Brasil. Isso faz com que o estado consiga capturar de maneira mais intensa os efeitos de um ambiente favorável, mas também fique mais exposto quando o consumo perde força ou a concorrência aumenta”, avalia.
A maior exposição está relacionada ao peso que a cadeia possui na economia mineira. A moda representa cerca de 5,2% dos estabelecimentos do estado, acima dos 4,4% registrados no Brasil. No comércio, a participação também é maior: aproximadamente 15% do comércio mineiro está relacionado à moda, ante 13,6% na média nacional.
Essa especialização ajuda a explicar o comportamento observado nos últimos anos. Quando o consumo cresce, as condições de crédito melhoram ou o comércio doméstico ganha competitividade, os efeitos positivos alcançam não apenas as lojas, mas toda a cadeia produtiva. O movimento contrário também é verdadeiro: uma retração nas vendas pode atingir produção, distribuição, varejo e emprego de forma simultânea. “Estamos falando de uma cadeia bastante integrada. Por isso, o desempenho do varejo não pode ser analisado de forma isolada. Quando a atividade perde ritmo, o impacto pode chegar rapidamente a outros negócios e aos municípios que têm na moda uma importante base econômica”, afirma Fernanda.
Essa capilaridade aparece na distribuição territorial dos Arranjos Produtivos Locais (APLs). Minas Gerais reúne 18 APLs ligados à moda, distribuídos por 87 municípios, com aproximadamente 67 mil empresas formais e cerca de 80 mil empregos diretos.
A concentração de vínculos formais também evidencia polos consolidados, como o vestuário da Região Metropolitana de Belo Horizonte e o polo calçadista de Nova Serrana, referências nacionais em seus segmentos. Nesses territórios, a atividade de moda ultrapassa a função comercial e se integra à geração de renda, ocupação e arrecadação local.
A análise também chama atenção para a concorrência internacional. A presença de produtos asiáticos é especialmente relevante nos segmentos de tecidos, vestuário, acessórios e calçados. A predominância da China em tecidos, vestuário e acessórios e a liderança de Vietnã e Indonésia no mercado de calçados reforçam a importância das condições de importação para a competitividade da cadeia brasileira. “Competitividade, qualificação profissional, acesso ao crédito e ambiente de negócios precisam ser considerados de maneira integrada. Em uma cadeia tão distribuída pelo território mineiro, fortalecer a moda significa também fortalecer a economia dos municípios onde essa atividade está concentrada”, destaca Fernanda.
Os dados, portanto, apresentam uma fotografia de um setor que combina relevância e vulnerabilidade. A moda tem participação empresarial acima da média nacional, forte presença territorial e capacidade de gerar ocupação, mas também responde de maneira sensível às mudanças na renda das famílias, ao crédito, à sazonalidade e à concorrência do comércio eletrônico internacional.
Para a Fecomércio MG, esse cenário reforça a necessidade de acompanhamento contínuo e de estratégias voltadas à competitividade do setor. O peso da moda na estrutura econômica mineira faz com que seus movimentos tenham reflexos que ultrapassam o comércio e alcançam a indústria, os serviços, os fornecedores e os mercados de trabalho locais.
Sobre a Fecomércio MG
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio MG) é a principal entidade representativa do setor do comércio de bens, serviços e turismo no estado, que abrange mais de 800 mil empresas e 54 sindicatos. Sob a presidência de Nadim Elias Donato Filho, a Fecomércio MG atua como porta-voz das demandas do empresariado, buscando soluções através do diálogo com o governo e a sociedade. Outra importante atribuição da Fecomércio MG é a administração do Serviço Social do Comércio (Sesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) em Minas Gerais. A atuação integrada das três casas fortalece a promoção de serviços que beneficiam comerciários, empresários e a comunidade em geral, a partir de suas diversas unidades distribuídas pelo estado.

